Permeation enhancers in transdermal drug delivery systems: a new application of cyclodextrins
Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas
Brazilian Journal of Pharmaceutical Sciences
vol. 38, n. 1, jan./mar., 2002
Promotores de permeação para a liberação transdérmica de
fármacos:uma nova aplicação para as ciclodextrinas
Maria Rita Fernandes Morais Martins e Francisco Veiga*
Laboratório de Tecnologia Farmacêutica, Faculdade de Farmácia, Universidade de Coimbra, Portugal
*Correspondência:
F. Veiga
Faculdade de Farmácia de Coimbra
Rua do Norte, 3000
Coimbra (Portugal)
No presente trabalho é feita uma breve revisão sobre promotores
de permeação cutânea, descrevendo-se os seus mecanismos de ação
e alguns exemplos. Abordam-se as vias de permeação de fármacos
através da pele e liberação transdérmica. São também focadas as
ciclodextrinas e seus derivados, a sua estrutura e propriedades
físico-químicas, formação de complexos de inclusão e o seu papel
como excipientes em sistemas transdérmicos. As ciclodextrinas
constituem um grupo de excipientes que têm um papel de grande
importância em formulação farmacêutica. Uma das mais
extraordinárias propriedades destas moléculas é a sua capacidade
de incrementar a liberação de fármacos através da pele sem, no
entanto, afetar a sua função barreira.
Unitermos:
• Ciclodextrinas
• Promotores de permeação
• Liberação transdérmica
E-mail:
INTRODUÇÃO
O desenvolvimento de sistemas transdérmicos tem
suscitado interesse crescente nas últimas décadas, uma
vez que alguns fármacos foram desenvolvidos com sucesso, utilizando esta via, quer direcionados para uma ação
local, quer para uma ação sistêmica (Flynn, 1990).
A eficácia clínica de um fármaco aplicado por via
tópica depende, não só das suas propriedades
farmacológicas, mas também da sua disponibilidade no
local de ação (Loftsson, Olafsson,1998e).
A maioria dos fármacos que são utilizados no tratamento de problemas dermatológicos tem como local de
ação os tecidos mais profundos da pele. Assim, o fármaco
necessita permear o estrato córneo para chegar ao seu local de ação. Desse modo, a utilização clínica de fármacos
por esta via está limitada pela capacidade destes ultrapassarem a barreira da pele. Por exemplo, a baixa eficácia
tópica do aciclovir (análogo do nucleosídico purínico sintético, 9-[(2-hidroxi-etoxil)metil]guanina) pode ser atribuída à inadequada permeação deste fármaco antiviral através do estrato córneo até à camada basal da epiderme, isto
é, o local das lesões virais. Esta impermeabilidade da pele
devido ao estrato córneo afeta também os sistemas
transdérmicos desenvolvidos para uma ação sistêmica,
podendo causar variações individuais e imprevisíveis da
liberação do fármaco a partir de sistemas transdérmicos
de, por exemplo, nitroglicerina e estrogênios, entre outros.
A promoção de permeação de fármacos através da
pele pode ter os seguintes resultados (Matsuda, Arima,
1999):
1. melhoramento da liberação do fármaco a partir
de preparações farmacêuticas transdérmicas;
2. aumento do fluxo de fármaco através da pele ou
retenção de fármaco nesta;
3. aumento da liberação localizada, tópica ou dos
tecidos alvo através da pele;
4. combinação de 1, 2 e 3.
Com o objetivo de, por um lado, ultrapassar os problemas devidos à impermeabilidade da pele e à variabilidade biológica e, por outro, de aumentar o número de
fármacos candidatos ao desenvolvimento de medicamentos transdérmicos, vários métodos para remover reversivelmente a resistência desta barreira da pele têm sido in-
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vestigados, entre os quais, a utilização de promotores de
permeação.
Outros métodos para aumentar a liberação de
fármacos na pele baseiam-se na modificação físico-química de fármacos com capacidade de permeação fraca em
pró-fármacos que permeiem a pele com facilidade (Bonina et al., 1991), o uso de tensoativos, lipossomas e pares
iônicos, ou, mais recentemente, métodos elétricos, tais
como a eletroporação e iontoforese, a aplicação de ultrasom (a sonoforese) e a terapia gênica (Wise, 2000).
Recentemente, novo grupo de excipientes foi introduzido nas formulações transdérmicas: as ciclodextrinas. Uma
das mais extraordinárias propriedades das ciclodextrinas é a
sua capacidade de incrementar a liberação de fármacos através da pele sem, no entanto, afetar a sua função barreira.
Ao longo deste trabalho é feita revisão dos promotores de permeação transdérmicos, das ciclodextrinas e
seus derivados. Em seguida, são apresentados alguns
exemplos de como as ciclodextrinas podem contribuir
para a promoção da absorção transdérmica de fármacos.
LIBERAÇÃO TRANSDÉRMICA
A liberação transdérmica de fármacos pode ter
como finalidade ação local ou sistêmica. Os objetivos
desta última são: evitar administrações repetidas, ter liberação prolongada e manter as concentrações plasmáticas
constantes.
As vantagens da via transdérmica de administração
de fármacos são: diminuir as variações plasmáticas de
fármaco; diminuir a freqüência de administração; anular a
variabilidade da absorção oral; anular o metabolismo présistémico; possibilidade imediata de interromper a administração e constituir-se em boa alternativa à via intravenosa.
A função barreira do estrato córneo, o intervalo de
tempo entre a administração e o alcançar de concentração
terapêutica (lag-time), a possibilidade de irritação local e
a possibilidade de desencadear tolerância e/ou resistência
constituem, no entanto, em desvantagens desta via de
administração.
Os fármacos que são bons candidatos ao desenvolvimento por esta via de administração são muito potentes,
não-irritantes, com extensa metabolização hepática, com
tempos de meia-vida curtos, que não sofrem metabolismo
na pele, que não induzem tolerância e que têm bons coeficientes de partição.
VIAS DE PERMEAÇÃO DO FÁRMACO
Os apêndices da pele apenas constituem 0,1% da
superfície desta pelo que se estima ser a via trans-
M. R. Martins, F. Veiga
epidérmica a principal via de permeação de fármacos
(Suhonen et al., 1999). Assim, a absorção percutânea via
trans-epidérmica envolve a difusão através do estrato
córneo, das células viáveis da epiderme e, finalmente, das
camadas superiores da derme até à microcirculação. O
passo determinante da absorção cutânea é a permeação
através do estrato córneo. As proteínas desta camada constituem uma camada descontínua, enquanto que a fase
lipídica é contínua. Teoricamente, existem, então, duas
vias potenciais de passagem: a transcelular e a intercelular,
tal como se pode ver na Figura 1.
Contudo, em ambas as vias de permeação a estrutura
do estrato córneo obriga o fármaco a se difundir através
das bicamadas lipídicas intercelulares.
Estudos experimentais indicam que a permeação da
maioria dos compostos através da camada córnea está dependente, quer da sua lipofilicidade quer do seu tamanho
molecular (Guy e Hadgraft, 1992; Boddé et al., 1991).
PROMOÇÃO DE PERMEAÇÃO QUÍMICA DE
FÁRMACOS ATRAVÉS DA PELE
Os promotores de permeação são compostos químicos, por si só, farmacologicamente inativos, mas que podem permear ou interagir com constituintes do estrato
córneo, quando incorpor (...truncated)