Beyond Santarém: ‘necked vessels’ in the Trombetas River basin
Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 1, p. 11-36, jan.-abr. 2018
Para além de Santarém: os vasos de gargalo na bacia do rio Trombetas
Beyond Santarém: ‘necked vessels’ in the Trombetas River basin
Marcony Lopes Alves
Universidade de São Paulo. Museu de Arqueologia e Etnologia. São Paulo, São Paulo, Brasil
Resumo: As cerâmicas Konduri (XI-XV AD) e Santarém (XIII-XVI AD), pertencentes à Tradição Inciso Ponteada, são encontradas
em áreas vizinhas ao baixo Amazonas. Uma das vasilhas mais emblemáticas da cerâmica Santarém são os vasos de gargalo,
caracterizados pela presença de um gargalo constrito com flange, base em pedestal e bojo lobado, geralmente com dois
pares de apliques formando eixos de simetrias perpendiculares. No presente estudo, a proposição de que esse grupo
de vasos ocorria exclusivamente associado à cerâmica Santarém será reavaliada. A partir da análise de dezenas de vasos
de gargalo Santarém, foi possível identificar elementos diagnósticos capazes de ser reconhecidos em fragmentos isolados.
A análise de coleções cerâmicas oriundas de contextos Konduri, por sua vez, permitiu isolar mais de uma centena de
casos com atributos diagnósticos. A revisão da literatura confirma a presença desses fragmentos em coleções que não
puderam ser diretamente observadas. Os vasos de gargalo associados à cerâmica Konduri apresentam padrões incisos
e aplicados particulares, sem equivalentes nos vasos Santarém. O compartilhamento de um tipo cerâmico tão distinto
em escala regional reforça as sugestões encontradas nos estudos etno-históricos e arqueológicos sobre a existência de
interações sociais entre os coletivos produtores das cerâmicas Santarém e Konduri.
Palavras-chave: Cerâmica Konduri. Cerâmica Santarém. Baixo Amazonas. Vaso de gargalo. Interação.
Abstract: Konduri (11th-15th AD) and Santarém (13th-16th AD) pottery styles occur in neighboring areas of the Lower Amazon and
are both part of the Incised and Punctuate Tradition. ‘Necked vessels’ are among the most emblematic types of pottery in
the Santarém style. These vessels typically have a constricted neck with a flange, pedestal base, and lobed body, generally
with two pairs of zoomorphic adornos arranged in a perpendicular manner. This study challenges the assumption that
this type of vessel was exclusively associated with Santarém pottery. Diagnostic traits to recognize necked vessels from
isolated potsherds were defined based on analysis of complete specimens from Santarém. Hundreds of Konduri potsherds
were directly analyzed or observed from available publications in order to identify diagnostic traits indicating the existence
of necked vessels. Necked vessels from Konduri contexts were seen to have their own distinct characteristics involving
particular incised patterns which differ from Santarém. The presence of such a distinct type of vessel on a regional scale
reinforces previous suggestions based on ethnohistorical and archaeological studies of the existence of social interactions
between the producers of Santarém and Konduri pottery.
Keywords: Konduri pottery. Santarém pottery. Lower Amazon. ‘Necked vessels’. Interaction.
LOPES-ALVES, Marcony. Para além de Santarém: os vasos de gargalo na bacia do rio Trombetas. Boletim do Museu Paraense Emílio
Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 1, p. 11-36, jan.-abr. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000100002.
Autor para correspondência: Marcony Lopes Alves. Universidade de São Paulo. Museu de Arqueologia e Etnologia. Av. Prof. Almeida Prado,
1466 – Butantã. São Paulo, SP, Brasil. CEP 05508-070 (). ORCID: http://orcid.org/0000-0003-2310-0648.
Recebido em 10/10/2017
Aprovado em 08/01/2018
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Para além de Santarém: os vasos de gargalo na bacia do rio Trombetas
INTRODUÇÃO
Os vasos de gargalo têm sido considerados um dos tipos
mais característicos da cerâmica Santarém (Figura 1, junto
aos vasos de cariátides presentes na Figura 2). O presente
artigo parte do levantamento de fragmentos relacionáveis
à morfologia dos vasos de gargalo em coleções cerâmicas
provenientes da região do rio Trombetas, área de dispersão
de outro estilo cerâmico, denominado Konduri. Alguns
aspectos da variabilidade formal dessas peças, como
morfologia e antiplástico, foram estudados e comparados
com os de vasos de gargalo Santarém. A partir dos resultados
dessa comparação, é proposto um modelo de reconstituição
da morfologia identificada na região do rio Trombetas,
além de hipóteses baseadas em informações históricas e
etnográficas do baixo Amazonas e de regiões vizinhas.
Em coleções museológicas de cerâmica proveniente
da região do rio Trombetas há um conjunto de fragmentos
com características tecnológicas e iconográficas
semelhantes às apresentadas pelos vasos de gargalo
Santarém. Materiais do mesmo tipo já foram apontados
como indicadores de uma ‘influência Santarém’ sobre o
estilo Konduri (Gomes, 2002). A partir da identificação da
existência de fragmentos análogos em outras coleções,
selecionamos e analisamos essas peças associáveis à
morfologia dos vasos de gargalo e as comparamos com
36 vasos de gargalo Santarém inteiros/semi-inteiros e
com oito fragmentados, pertencentes ao acervo de três
museus no Brasil. As peças estudadas da região do rio
Trombetas são majoritariamente resultado de coleta
assistemática, com indicação genérica de proveniência.
Isso não anula os resultados apresentados, uma vez que
exemplos de fragmentos com as mesmas características
foram encontrados em escavações sistemáticas
(Guapindaia, 2008; Scientia, 2013; Jácome, 2017).
A questão da relação entre os produtores das
cerâmicas Santarém e Konduri tem sido tratada desde
o início do século passado e continua em aberto.
Nimuendajú (1949, 2004) foi o primeiro a identificar,
entre 1923 e 1926, a cerâmica Konduri e propor que
a sua dispersão ocorre da região dos rios Trombetas e
Nhamundá alcançando até a serra de Parintins (Figura 3).
O lago Salé, próximo ao lago Grande de Curuaí, seria
uma ‘fronteira’, segundo Nimuendajú, uma vez que o
autor encontrou nesse lugar peças Santarém e Konduri.
Figura 1. Vaso de gargalo (‘tipo 1’ de Frederico Barata) que compõe a
coleção Valentim Bouças, do Museu Nacional/Universidade Federal
do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Foto: Marcony Alves (2015).
Figura 2. Vaso de cariátides que compõe a coleção Amazônia, do
Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro. Foto: Marcony Alves (2015).
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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 1, p. 11-36, jan.-abr. 2018
Quadro 1. Diferenças entre as cerâmicas Santarém e Konduri.
Informações sintetizadas de Hilbert, P. (1955, p. 73).
Desde o início do século passado, notou-se que
estes estilos apresentam características tecnológicas
semelhantes e aparecem em áreas contíguas. As datações
radiocarbônicas para eles mostram que a cerâmica
Konduri (XI-XV AD) começou a ser produzida um pouco
antes do que a Santarém (XIII-XVI AD), mas que essas
produções foram contemporân (...truncated)