A construção da crítica em resenhas produzidas por alunos
A CONSTRUÇÃO DA CRÍTICA EM
RESENHAS PRODUZIDAS POR ALUNOS
Flávio Luis Freire Rodrigues
Universidade Estadual de Londrina
Londrina, Paraná, Brasil
Resumo: Na produção dissertativa tradicional, os alunos são
orientados a não manifestarem declaradamente seu ponto de vista.
Eles aprendem os caminhos para ocultar sua subjetividade. Na
produção de resenhas, é necessário que o aluno deixe aflorar essa
opinião a fim de criticar o objeto resenhado, visto que a crítica é um
dos elementos constitutivos deste gênero. Portanto, o aluno precisa
fazer o caminho inverso ao habitual e resgatar a subjetividade
perdida. Este artigo intenciona verificar, a partir da análise de
excertos de textos produzidos pelos próprios alunos, em aulas de
produção de texto do gênero resenha, se houve apropriação de uma
das seções importantes deste gênero, a crítica. Também faz parte da
investigação deste artigo o uso de modalizadores textuais. A
abordagem para a análise e produção de texto foi a dos gêneros
discursivos ou textuais sobre a qual se fundamentou o trabalho de
doutorado de que este artigo faz parte.
Palavras-chave: Subjetividade. Gênero discursivo. Produção de
texto. Resenha.
1 INTRODUÇÃO
Este artigo de pesquisa é oriundo de meu doutorado1, que tratava da
aplicação de uma sequência didática do gênero resenha a alunos (de 32
alunos matriculados, apenas 22 assistiram e participaram das aulas) de
ensino médio de uma escola pública da periferia de Londrina. A aplicação
Doutor em Estudos da Linguagem. Email:
Pesquisa orientada pela doutora Alba Maria Perfeito, professora do PPG em Estudos da
Linguagem/UEL.
1
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foi feita por duas estagiárias do curso de Letras da Universidade Norte do
Paraná (UNOPAR/Londrina), em 2010, e ao final solicitamos aos alunos a
produção de resenha sobre o curta-metragem Ilha das Flores. Também
foram feitas entrevistas com a professora e com alunos e anotações durante
as aulas para triangular os dados para a pesquisa. O recorte feito aqui trata
apenas da construção da crítica registrada pelos alunos em seus textos. Este
trabalho objetiva, portanto, verificar como os alunos apresentaram um olhar
particular – a crítica – sobre o filme, objeto proposto para resenha mediado
pelo trabalho feito em sala de aula a partir da sequência didática.
É necessário, sob minha ótica, nos debruçarmos didaticamente sobre
os gêneros a fim de propor caminhos aos alunos, sejam gêneros extraescolares, ou escolares. Não se aprende a trabalhar com eles simplesmente
porque se está na escola ou na academia, portanto, é necessário investir nos
gêneros escolares, uma vez que eles existem praticamente no ambiente
estudantil. Matencio nos ajuda a entender o alvo que queremos atingir. A
autora (2006, p. 100) assinala que
o que os resultados da pesquisa que temos desenvolvido têm
demonstrado é que os problemas experienciados pelos alunos se
originam, justamente, de sua dificuldade de perceber os traços que
distinguem os modos de organização de funcionamento dos
discursos científico e de divulgação daquele que caracteriza o
discurso didático, que lhe é mais familiar.
Levando-se em conta que a língua significa não somente pelo
conteúdo, mas também pela forma, é necessário habilitar o aluno a falar na
“língua da escola/academia”. A promoção é duplamente importante: é
somente dessa forma que o aluno consegue obter êxito e é por esse caminho
também que podemos investir em mais pesquisadores nas diversas áreas. O
aluno alcança não somente outras formas de expressão linguística que vão
permitir-lhe conviver no mundo acadêmico, mas vão abrir-lhe ainda portas
de novas formas concretas de participação social como cidadão.
A opção pelo gênero resenha deu-se pelo motivo de ela ser não um
texto apenas acadêmico, mas que também circula em jornais, revistas e
internet, tendo como foco filmes, livros e CDs; ela permite ao cidadão
comum ter ao seu alcance um instrumento de interpretação e crítica sobre o
objeto em foco, como postula Rodrigues, R. H. (2000, p. 213):
Linguagem em (Dis)curso, Tubarão, SC, v. 13, n. 2, p. 273-297, maio/ago 2013.
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tendo em vista a função social de cada esfera e a singularidade de
constituição e funcionamento de cada gênero, pode-se dizer que um
projeto pedagógico para a produção escrita deve se orientar (sem
excluir os demais) para aqueles gêneros cujo domínio é necessário
para o bom desempenho escolar (saber tomar notas, fazer resumos,
resenhas, participar de seminários, etc.) e para a plena participação
na vida social pública.
Assim, a resenha instrumentaliza o indivíduo a olhar de forma mais
exigente, podendo recorrer, inclusive, a várias resenhas sobre o mesmo
objeto, a fim de compará-las. É um texto que permite, então, um
comportamento mais crítico frente aos bens de consumo postos ao leitor,
pelo viés da avaliação, seção importante na construção de uma resenha.
Como uma característica típica da resenha, a crítica lida com
opiniões próprias e alheias. Em um segundo momento, espera-se que o
leitor faça transferência dessa operação para outros textos e contextos, em
um movimento de educação libertadora, em que lhe seja dada voz, como
diz Silva (2005, p. 79-80; grifos do autor):
a leitura crítica é condição para a educação libertadora, é condição
para a verdadeira ação cultural que deve ser implementada nas
escolas [...]. Como empreendedor de um projeto, o leitor crítico
necessariamente se faz ouvir. A criticidade faz com que o leitor não
só compreenda as ideias veiculadas por um autor, mas leva-o
também a posicionar-se diante delas.
Esse posicionar-se criticamente implica a função social de qualquer
texto: dirigir-se ao outro, num processo de desvelar-se perante ele. Assim, a
resenha é uma forma de ser-no-mundo, em que o aluno assume o que diz
(sobre outro texto) para outros. Diferente de um texto apenas
argumentativo, em que o autor discorre sobre um tema, aqui o autor precisa
posicionar-se diante de e dialogar com outras obras e autores. Essa
proposta, assumidamente política, vai ao encontro do que Geraldi (2001, p.
40) diz sobre qualquer metodologia adotada em sala de aula: “antes de
qualquer consideração específica sobra a atividade de sala de aula, é
preciso que se tenha presente que toda e qualquer metodologia de ensino
articula uma opção”.
RODRIGUES. A construção da crítica em resenhas produzidas por alunos...
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O contato que os alunos de ensino fundamental e médio podem vir a
ter com resenha diz respeito àquelas veiculadas em jornais e revistas,
portanto, as resenhas jornalísticas. A entrada dos diversos gêneros
jornalísticos como objetos de ensino/aprendizagem permite trabalhar a
realidade de mundo a partir da realidade textual, gerando condições para a
criação de conhecimentos linguísticos e discursivos necessários à
compreensão e produção de tais gêneros, como um caminho para a
cidadania.
A escolha de filmes como objeto de resenha partiu da necessidade de
adequação do projeto (...truncated)