Traditionalism and education in Rio Grande do Sul

Cadernos de Pesquisa, Jan 2009

This article reflects on gauchismo as one of the expressions of popular culture in Rio Grande do Sul. Its purpose is to characterize the Gaucho Traditionalist Movement as an organized cultural movement and to understand the dimensions of how traditionalists are educated in their territories, as well as the relations established by the movement with schools. The research was conducted based on fieldwork with participant observation in schools and in territories of gauchismo and traditionalism. The cultural industry appears as a plural resource for the popularization of the gaucho image promoted by the gauchismo movement.Palavras-chave : TRADITION; POPULAR CULTURE; EDUCATION.

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Traditionalism and education in Rio Grande do Sul

Tradicionalismo e educação... TRADICIONALISMO E EDUCAÇÃO NO RIO GRANDE DO SUL 1 CERES KARAM BRUM Professora adjunta do Departamento de Fundamentos da Educação e do Mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria – RS RESUMO O artigo reflete sobre o gauchismo como uma das expressões da cultura popular no Rio Grande do Sul. O objetivo é caracterizar o Movimento Tradicionalista Gaúcho como movimento cultural organizado e perceber as dimensões dos processos de formação dos tradicionalistas em seus territórios, bem como as relações que o movimento estabelece com as escolas. A pesquisa foi desenvolvida a partir de um conjunto de trabalhos de campo com base na observação participante em escolas e em territórios do gauchismo e do tradicionalismo. A indústria cultural aparece como recurso plural utilizado para a popularização de uma imagem do gaúcho veiculada pelo gauchismo. TRADICÃO – CULTURA POPULAR – EDUCAÇÃO ABSTRACT TRADITIONALISM AND EDUCATION IN RIO GRANDE DO SUL. This article reflects on gauchismo as one of the expressions of popular culture in Rio Grande do Sul. Its purpose is to characterize the Gaucho Traditionalist Movement as an organized cultural movement and to understand the dimensions of how traditionalists are educated in their territories, as well as the relations established by the movement with schools. The research was conducted based on fieldwork with participant observation in schools and in territories of gauchismo and traditionalism. The cultural industry appears as a plural resource for the popularization of the gaucho image promoted by the gauchismo movement. TRADITION – POPULAR CULTURE – EDUCATION As reflexões desenvolvidas neste artigo se relacionam ao projeto de pesquisa O Movimento Tradicionalista Gaúcho e a Escola: Perspectivas Pedagógicas e Educacionais. Uma Análise Antropológica das (Re)configurações de Identidades Plurais, financiado pelo Fundo de Incentivo à Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria. Cadernosde dePesquisa, Pesquisa,v.v.39, set./dez. 2009 Cadernos 39, n.138, n. 138,p.775-794, set./dez. 2009 775 Ceres Karam Brum Entre as expressões da cultura popular no Rio Grande do Sul chama a atenção o conjunto de manifestações culturais que remetem à interpretação da figura histórica do gaúcho. Ela vem sendo veiculada como símbolo regional desde o final do século XIX até o presente. Esse processo, iniciado com a produção e lapidação do gaúcho para sua exaltação, ocorreu a partir da criação de uma literatura regional no Rio Grande do Sul, tendo como inspiração a literatura nacionalista uruguaia e argentina que também o utilizava. Desde então, a presença do gaúcho como símbolo se expandiu, atingindo caráter popular com a criação e principalmente a expansão de movimentos tradicionalistas. 1 Nesse contexto, surgiu um conjunto de expressões que objetivavam reproduzir no presente o modo de vida do gaúcho do passado, para ser cultuado. Também surgiram entidades tradicionalistas, os Centros de Tradições Gaúchas2 – CTGs –, danças, músicas, poesias, culinária, linguagem e indumentária etc. Essas recriações têm objetivos identitários que se expressam em estratégias de afirmação do regional, envolvendo múltiplos atores em luta simbólica pelo monopólio de interpretação “do que foi o gaúcho”. Um desses grupos é o Movimento Tradicionalista Gaúcho. Ele tem a dupla preocupação de formação de jovens que perpetuem o gauchismo e de sua disseminação em outros territórios, como as escolas e universidades. Neste artigo, analiso os objetivos e as justificativas desse movimento. O GAUCHISMO E O TRADICIONALISMO O tradicionalismo gaúcho é considerado por seus membros como o maior movimento cultural popular do mundo na atualidade. Essa informação 1. Segundo Oliven (2006) a criação do movimento tradicionalista no Uruguai ocorreu com a fundação em 1894, em Montevidéu, da Sociedad Criolla. Na Argentina, segundo Fradkin (2003), o mito do gaúcho remete a dois contextos: o de 1870 (sua consagração literária), pontuado por profundas transformações na agricultura e a demarcação de fronteiras, e o de 1913, determinado pela construção nacional de sua busca de definição em termos das tradições. 2. O Centro de Tradições Gaúchas é um espaço de culto ao gaúcho, uma espécie de clube social onde se realizam fandangos (bailes) e outras atividades tradicionalistas. Em sua estrutura, apropria-se e (re)significa a nomenclatura das antigas estâncias. Seu presidente é designado como “patrão”, o tesoureiro é o “agregado das patacas” etc. Os homens que o frequentam recebem a designação de “peão” e as mulheres de “prendas”. 776 Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 138, set./dez. 2009 Tradicionalismo e educação... é veiculada nos discursos das sessões solenes que pontuam a abertura e o encerramento da maior parte de suas atividades, bem como por políticos e demais autoridades. Oliven (2006), baseado nas informações do folclorista e tradicionalista Lessa (1985), se refere à participação direta de dois milhões de pessoas no Movimento Tradicionalista Gaúcho – MTG – e o seu site menciona a existência de 1.400 entidades tradicionalistas filiadas. O gauchismo, em suas mais variadas expressões, mobiliza milhares de pessoas em inúmeros eventos e atividades. Segundo Maria Eunice Maciel (1994), deve-se entender por gauchismo diversas manifestações culturais que têm o gaúcho como ponto de referência e que investem nessa representação, alimentando um sentimento de pertencimento. A diferença com outras dimensões do regionalismo é que o gauchismo não quer estudar ou escrever sobre o gaúcho, mas oferecer um culto às tradições por “encarnação” de uma imagem do gaúcho. A personificação do gaúcho pelos tradicionalistas pretende representar o “verdadeiro” gaúcho. Eles se dão o título de “guardiões” de uma pureza, em nome de uma “autenticidade”. Fazem parte desse universo de culto, conforme a autora, intelectuais e literatos interessados nas tradições regionais, como, por exemplo, os poetas membros da Estância da Poesia Crioula – EPC –, uma espécie de academia regionalista de letras, poetas e músicos que participam dos festivais nativistas, muitos deles também membros da EPC, os participantes dos CTGs e dirigentes do MTG, folcloristas e dirigentes da Fundação Instituto de Tradição e Folclore. O tradicionalismo, como manifestação do gauchismo, compreende um conjunto de atividades organizadas e regulamentadas que objetivam celebrar a figura do gaúcho e seu modo de vida em um passado relativamente distante, tal como os participantes e, sobretudo, os pesquisadores (tradicionalistas) 3 do movimento o percebem e o definem em seus escritos, instituindo práticas de culto em torno das quais se glorifica um passado atualizado no presente. 3. Pesquisadores do MTG são lideranças tradicionalistas que se preocupam com a autenticidade no culto das tradições, produzindo pesquisas que influenciam o movimento. Exemplos são os folcloristas Marina e João Carlos Paixão Cortes com produção bibl (...truncated)


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Ceres Karam Brum. Traditionalism and education in Rio Grande do Sul, Cadernos de Pesquisa, 2009, pp. 775-794, Volume 39, Issue 138, DOI: 10.1590/S0100-15742009000300005