Traditionalism and education in Rio Grande do Sul
Tradicionalismo e educação...
TRADICIONALISMO E EDUCAÇÃO
NO RIO GRANDE DO SUL
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CERES KARAM BRUM
Professora adjunta do Departamento de Fundamentos da Educação
e do Mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria – RS
RESUMO
O artigo reflete sobre o gauchismo como uma das expressões da cultura popular no Rio Grande
do Sul. O objetivo é caracterizar o Movimento Tradicionalista Gaúcho como movimento cultural
organizado e perceber as dimensões dos processos de formação dos tradicionalistas em seus
territórios, bem como as relações que o movimento estabelece com as escolas. A pesquisa foi
desenvolvida a partir de um conjunto de trabalhos de campo com base na observação participante
em escolas e em territórios do gauchismo e do tradicionalismo. A indústria cultural aparece como
recurso plural utilizado para a popularização de uma imagem do gaúcho veiculada pelo gauchismo.
TRADICÃO – CULTURA POPULAR – EDUCAÇÃO
ABSTRACT
TRADITIONALISM AND EDUCATION IN RIO GRANDE DO SUL. This article reflects on gauchismo
as one of the expressions of popular culture in Rio Grande do Sul. Its purpose is to characterize
the Gaucho Traditionalist Movement as an organized cultural movement and to understand
the dimensions of how traditionalists are educated in their territories, as well as the relations
established by the movement with schools. The research was conducted based on fieldwork with
participant observation in schools and in territories of gauchismo and traditionalism. The cultural
industry appears as a plural resource for the popularization of the gaucho image promoted by
the gauchismo movement.
TRADITION – POPULAR CULTURE – EDUCATION
As reflexões desenvolvidas neste artigo se relacionam ao projeto de pesquisa O Movimento Tradicionalista Gaúcho e a Escola: Perspectivas Pedagógicas e Educacionais. Uma Análise Antropológica
das (Re)configurações de Identidades Plurais, financiado pelo Fundo de Incentivo à Pesquisa da
Universidade Federal de Santa Maria.
Cadernosde
dePesquisa,
Pesquisa,v.v.39,
set./dez. 2009
Cadernos
39, n.138,
n. 138,p.775-794,
set./dez. 2009
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Ceres Karam Brum
Entre as expressões da cultura popular no Rio Grande do Sul chama a
atenção o conjunto de manifestações culturais que remetem à interpretação
da figura histórica do gaúcho. Ela vem sendo veiculada como símbolo regional
desde o final do século XIX até o presente. Esse processo, iniciado com a
produção e lapidação do gaúcho para sua exaltação, ocorreu a partir da criação de uma literatura regional no Rio Grande do Sul, tendo como inspiração
a literatura nacionalista uruguaia e argentina que também o utilizava.
Desde então, a presença do gaúcho como símbolo se expandiu, atingindo
caráter popular com a criação e principalmente a expansão de movimentos
tradicionalistas. 1 Nesse contexto, surgiu um conjunto de expressões que
objetivavam reproduzir no presente o modo de vida do gaúcho do passado,
para ser cultuado. Também surgiram entidades tradicionalistas, os Centros de
Tradições Gaúchas2 – CTGs –, danças, músicas, poesias, culinária, linguagem
e indumentária etc.
Essas recriações têm objetivos identitários que se expressam em estratégias de afirmação do regional, envolvendo múltiplos atores em luta simbólica
pelo monopólio de interpretação “do que foi o gaúcho”. Um desses grupos é
o Movimento Tradicionalista Gaúcho. Ele tem a dupla preocupação de formação de jovens que perpetuem o gauchismo e de sua disseminação em outros
territórios, como as escolas e universidades. Neste artigo, analiso os objetivos
e as justificativas desse movimento.
O GAUCHISMO E O TRADICIONALISMO
O tradicionalismo gaúcho é considerado por seus membros como o
maior movimento cultural popular do mundo na atualidade. Essa informação
1. Segundo Oliven (2006) a criação do movimento tradicionalista no Uruguai ocorreu com a fundação em 1894, em Montevidéu, da Sociedad Criolla. Na Argentina, segundo Fradkin (2003), o
mito do gaúcho remete a dois contextos: o de 1870 (sua consagração literária), pontuado por
profundas transformações na agricultura e a demarcação de fronteiras, e o de 1913, determinado
pela construção nacional de sua busca de definição em termos das tradições.
2. O Centro de Tradições Gaúchas é um espaço de culto ao gaúcho, uma espécie de clube
social onde se realizam fandangos (bailes) e outras atividades tradicionalistas. Em sua estrutura,
apropria-se e (re)significa a nomenclatura das antigas estâncias. Seu presidente é designado
como “patrão”, o tesoureiro é o “agregado das patacas” etc. Os homens que o frequentam
recebem a designação de “peão” e as mulheres de “prendas”.
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Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 138, set./dez. 2009
Tradicionalismo e educação...
é veiculada nos discursos das sessões solenes que pontuam a abertura e o
encerramento da maior parte de suas atividades, bem como por políticos e
demais autoridades. Oliven (2006), baseado nas informações do folclorista e
tradicionalista Lessa (1985), se refere à participação direta de dois milhões de
pessoas no Movimento Tradicionalista Gaúcho – MTG – e o seu site menciona
a existência de 1.400 entidades tradicionalistas filiadas. O gauchismo, em suas
mais variadas expressões, mobiliza milhares de pessoas em inúmeros eventos
e atividades.
Segundo Maria Eunice Maciel (1994), deve-se entender por gauchismo
diversas manifestações culturais que têm o gaúcho como ponto de referência
e que investem nessa representação, alimentando um sentimento de pertencimento. A diferença com outras dimensões do regionalismo é que o gauchismo não quer estudar ou escrever sobre o gaúcho, mas oferecer um culto às
tradições por “encarnação” de uma imagem do gaúcho. A personificação do
gaúcho pelos tradicionalistas pretende representar o “verdadeiro” gaúcho. Eles
se dão o título de “guardiões” de uma pureza, em nome de uma “autenticidade”.
Fazem parte desse universo de culto, conforme a autora, intelectuais e
literatos interessados nas tradições regionais, como, por exemplo, os poetas
membros da Estância da Poesia Crioula – EPC –, uma espécie de academia
regionalista de letras, poetas e músicos que participam dos festivais nativistas,
muitos deles também membros da EPC, os participantes dos CTGs e dirigentes
do MTG, folcloristas e dirigentes da Fundação Instituto de Tradição e Folclore.
O tradicionalismo, como manifestação do gauchismo, compreende um
conjunto de atividades organizadas e regulamentadas que objetivam celebrar
a figura do gaúcho e seu modo de vida em um passado relativamente distante,
tal como os participantes e, sobretudo,
os pesquisadores (tradicionalistas) 3 do movimento o percebem e o
definem em seus escritos, instituindo práticas de culto em torno das quais se
glorifica um passado atualizado no presente.
3. Pesquisadores do MTG são lideranças tradicionalistas que se preocupam com a autenticidade
no culto das tradições, produzindo pesquisas que influenciam o movimento. Exemplos são os
folcloristas Marina e João Carlos Paixão Cortes com produção bibl (...truncated)