Racionalidades médicas e integralidade
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Medical rationalities and integrality
Charles Dalcanale Tesser 1
Madel Therezinha Luz 2
1
Departamento de Saúde
Pública, Universidade
Federal de Santa Catarina.
Campus Universitário,
Trindade. 88040-970
Florianópolis SC.
2
Instituto de Medicina
Social, UERJ.
Abstract The purpose of this article is to examine
integrality as the ruling principle of Brazil’s National Health System (SUS) from a comparative
perspective, based on works coordinated by LUZ
and cols. on the concept of “medical rationality”
and also on Fleck’s epistemology. Integrality has
different meanings according to patients and specialized healers; it is more relevant to the latter, for
whom it represents a permanent mission, being
linked to the healer patient relationship. Integrality constitutes a difficult problem for biomedicine,
whose expertise has torn the patient apart and
focused its actions on “biomedical diseases”. For
this field of medicine, the more specialized the environment, the more integrality is blocked. The
possibility of mitigating these blocks lies on the
outskirts of specialized circles, found in the work
of multidisciplinary teams, properly ranked by
Brazil’s National Health System (SUS) as the focus of Primary or Basic Healthcare. On the other
hand, other rationalities such as homeopathy or
traditional Chinese medicine have facilitative
knowledge and practice for the inner circles of integrality, and the challenge − in addition to its
incipient presence in this System − is to draw integrality away from its original esoteric circles into
the world of its practices.
Key words Integrality, Medical rationalities,
Alternative medicine, Public health
Resumo O objetivo deste artigo é discutir aspectos da “integralidade”, princípio normativo
do SUS, a partir de pesquisas organizadas ao redor da categoria “racionalidade médica” e da
epistemologia de Ludwik Fleck. O artigo discute
a categoria integralidade, defendendo que a mesma tem distintos significados para doentes e curadores especializados; tem maior relevância e
significa uma missão permanente para estes últimos; vincula-se ao relacionamento curadordoente e à eficácia da ação terapêutica. A integralidade constitui um grave problema para a
biomedicina, cujo saber esquartejou o doente e
centrou sua ação nas “doenças biomédicas”. Aí,
a integralidade está tanto mais bloqueada quanto mais especializado o ambiente. A atenuação
desses bloqueios passa pela periferia dos círculos
especializados e pelo trabalho em equipes multidisciplinares, traduzidos no SUS, acertadamente, como prioridade para a atenção primária ou
básica. Inversamente, outras racionalidades,
como a homeopatia e a medicina tradicional
chinesa, comportam um saber/prática facilitador da integralidade nos seus círculos esotéricos
e seu desafio, além de sua presença incipiente no
SUS, é levar ao mundo de suas práticas, a integralidade de seus círculos esotéricos originais.
Palavras-chave Integralidade, Racionalidades
médicas, Medicinas alternativas, Saúde pública
TEMAS LIVRES FREE THEMES
Racionalidades médicas e integralidade
Tesser, C. D. & Luz, M. T.
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Introdução
O tema da integralidade, princípio normativo do
Sistema Único de Saúde brasileiro (SUS), tem sido
objeto de discussão recente no Brasil1,2,3,4. O senso comum do uso institucional e profissional do
termo deixa poucas dúvidas: objetiva-se que essa
diretriz oriente, no âmbito dos serviços públicos,
e da ação de seus profissionais, uma atenção à
saúde de boa qualidade, que considere as múltiplas dimensões e dê conta das várias complexidades dos problemas de saúde pública e das pessoas, bem como dos riscos da vida moderna.
Espera-se, com isso, que os profissionais tenham
uma abordagem integral, ampla e pluridimensional da saúde individual e coletiva.
Apesar dos esforços em precisar e discutir o
tema da integralidade, ele continua um princípio
normativo, um chamamento ético e um slogan
político. Assim, uma polissemia se esconde sob
este “agregado semântico” 4, e as tentativas de
precisá-lo ou transformá-lo em um conceito têm
sido frustradas. Entretanto, problemas concretos, como o comum “baixo teor” de integralidade, conhecido dos que enfrentam os serviços, as
filas, corredores e consultórios do SUS, demandam uma abordagem urgente do tema. Há um
grande campo de estudos e trabalho institucional de gestão do SUS, no sentido de viabilizar o
acesso a diversos serviços de tipos e complexidade variada, de modo a melhorar a integralidade
da atenção à saúde. Não nos aprofundaremos
nesse aspecto do tema, embora reconheçamos
sua importância e urgência. Em vez disso, exploraremos outra possibilidade dessa discussão,
desenvolvendo-a a partir de estudos com novos
enfoques sociohistóricos, antropológicos e filosóficos, a exemplo do Grupo de Pesquisas CNPq
Racionalidades Médicas, liderado por Madel Luz.
Desde 1992, tal grupo enfoca o campo da saúde
coletiva no Brasil, levando em conta a multiplicidade de saberes e práticas presentes na sociedade
e nas instituições de saúde, em sua diversidade
política, cultural e epistemológica5.
O projeto desse grupo desenvolveu-se inicialmente em torno da categoria operacional “racionalidade médica”, criada por Luz6,7 à moda de
um tipo ideal weberiano. Uma racionalidade
médica é um conjunto integrado e estruturado
de práticas e saberes composto de cinco dimensões interligadas: uma morfologia humana (anatomia, na biomedicina), uma dinâmica vital (fisiologia), um sistema de diagnose, um sistema
terapêutico e uma doutrina médica (explicativa
do que é a doença ou adoecimento, sua origem
ou causa, sua evolução ou cura), todos embasados em uma sexta dimensão implícita ou explícita: uma cosmologia6,7. Através dessa delimitação,
precisa e específica, pode-se distinguir entre sistemas médicos complexos como a biomedicina
ou a medicina tradicional chinesa e terapias ou
métodos diagnósticos isolados ou fragmentados,
como os florais de Bach ou a iridologia, que hoje
proliferam na cultura alternativa do pós-anos
60 e da nova era8.
Com isso, o grupo de Luz pôde estudar medicinas complexas, averiguando seu potencial de
resposta a estes seis quesitos, tendo produzido
quadros comparativos sintéticos9,10 de quatro
medicinas, analisadas como racionalidades médicas: a biomedicina11, a medicina tradicional chinesa12, a ayurveda13 e a homeopatia14. Muito diversas, embora permitindo algum grau de comparação, estas medicinas mostram-se como portadoras de razão médica e de eficácia terapêutica próprias, coerentes com seu estilo de pensamento,
contradizendo o senso comum de que somente a
biomedicina seria portadora de racionalidade.
Os estudos do grupo aprofundaram-se em
vários aspectos socioepistemológicos e históricos
das práticas, dos saberes e da interação sociopolítica de algumas dessas medicinas, mais presentes
no Brasil, como a homeopatia15, a medicina chinesa16,17,18 e, evidentemente, a biomedicina, continuando sua produção a expandir-se12,19,20,21,22, 23.
Como seria pensado o tema da integralidade
a p (...truncated)