Real versus ficção: criança, imagem e regimes de credibilidade no cinema-documentário
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REAL VERSUS FICÇÃO:
CRIANÇA, IMAGEM E REGIMES DE CREDIBILIDADE
NO CINEMA-DOCUMENTÁRIO
Fabiana de Amorim Marcello*
RESUMO: O objetivo deste artigo é discutir a organização imagética do gênero documentário a partir de dois materiais que colocam em evidência a imagem da criança: Promessas de
um Novo Mundo (2001), de Justine Shapiro e B. Z. Goldberg, e Nascidos em Bordéis (2004), de
Ross Kauffman e Zana Briski. O que importa aqui é trazer para a educação um debate contemporâneo sobre as imagens que nos cercam cotidianamente, especialmente quando têm
como mote a narrativa sobre a infância. Assim, num primeiro momento, são apresentados
alguns elementos da constituição dessa linguagem específica. Em seguida, passa-se à análise dos filmes em questão e, em especial, à forma como são dadas as relações de veracidade a partir das imagens e da construção das respectivas narrativas. Paralelamente a isso, discute-se, mais amplamente, sobre imagens que nos fazem pensar na medida em que colocam, lado a lado, crianças, abandono, miséria e morte.
Palavras-chave: Educação; Criança; Cinema; Imagem.
REAL VERSUS FICTION:
CHILD, IMAGE AND CREDIBILITY REGIMES IN DOCUMENTARY MOTION PICTURES
ABSTRACT: The purpose of this article is to discuss the issues related to the image organization of the documentary genre based on two materials that emphasize the image of
the child: Promises (2001), by Justine Shapiro and B. Z. Goldberg and Born into
Brothels: Calcutta’s Red Light Kids (2004), by Ross Kauffman and Zana Briski. Firstly, I
expose some elements of the constitution of that particular language, as well as some of
the changes that were and are being made in this film genre. Then I move on to the
analysis of the aforementioned films and, in particular, the way the relations of credibility derived from the images and the construction of their corresponding narratives take
place. Parallel to this, as I believe such materials offer us more than the real versus fiction
dialogue, I discuss, more broadly, the images that make us think when they place, side by
side, children, abandonment, poverty and death. This is about lives, unique stories that
would certainly be destined to be forgotten and erased, but, captured by the motion picture camera, invite us to see that there is more to it, there is dignity and art.
Keywords: Education; Child; Movie; Image.
* Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Professora do Programa de Pós-Graduação
em Educação da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) e Membro do Núcleo de Pesquisa em Mídia, Educação e
Subjetividade (NEMES). E-mail:
Educação em Revista | Belo Horizonte | v.26 | n.03 | p.129-150 | dez. 2010
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Real versus ficção:
criança, imagem e regimes de credibilidade1 no cinema documentário
O gênero documentário talvez seja o tipo de produção fílmica
que coloca em jogo, de forma mais pontual, a dualidade entre “real” e
“ficção”. De certa forma, ele tensiona o próprio conceito de ficção (justamente por afirmar-se como seu oposto), da mesma maneira que a fotografia viria a fazer em relação à pintura em meados do século XIX. Ou
talvez possa se dizer que ele revigora, pelo menos entre o senso comum
e por outros modos, caminhos anteriormente percorridos quando da
invenção do cinematógrafo e dos múltiplos entendimentos, em termos de
linguagem, sobre o cinema como “testemunha do mundo”.
O “cinema do real” encontra-se predominantemente assimilado
a uma ideia geral de produção de imagens mais “puras”, que atuariam,
supostamente, como uma espécie de reflexo fiel do mundo (o mundo,
digamos, “tal como ele é”). Ainda assim, as imagens criadas na rede narrativa do documentário funcionariam, também supostamente, como testemunhas de uma realidade que, a princípio, lhes seria preexistente. A
câmera testemunhal, “objetiva”, no lugar de uma câmera que seria intencional e autoral, imagens que “falam por si mesmas”, no lugar de um
ponto de vista construído, pensado, organizado em torno de fatos, pessoas e coisas (MAIXENT, 2003, p. 165, tradução minha).
Neste artigo2, meu objetivo é discutir as questões que tangenciam a organização imagética do gênero documentário a partir de dois
materiais: Promessas de um Novo Mundo (2001), de Justine Shapiro e B. Z.
Goldberg, e Nascidos em Bordéis (2004), de Ross Kauffman e Zana Briski –
documentários que colocam em evidência a imagem da criança e que, portanto, convidam-nos, pesquisadores do campo da Educação, a pensar e
debater sobre questões urgentes do nosso tempo. Num primeiro momento, apresento alguns elementos da constituição dessa linguagem específica, bem como algumas das alterações que foram e vêm sendo feitas no
âmbito desse gênero fílmico. Em seguida, analiso esses filmes e a forma
como nos são dadas as relações de veracidade a partir das imagens e da
construção das narrativas. Paralelamente a isso, e por acreditar que tais
materiais nos oferecem mais do que o jogo real versus ficção, discuto sobre
imagens que nos fazem pensar, ao colocar, lado a lado, crianças, abandono, miséria e morte. Trata-se de vidas, de histórias singulares que certaEducação em Revista | Belo Horizonte | v.26 | n.03 | p.129-150 | dez. 2010
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mente estariam destinadas a ser esquecidas e apagadas, mas que, alçadas
pela câmera cinematográfica, nos convidam a ver que há ali mais do que
isso, há ali dignidade e arte.
Cinema-documentário e os regimes de credibilidade da imagem
Dziga Vertov foi um dos primeiros cineastas a sistematizar acerca da capacidade da câmera cinematográfica como instrumento de captura do “real”. Vertov acreditava na capacidade da câmera como elemento
de ultrapassagem do olho humano (este sempre carregado de intenções);
mais do que isso, ele punha o olho humano em oposição ao cine-olho.
Este último, mais aperfeiçoado que o primeiro, sem suas intenções subjetivas, teria como captar “tudo aquilo que podia servir para descobrir e
mostrar a verdade” (VERTOV, 2003, p. 262-263, grifos do autor).
Por mais que a ideia pareça hoje ultrapassada no âmbito do cinema, ela reincide na crença de que a imagem seria uma espécie de superfície lisa, uniforme e, ao mesmo tempo, opaca e, em certa medida, misteriosa, na qual a câmera e o olhar testemunhal do cineasta viriam a atingir
(ou pelo menos a buscar) uma luminosidade ascendente. Trata-se de uma
espécie de crença absoluta, do convite à adesão a uma imagem em seu
“estado bruto”, como se fosse possível estabelecer daí uma “religião”,
uma relação de fé: a coisa na imagem e, consequentemente, na condição
de imagem, a coisa falaria de si mesma. Ora, as crenças e afirmativas mais
comuns sobre a produção do documentário reiteram, em grande parte,
essas assertivas – semelhante àquelas que, mais tarde, viriam a operar na
também religiosa adesão ao “eu vi no telejornal” e àquela a que somos
convidados, por exemplo, pelas imagens “ao vivo” na televisão.
O documentário como tal tem sua história exatamente em meio
às novas possibilidades oferecidas pela câmera. Isso impli (...truncated)