The vaccinal hypothesis: towards a critical and anthropological approach to a historical phenomenon

História, Ciências, Saúde-Manguinhos, Feb 2019

The article calls attention to the complexity of immunization by vaccine, from a perspective that combines the biological and social sciences and takes a critical view of current interpretations on the history of vaccination, whether negative or triumphalist. An anthropological look at vaccines and vaccination reveals the multiple historical and geographical facets of what appears to be a unique phenomenon, while also prompting questions about the kaleidoscopic unity of human practices. There is no single history of vaccination but a history of vaccines that have been used in different periods and countries. One consequence of this approach is that the concept of public resistance to immunization campaigns is replaced by acceptability, which suggests that selecting the procedures to employ when immunizing a given population is a hypothesis that should be evaluated based on history.

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The vaccinal hypothesis: towards a critical and anthropological approach to a historical phenomenon

A HIPÓTESE VACINAL MOULIN, A. M.: ‘A hipótese vacinal: por uma abordagem crítica e antropológica de um fenômeno histórico’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. 10 (suplemento 2): 499-517, 2003. A hipótese vacinal: por uma abordagem crítica e antropológica de um fenômeno histórico The vaccinal hypothesis: towards a critical and anthropological approach to a historical phenomenon Em memória de Roy Porter Anne Marie Moulin Directeur de recherche de CNRS 209-213 rue La Fayette F- 75.480 Paris Cecex 10 France A partir de uma visão crítica sobre as interpretações correntes a respeito da história da vacinação, seja na vertente negativa seja na linha triunfalista, o artigo chama a atenção para a complexidade do fenômeno vacinal, revelada ao se adotar uma perspectiva que combine as ciências biológicas e sociais. Na perspectiva de uma antropologia das vacinas e da vacinação é possível revelar as múltiplas facetas históricas e geográficas de uma história aparentemente única, e se interrogar a respeito da unidade caleidoscópica das práticas humanas. Não existe uma única história da vacinação, mas sim vacinas que surgiram em diferentes períodos e países. Uma das conseqüências dessa abordagem foi a substituição do conceito de resistência das populações às campanhas de imunização pelo de aceitabilidade, sugerindo-se que a seleção de um conjunto de procedimentos para imunizar uma população constitui uma hipótese a avaliar diante da história. PALAVRAS-CHAVE: história e antropologia das vacinas e da vacinação, políticas de imunização, resistência popular. MOULIN, A. M.: ‘The vaccinal hypothesis: towards a critical and anthropological approach to a historical phenomenon’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. 10 (supplement 2): 499-517, 2003. The article calls attention to the complexity of immunization by vaccine, from a perspective that combines the biological and social sciences and takes a critical view of current interpretations on the history of vaccination, whether negative or triumphalist. An anthropological look at vaccines and vaccination reveals the multiple historical and geographical facets of what appears to be a unique phenomenon, while also prompting questions about the kaleidoscopic unity of human practices. There is no single history of vaccination but a history of vaccines that have been used in different periods and countries. One consequence of this approach is that the concept of public resistance to immunization campaigns is replaced by acceptability, which suggests that selecting the procedures to employ when immunizing a given population is a hypothesis that should be evaluated based on history. KEYWORDS: history of vaccines and vaccination, anthropology of vaccines and vaccination, immunization policy, popular resistance. 10 (suplemento 2):499-517, 2003 vol. 10 (suplemento 2):499-517,vol. 2003 499 ANNE MARIE MOULIN P ara um historiador das ciências, trabalhar sobre a vacinação é um empreendimento delicado. Como enfatizou acertadamente Myriam Bahia Lopes (1996), trata-se de uma história que foi muitas vezes monopolizada por dois campos opostos, o primeiro denunciando um empreendimento quase diabólico, enquanto que o outro se vangloria de um sucesso de facto que legitima sem apelação a totalidade do empreendimento. Na qualidade de historiadora das ciências biomédicas, trabalho há muito tempo sobre o tema das vacinas, por causa de sua importância crucial na história da imunologia (Moulin, 1991). Minha intenção inicial era apresentar dois períodos em contraste, o primeiro correspondendo às tentativas de inoculação da varíola, empíricas e dispersas no mundo inteiro, e o segundo, racional e sistemático, situando-se no Ocidente, onde nasceram os grandes programas de imunização herdados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), ficando a vacina jenneriana na linha intermediária entre os dois períodos. Sofremos ainda a influência do positivismo cientificista do final do século XIX, responsável por um grande mito fundador que quis marcar a ruptura com o passado. Durante os últimos decênios do século XIX, os médicos e os biólogos que pesquisaram as chamadas doenças infecciosas relegaram o passado à pré-história (Contrepois, 2001). Pasteur, tido como um dos pais da medicina moderna, sobrepunha-se a seus antecessores, principalmente Jenner, por ter lançado, na história da medicina, a erradicação das doenças infecciosas por meio da manipulação dos germes. Ao me aprofundar na história da vacinação, percebi que tal perspectiva, inspirada pela idéia do progresso ininterrupto da razão através dos tempos e das luzes banhando o planeta era uma reconstrução bastante deslocada. A vacinação não permite que se oponham radicalmente nem dois períodos nem dois mundos, sejam eles o dos civilizados e o dos bárbaros, do Estado-providência e dos cidadãos despreocupados, das classes sociais esclarecidas e das massas atrasadas... A análise realizada em conjunto pelas ciências biológicas e sociais revela uma realidade infinitamente mais complexa, mais interessante e, também, mais movediça. É preciso substituir a história triunfalista da vacinação pelo exame atento e minucioso daquilo que chamarei de hipótese vacinal. Sem querer negar a força ideológica do princípio universal da vacinação, transcendendo os contextos particulares, é forçoso reconhecer que não existe ‘uma’ vacinação, mas sim vacinas que apareceram em diferentes períodos e em diferentes países, com objetivos diferentes, e que parece difícil definir a gênese de uma tal “aventura” com uma apreciação definitiva. Trata-se, com certeza, de uma “aventura” globalmente bem-sucedida, mas que apresenta zonas de sombra e alguns enigmas (Moulin, 1996a). Desde que se deixe de atribuir as resistências, as recusas e reticências em relação à vacinação ao invencível atraso dos homens, e que se considere o fenômeno em toda sua 500 História, Ciências, Saúde — Manguinhos, Rio de Janeiro A HIPÓTESE VACINAL complexidade, ao mesmo tempo científica, política e social, a vacinação reintegrará seu verdadeiro lugar na história — o de um desafio surpreendentemente fértil e engenhoso, suscetível de apresentar novos desdobramentos como aqueles aos quais assistimos nestes últimos anos, na virada do terceiro milênio. A vacinação possibilita uma abordagem inédita das sociedades: no tocante às conseqüências individuais e sociais da marcação dos corpos; pela noção de rastro e de memória coletiva; no que diz respeito à relação do indivíduo com o grupo e com a constituição do Estado; em relação à contagem e aos procedimentos estatísticos; ao considerar o tempo urbano e rural (Chiffoleau, 1996; Moulin, 2002a); pelas questões de sexo, idade e status social, da condição de citadino e do camponês... A Revolta da Vacina Um caso exemplar ilustrando esta mudança de olhar em relação à história da vacinação é o do episódio brasileiro conhecido como a Revolta da Vacina. Trata-se da semana sangrenta no Rio de Janeiro, em 1904, durante a qual o gove (...truncated)


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Anne Marie Moulin. The vaccinal hypothesis: towards a critical and anthropological approach to a historical phenomenon, História, Ciências, Saúde-Manguinhos, pp. 499-517, 10, DOI: 10.1590/S0104-59702003000500004