Ways of inserting physicians into the healthcare production process: case of study of basic healthcare units in Belo Horizonte, Brazil
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Ways of inserting physicians into the healthcare production process:
case of study of basic healthcare units in Belo Horizonte, Brazil
Maria Terezinha Gariglio 1
Antônio Leite Alves Radicchi 2
1
Secretaria Municipal de
Saúde de Belo Horizonte.
Av. Afonso Pena 2336/12º
andar, [Funcionários].
[30130 007] Belo
Horizonte MG.
2
Departamento de Medicina
Preventiva e Social,
Faculdade de Medicina,
Universidade Federal de
Minas Gerais.
Abstract The main purpose of this paper is to
describe and analyze the ways of inserting physicians into the health production process. This
subject is justified by a belief that that this way of
working may be a problem but at the same time
may well be the key to implementing healthcare
models that are ethically and politically committed to the lives of public health system users. Initially, the problem is presented through the construction of an archetype physician and his historical and social and cultural conditioning factors, taking the work processes of physicians at
Basic Healthcare Units in Belo Horizonte as an
example that is built up through interviews and
participative observations. Some possibilities for
intervention are indicated through the introduction of new concepts and technologies that could
transform the work of these practitioners in ways
that would build up links with more responsibility for the care and lives of users of public healthcare services.
Key words Medical work, Working process, General practice, Subject, Care
Resumo O objetivo desse trabalho é descrever e
analisar o processo de trabalho ou o modo de
inserção do médico no processo produtivo em
saúde. O tema se justifica pelo entendimento de
que esse modo de trabalhar possa ser um problema e ao mesmo tempo uma chave que possibilite
a implantação de modelos de assistência eticamente e politicamente comprometidos com a vida
dos usuários dos sistemas públicos de saúde. A
descrição do problema começa pela construção
do arquétipo médico e seus condicionantes históricos e socioculturais; toma como exemplo o
processo de trabalho dos médicos em unidades
básicas de saúde em Belo Horizonte construído
através de entrevistas e observação participante
e aponta algumas possibilidades de intervenção
através da introdução de novos conceitos e tecnologias capazes de transformar o trabalho desses profissionais de modo a garantir a formação
de vínculos e de maior gradiente de responsabilização pelo cuidado e pela vida dos usuários que
procuram os serviços públicos de saúde.
Palavras-chave Trabalho médico, Processo de
trabalho, Clínica, Sujeito, Cuidado
TEMAS LIVRES FREE THEMES
O modo de inserção do médico no processo produtivo em saúde:
o caso das unidades básicas de Belo Horizonte
Gariglio, M. T.; Radicchi, A. L. A.
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Introdução
Atualmente, por todos os lados para onde olhamos, parece haver um sentimento de crise. Quer
na saúde, quer na saúde pública ou coletiva, quer
na Medicina, esse tema tem sido citado, discutido e debatido. Momentos de crise nos remetem
à possibilidade de estarmos a meio caminho de
mudanças paradigmáticas. É no campo da saúde e principalmente na vertente da saúde coletiva
que se pode perceber com mais intensidade os
sinais de possíveis mudanças paradigmáticas1.
A crise vivenciada por este campo do conhecimento humano se caracteriza por problemas
que passam pelo entendimento e construção do
conceito de saúde, que oscila entre a visão biologicista e mecanicista da saúde e doença, ao entendimento da saúde como um estado de equilíbrio
do ser humano na sua vida e na sociedade onde
vive, além das questões sociais e econômicas que
são determinantes para o estabelecimento de
políticas no contexto da saúde pública. É possível
falar de crise quando se observa um desajuste entre
discurso e prática. As causas podem ser múltiplas,
e sua associação direta a sintomas específicos, perigosa: o que é causa pode ser também efeito e viceversa2. A crise da saúde pública pode ser melhor
compreendida à luz da teoria da complexidade.
A característica mais definidora desta teoria é a
da não-linearidade entre causa e efeito, que abre
a possibilidade de aceitação de paradoxos antes
intoleráveis pela ciência convencional. A partir
desta teoria, a crise da saúde pública pode ser
entendida como um emaranhado de aspectos
históricos, econômicos, sociais, políticos e morais que são causas e ou conseqüências dos problemas encontrados e que se potencializam mutuamente. A saúde, portanto, é geradora e é operada em ambiente de grande complexidade. Dentre as causas/efeitos da crise da saúde pública,
está certamente a Medicina e a prática médica, e a
persistência de modelos centrados na produção
de procedimentos médicos voltados para a cura.
Além disso, a sociedade hoje vive em um contexto de déficit de ideais transcendentes, de exacerbação do individualismo, de desregulamentação, de exclusão social e intolerância crescentes, que se traduzem no Brasil não só como deterioração da qualidade dos serviços e aumento na
desigualdade de acesso, mas como crescente banalização da dor e do sofrimento alheios3.
Apesar da presença de todos estes elementos
da crise da saúde pública na realidade brasileira,
pode-se perceber a existência de vários movimentos geradores de mudanças. No nível macro es-
trutural está todo o esforço da reforma sanitária
brasileira em alcançar as mudanças desejadas,
culminando com o estabelecimento do arcabouço jurídico-legal do SUS. Mais recentemente, e com
certeza oportunamente, os esforços governamentais têm-se voltado para as questões de caráter
mais microestrutural: a reorganização dos serviços de saúde da ponta do sistema e, conseqüentemente, a mudança de seu processo de trabalho.
Este esforço se traduz, hoje, na implantação ampla do Programa de Saúde da Família em todo o
Brasil. Mas, apesar do consenso em torno destes
projetos considerados progressistas, os resultados obtidos na assistência a saúde do usuário,
objetivo primordial de todos eles, ainda são muito aquém do esperado e do desejado.
É neste contexto da saúde pública que se insere o problema apontado, ou seja, qual o papel do
médico nestes processos de mudanças enquanto
um ator estratégico tanto pela sua centralidade
na organização dos serviços de saúde, sua legitimidade técnica e sociocultural perante a população e equipe, quanto pela grande autonomia no
seu processo de trabalho. Os médicos, por estas
mesmas características, são também atores ou
sujeitos com grande potencialidade para gerar
mudanças. Então, a reflexão apresentada neste
trabalho tem como ponto de partida um paradoxo em relação ao trabalho e profissional médico assim expresso por Merhy4: O trabalho médico
pode ser entendido como um paradoxo tanto como
dispositivo estratégico para implantar um modelo
de atenção à saúde descompromissado com o usuário, quanto uma ferramenta a desarmá-lo e produzir um novo modo de agir em saúde.
“O médico é um problema”. “É muito difícil
discutir com o médico e faze-lo cumprir protocolos e programações”. (...truncated)