Perceptions of young people with Down Syndrome on amorous relations
Relato de Pesquisa
Síndrome de Down e relacionamento amoroso
PERCEPÇÕES DE JOVENS COM SÍNDROME DE DOWN SOBRE RELACIONAR-SE
AMOROSAMENTE
PERCEPTIONS OF YOUNG PEOPLE WITH DOWN SYNDROME ON AMOROUS
RELATIONS
Elaine Cristina LUIZ1
Olga Mitsue KUBO2
RESUMO: dificuldades de pais e profissionais para lidar com comportamentos de natureza sexual de pessoas
com deficiência mental são provavelmente advindas de concepções parciais ou equivocadas desses pais e
profissionais sobre as potencialidades de desenvolvimento da dimensão sexual dessas pessoas. Uma das
implicações desse tipo de concepção é promover poucas oportunidades para ouvir o jovem com deficiência
mental sobre suas expectativas e desejos sobre relacionamento amoroso. O objetivo do trabalho foi descobrir
quais as percepções de jovens com Síndrome de Down sobre relacionar-se amorosamente. Para isso, duas
mulheres e três homens com Síndrome de Down, com idade entre 18 e 28 anos, foram entrevistados
individualmente. As verbalizações desses jovens sobre o que é apaixonar-se e o que sentem um pelo outro se
referiram a comportamentos que expressavam cuidados com (a) namorado (a), e a sentimentos como ânimo e
paixão. Em relação ao que verbalizam sobre o que é uma pessoa atraente, houve ênfase em aspectos físicos e
comportamentais. Uma jovem afirmou ter relações sexuais com o namorado e descreveu com minúcia a
experiência e cuidados tomados para isso. Outros dois jovens consideraram a possibilidade de ter relações
sexuais mais tarde, embora já namorassem há algum tempo. Uma adolescente indicou como necessário para
ter relação sexual a interdependência do casal e a prevenção da gravidez. Os resultados possibilitam concluir
que as percepções que jovens com Síndrome de Down têm sobre relacionamentos amorosos não diferem daquelas
de jovens sem síndrome e, muito provavelmente, são desenvolvidas pelas oportunidades de se comportarem
efetivamente sob contingências que favoreçam comportamentos amorosos.
PALAVRAS-CHAVE: comportamento amoroso; sexualidade; Síndrome de Down; educação especial.
ABSTRACT: difficulties parents and professionals have in coping with sexual behaviors of people with mental
deficiency probably result from their faulty ideas or misconceptions of the potential these people have for
developing of sexuality. One implication of this type of conception is that few opportunities are promoted for
listening to what young people with mental deficiency have to say about their expectations and desires of
amorous relationships. The aim of this study was to uncover the perceptions of young people with Down
Syndrome about amorous relationships. To this end, two women and three men with Down Syndrome between
18 and 28 years, were interviewed individually. Their reports on what it means to fall in love and what they
feel for each other was related to behaviors that expressed concern for their boyfriend/girlfriend, as well as
feelings of excitement and passion. As to their reports on physical attraction, emphasis was placed both on
physical and behavioral aspects. One young woman stated that she had sexual relations with her boyfriend
and she described in details her experience and the precautions taken. Two other interviewees considered the
possibility of having sexual relations in the future, although they had been dating for some time. One young
woman indicated that having sexual relations requires interdependence of the couple, as well as precautions
to prevent pregnancy. These results enable us to conclude that the perceptions that young people with Down
Syndrome have about amorous relationships do not differ from those of young people without the syndrome and
are probably developed when given opportunities to experience relationships in circumstances that favor
amorous behavior.
KEYWORDS: amorous behavior; sexuality; down syndrome; special education.
1
Mestranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina
2
Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail:
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, Mai.-Ago. 2007, v.13, n.2, p.219-238
219
LUIZ, E. C.; KUBO, O. M.
1 I NTRODUÇÃO
Nos anos do século XXI, de maneira geral, namorar, casar, manter
relações sexuais antes do casamento, ter filhos, morar com o namorado são assuntos
corriqueiros e já deixaram de ser proibidos, vergonhosos ou censurados. Mas, e se
o assunto for namoro de pessoas com alguma deficiência? Relacionamento sexual
de pessoas com Síndrome de Down? Gravidez de pessoas com Síndrome de Down?
Estudos têm possibilitado perceber que jovens com deficiência mental raramente
são ouvidos a respeito de seus anseios, desejos, dúvidas e experiências em relação
à vida afetiva e sexual. Não se sabe exatamente o que esperam, necessitam, desejam,
pensam, acreditam a respeito de sua sexualidade, e o que são realmente capazes
de fazer em um relacionamento amoroso, incluindo “ficar”, namorar, casar. Em
alguns estudos é possível identificar que jovens com alguma deficiência mental
têm frustrações, fantasias e também são capazes de expressões de afeto e
manifestações “normais” da sexualidade. Nesse contexto, algumas perguntas se
fazem pertinentes: Qual o direito desses jovens de namorarem? E de terem relações
sexuais? E de casarem? O que esses jovens pensam sobre isso? Têm oportunidades
de vivenciar uma vida afetiva e sexual? Deveriam ter? Sob que situações? Quais as
condições necessárias para que isso aconteça? Quem são os responsáveis por
garantir essas condições? Nessa perspectiva, é configurada a necessidade de
investigar quais as percepções que jovens com Síndrome de Down apresentam
sobre se relacionar amorosamente.
Glat (1993) afirma que profissionais que trabalham com pessoas com
deficiência mental exercem forte influência sobre elas, são formadores de opinião,
e reproduzem a concepção que a sociedade tem sobre deficiência mental. A autora
explica que a imagem que a pessoa tem de si e de seu corpo é determinado por
conceitos, idéias, valores que o grupo social lhe atribui. Assim, professores, pais e
outras pessoas que convivem com pessoas com algum tipo de deficiência exercem
influência sobre o que essas pessoas percebem de si próprias e do mundo. Portanto,
é importante que profissionais que lidam com essas pessoas tenham uma formação
que os capacitem a serem promotores de inclusão e não disseminadores de
preconceitos e estereótipos de determinado grupo social a respeito de pessoas com
deficiência mental.
É possível constatar que a intervenção sobre a sexualidade de pessoas
com deficiência mental continua sendo no sentido de limitá-la. Glat e Freitas (2002)
relatam que em anos de pesquisa e trabalho com o tema da sexualidade de pessoas
com deficiência, os profissionais, ao solicitarem ajuda para lidar com a sexualidade
de pessoas com deficiência, esperam “resolver o problema” da sexualidade dessas
pessoas, de forma a evitar ou restringir qualquer manifestação dessa. Em um estudo
com 10 profissiona (...truncated)