Perfil dos acidentes de trabalho fatais em empresa de petróleo no período de 2001 a 2016
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
ISSN: 2317-6369 (online)
http://dx.doi.org/10.1590/2317-6369000044718
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Hilka Flávia Saldanha Guidaa
https://orcid.org/0000-0002-0743-7809
Marcelo Gonçalves Figueiredob
Perfil dos acidentes de trabalho fatais em empresa
de petróleo no período de 2001 a 2016
https://orcid.org/0000-0001-5612-2929
Profile of fatal occupational accidents in
an oil company between 2001 to 2016
Élida Azevedo Henningtona
https://orcid.org/0000-0003-2601-0234
a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz),
Escola Nacional de Saúde Pública
Sergio Arouca. Rio de Janeiro,
RJ, Brasil.
b Universidade Federal Fluminense (UFF),
Engenharia de Produção.
Niterói, RJ, Brasil.
Contato:
Élida Azevedo Hennington
E-mail:
Os autores informam que o projeto que
deu origem a este trabalho recebeu
apoio financeiro para realização
do trabalho de campo. Os recursos
foram provenientes do Programa de
Excelência Acadêmica da Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (PROEX-CAPES),
Programa de Pós Graduação em Saúde
Pública da ENSP/Fiocruz (Chamada
Interna 2018.2).
Os autores informam que o trabalho
foi baseado na tese de doutorado
intitulada Acidentes de trabalho fatais
em empresa brasileira de petróleo e
gás: uma análise situada das mudanças
na política de segurança e saúde dos
trabalhadores, de Hilka Flavia Saldanha
Guida, apresentada em 2019 na Escola
Nacional de Saúde Pública Sergio
Arouca, Fiocruz.
Tema Livre/
Artigo
Resumo
Objetivo: analisar fatalidades por acidente de trabalho ocorridas no período de
2001 a 2016 em empresa brasileira de petróleo e gás. Métodos: os dados foram
extraídos dos relatórios de sustentabilidade social publicados pela empresa.
As informações foram complementadas a partir de documentos disponíveis na
biblioteca da empresa, documentos sindicais e notícias da mídia. Resultados: há
predominância de fatalidades na área de exploração e produção (55,0%), área
de refino (15,0%) e engenharia/obras (13,0%). As plataformas apresentaram
o maior número de óbitos (19,4%), seguida das refinarias (14,4%) e poços de
petróleo (8,1%); veículos automotores causaram 15,8% dos acidentes fatais.
As ocupações com mais acidentes fatais foram motorista ou ajudante de
motorista (14,4%), técnico de manutenção (9,9%), técnico de operação (9,5%),
ajudante (6,8%), auxiliar técnico (5,9%) e operador de equipamento (4,5%).
Conclusão: as mortes na indústria de petróleo e gás atingiram principalmente
trabalhadores terceirizados da área de exploração e produção, sobretudo
em atividades relacionadas com o trabalho em plataformas, corroborando
estatísticas internacionais sobre o alto risco do trabalho offshore.
Palavras-chave: acidentes de trabalho; mortalidade ocupacional; petróleo;
indústria de petróleo e gás; saúde do trabalhador
Abstract
Objective: to analyze fatalities due to occupational accidents occurred from 2001
to 2016 in a Brazilian oil and gas company. Methods: data were collected from
the social sustainability reports published by the company and supplemented by
information available at the company library, in union documents, and in the
media news. Results: fatalities predominantly occurred in the exploration and
production activities (55.0%), refining (15.0%), and engineering/construction
(13.0%). The highest number of deaths occurred on offshore platforms
(19.4%), followed by refineries (14.4%) and oil wells (8.1%); motor vehicles
caused 15.8% of the fatal injuries. Occupations with the most fatal accidents
were drivers or drivers’ assistants (14.4%), maintenance technicians (9.9%),
operation technicians (9.5%), assistants (6.8%), technician assistants (5,9%)
and equipment operators (4.5%). Conclusion: deaths in the oil and gas industry
struck mainly outsourced workers engaged in exploration and production
activities, especially on the platforms, corroborating the international statistics
on the high risk in offshore work.
Keywords: occupational accidents; occupational mortality; oil; oil and gas
industry; occupational health.
Recebido: 13/12/2018
Revisado: 23/07/2019
Aprovado: 30/08/2019
Rev Bras Saude Ocup 2020;45:e31
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Introdução
O trabalho na indústria de petróleo e gás caracteriza-se por ser de alto risco, complexo, contínuo
e coletivo. Os acidentes neste setor costumam ser
graves e/ou fatais1,2. A literatura internacional3-7demonstra que esta indústria apresenta altas taxas de
letalidade, bastante superiores a outras indústrias, e
ocorrência frequente de incidentes de alto potencial
de dano ao patrimônio8. Os acidentes ocupacionais
são apontados pelas empresas petrolíferas como
decorrentes do risco potencial elevado deste setor
produtivo; porém, medidas de prevenção e proteção
à saúde do trabalhador não podem ser desconsideradas a partir da naturalização do risco2.
Walker et al.9 apontam a relevância deste tema
para as próprias empresas de petróleo e gás do
mundo; desde o ano de 1985, através da Associação
Internacional de Produtores de Petróleo e Gás (OGP),
as empresas têm reportado publicamente informações sobre o desempenho de segurança e a ocorrência
de fatalidades. Entretanto, o reporte do desempenho é feito mundialmente de forma anônima e não
obrigatória. Além disso, como pontua Graham10, as
estatísticas internacionais deste agravo não contemplam toda a cadeia produtiva, restringindo-se à área
de upstream (exploração e produção de petróleo e gás
natural). Denkl et al.4 enfatizam que a indústria mundial de petróleo e gás, por meio de inúmeros esforços
e melhorias nos processos, conseguiu reduzir significativamente as taxas de acidentes fatais a partir da
década de 1990. Entretanto, esta tendência de queda
não tem se mantido nos últimos anos em alguns países; pelo contrário, em exemplos como a Nigéria, as
taxas de acidentes de trabalho fatais têm aumentado,
evidenciando que medidas eficazes não têm sido adotadas para eliminação ou redução dos riscos6.
Em relação à produção científica brasileira sobre
acidentes de trabalho na indústria de petróleo e gás,
Souza e Freitas11, em pesquisa bibliográfica sobre
acidentes de trabalho no Brasil no período de 1997
a 2001, identificaram apenas um estudo que tratava
do tema neste setor produtivo. Corroborando esse
achado, Prochnow et al.12, em estudo de revisão integrativa sobre a temática do acidente de trabalho no
Brasil no período de 2004 a 2010, não identificaram
artigos referentes à indústria de petróleo e gás.
Cordeiro et al.13 afirmam que os acidentes de trabalho são o maior agravo à saúde dos trabalhadores
do nosso país. Sendo assim, destaca-se a pertinência de realizar um estudo sobre ocorrências fatais no
setor de petróleo e gás, indústria de alta relevância
estratégica, econômica e social para o país.
Este artigo tem como objetivo analisar fatalidades por acidente de trabalho na maior empresa
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de petróleo e gás brasileira, no período de 2001 a
2016, a partir da categorização dos acidentes e dos
acidentados. Compreende-se que o conhecimento
aprofundado dos acidentes fatais pode (...truncated)