Processos de inclusão e docência compartilhada no III ciclo
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PROCESSOS DE INCLUSÃO E DOCÊNCIA COMPARTILHADA NO III CICLO1, 2
Clarice Salete Traversini*
Maria Luisa Merino de Freitas Xavier**
Maria Bernadette Castro Rodrigues***
Maria Isabel Habkcost Dalla Zen****
Nádia Geisa Silveira de Souza*****
RESUMO: O artigo analisa a implementação do Projeto de Docência Compartilhada em
duas escolas cicladas municipais de Porto Alegre/RS, destacando seus limites e possibilidades. O estudo inscreve-se na perspectiva dos Estudos Culturais, a partir das noções
de diferença e inclusão, para pensar um currículo e propostas pedagógicas em que o
outro seja visibilizado e posicionado como sujeito que aprende. O material empírico
abrange registro de reuniões pedagógicas das referidas escolas, observações em salas de
aula e análise de produção textual de alunos. A investigação possibilita constatar que o
projeto em questão, embora em fase de implementação, apresenta-se produtivo no que
tange: ao exercício compartilhado da docência nesta modalidade; à desnaturalização das
diferenças entre os alunos; à concretização de aprendizagens cognitivas e sociais, buscando respeitar os tempos e as possibilidades desses alunos; e, ainda, à paulatina adequação
do currículo às exigências desse projeto inclusivo.
Palavras-chave: Práticas de Inclusão. Docência Compartilhada. Constituição do sujeito
Aluno. Práticas Curriculares.
* Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Professora do Programa de Pós Graduação
em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEDU/UFRGS); Integrante do Grupo de Pesquisa sobre
Educação e Disciplinamento (GPED) e do Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e Sociedade (NECCSO) da Universidade
Federal do Rio Grande d Sul (UFRGS). E-mail:
** Doutora e em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Professora do Programa de Pós-Graduação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEDU/UFRGS); Coordenadora do Grupo de Pesquisa sobre Educação e Disciplinamento
(GPED) e do Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e Sociedade (NECCSO- UFRGS). E-mail: E-mail:
*** Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Coordenadora do curso de Pedagogia da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Integrante do Grupo de Pesquisa sobre Educação e Disciplinamento da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (GPED-UFRGS). E-mail:
**** Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Professora do curso de Pedagogia e
coordenadora do Estágio de Docência 6 a 10 anos (UFRGS); Integrante do Grupo de Pesquisa sobre Educação e
Disciplinamento (GPED) e do Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (NECCSO - UFRGS). E-mail:
***** Doutora em Bioquímica/Educação em Ciências e licenciada em Biologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS); Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU) e Programa de Pós-Graduação Educação em
Ciências: Química da Vida e Saúde do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(PPGQVS/ICBS/UFRGS) e do Curso de Pedagogia. Pesquisa na área da Educação e da Educação em Ciências práticas implicadas na constituição do corpo; Integrante do Grupo de Pesquisa sobre Educação e Disciplinamento da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (GPED- UFRGS). E-mail:
Educação em Revista | Belo Horizonte | v.28 | n.02 | p.285-308 | jun. 2012
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PROCESSES PERTAINING TO INCLUSIVITY AND SHARED TEACHING
IN THE THIRD TEACHING-CYCLE
ABSTRACT: This paper analyzes the implementation of the Shared Teaching Project in
two municipal schools in Porto Alegre/RS, emphasizing both its limitations and possibilities. The study takes a Cultural Studies perspective to deal with the notions of difference and inclusion, in order to come up with a curriculum, and associated pedagogical
proposals, where “the other” is envisioned and conceptualized as a student who learns.
The empirical data covers records of pedagogical meetings held in the respective
schools, classroom observations, and an analysis of texts produced by the students. This
investigation shows that, although still in its implementation stages, the project has
already been productive with respect to the shared teaching exercises, carried out within
this approach; homogenization of students; concretization of cognitive and social learning, while seeking to respect students’ availability and abilities; and furthermore, appropriate curriculum achievement in order to meet the demands of this project, pertaining
to inclusivity.
Keywords: Practices for Inclusivity. Shared Teaching. Constitution of the Student-Subject.
Curriculum Practices.
Introdução
Este artigo é parte de investigações realizadas por um grupo de
pesquisa3 cujo foco de interesse atual vêm sendo as práticas curriculares
implicadas na constituição de alunos4 incluídos nos anos finais do Ensino
Fundamental (E. F.). Para tanto, examinamos, em escolas municipais de
Porto Alegre/RS, processos de ensino-aprendizagem e socialização postos em funcionamento pelas políticas de inclusão adotadas nas últimas
décadas no país. O estudo inscreve-se na perspectiva dos Estudos
Culturais, a partir das noções de diferença e inclusão, para pensar um currículo e propostas pedagógicas em que o outro seja visibilizado e posicionado como sujeito que aprende.
O estudo em questão ocorreu em duas escolas municipais organizadas por Ciclos de Formação – aqui denominadas de escola G e escola
M –, nas quais as políticas de inclusão vêm criando espaços para ingresso, atendimento e permanência de alunos habitualmente excluídos das
escolas regulares, os quais, hoje, frequentam o III Ciclo do E. F.
Conforme Maria Luisa Xavier (2007), a organização da instituição escolar por Ciclos de Progressão Continuada vem sendo proposta
por meio de políticas públicas, no país, desde a década de 1960, estando
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presente no ideário pedagógico nacional desde os anos 1920. Tiveram
como referência o “sistema de avanços progressivos” adotado em escolas dos Estados Unidos e da Inglaterra. As escolas anglo-saxônicas, na
visão de Elba Sá Barreto e Eleny Mitrulis (2004), caracterizavam-se por
serem mais tolerantes em relação às diferenças de aprendizagem dos
estudantes do que as escolas de tradição latina, das quais derivou nosso
sistema educacional.
Conforme autores como Miguel Arroyo (1997; 1999), Creso
Franco (2001; 2003), Luis Carlos de Freitas (2000; 2003) e Barreto e
Mitrulis (2004), as propostas de organização da escola por ciclos relacionam-se à percepção de que a tradicional organização escolar seriada não
tem conseguido “segurar” a população habitualmente excluída do sistema,
os segmentos pertencentes às classes populares, os quais políticas de inclusão vêm tentando acolher face aos atuais processos de democratização.
Tal organização escolar com (...truncated)