Profile of patients with tuberculosis: evaluation of the Brazilian national tuberculosis control program in Bagé, Brazil
ARTIGO ORIGINAL
Perfil dos pacientes com tuberculose e avaliação do programa nacional de controle da tuberculose em Bagé (RS)*
Marysabel Pinto Telis SilveiraI; Raquel Fabiane Roscoff de AdornoII; Tiago FontanaIII
IMestre Professora da Escola de Medicina na Universidade Católica de Pelotas UCPEL Pelotas (RS) Brasil
IIFarmacêutica e Bioquímica do Posto de Saúde Paulo Barcellos, Bagé
IIIAluno de Graduação da Escola de Medicina na Universidade Católica de Pelotas UCPEL Pelotas (RS) Brasil
Endereço para correspondência
RESUMO
OBJETIVO: Realizar um levantamento epidemiológico dos pacientes com diagnóstico de tuberculose, e fatores associados, além de verificar a eficácia do Programa Nacional de Controle da Tuberculose na cidade de Bagé, Rio Grande do Sul.
MÉTODOS: Realizou-se um estudo retrospectivo dos casos notificados de tuberculose do Posto Paulo Barcellos, através da revisão de prontuários médicos e dos dados do Sistema Nacional de Agravos de Notificação, entre janeiro de 2001 e dezembro de 2004.
RESULTADOS: Neste período, foram realizadas 4.468 baciloscopias, sendo a de escarro a amostra mais numerosa. Resultaram positivas 131 amostras, com prevalência maior do sexo masculino e idade entre 26 e 35 anos, e prevalência menor daqueles com idade acima de 65 anos. Mais de 50% dos pacientes eram da raça branca, tinham apenas 1 a 3 anos de estudo, e exerciam alguma função que lhes garantia algum sustento, com renda mensal baixa (média de 265 reais/mês). Houve equivalência entre os fumantes e não fumantes, e somente um dos 131 casos de tuberculose era HIV positivo.
CONCLUSÃO: O número de baciloscopias realizadas em Bagé foi crescente nos últimos quatro anos. Em 2003 e 2004, esse número superou as metas do Programa Nacional de Controle da Tuberculose, o que demonstra a eficácia da busca ativa de casos de tuberculose na cidade, no entanto, houve diminuição de casos novos.
Descritores: Tuberculose; Epidemiologia; Controle de doenças transmissíveis.
Introdução
A tuberculose é uma doença que possui distribuição universal e seu contágio se dá quase que exclusivamente por aerolização de secreção respiratória.(1) Calcula-se em média que, em uma comunidade, uma fonte de doença possa infectar de 10 a 15 pessoas através do espirro, fala e/ou tosse em um ano.(2)
No final da década de 30 e início da década de 40 houve um declínio da morbimortalidade, intimamente relacionado à descoberta da penicilina e, posteriormente, à invenção da vacina.(3) Na década de 80, a tuberculose aumentou significativamente em todas as comunidades, inclusive em países desenvolvidos.(4) Tal fato coincidiu com o uso indiscriminado de antibióticos, a pandemia de HIV, e com o aumento da pobreza, do consumo de álcool e do tabagismo.(3,5)
Em 2003, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimava que, no mundo, 40 milhões de pessoas eram portadoras de HIV, e que 650.000 destas apresentavam tuberculose.(6) A associação entre o HIV e o bacilo de Koch constitui um sério problema de saúde pública, e pode levar a um aumento da mortalidade e morbidade em muitos países,(3,5) sendo que um paciente infectado com o vírus do HIV tem 45% mais chance de contrair o Mycobacterium tuberculosis.(7)
Com o passar dos anos, o número de casos novos foi aumentando e a tuberculose pulmonar continua sendo um problema de saúde pública muito grave.(2) Em 2004, foram encontrados 8,7 milhões de novos casos de tuberculose no mundo, 1,9 milhões dos quais foram fatais, sendo que em 350.000 destes óbitos houve co-infecção com o vírus do HIV.(6)
No âmbito mundial, 80% dos casos de tuberculose estão concentrados em países localizados na Ásia, África e América do Sul. Nas Américas, em 2001, ocorreram 230.203 casos novos, sendo que apenas 8% destes nos EUA e Canadá, e 50% no Peru e Brasil.(6) Em 2001, o Brasil ocupava a 15ª posição no ranking mundial entre os 22 países com 80% dos casos de tuberculose no mundo.(6) Nesse mesmo ano, no Brasil, foram diagnosticados 110.000 novos casos, 6.000 dos quais resultaram em óbitos, com uma incidência de 47,2/100.000 habitantes, sendo a faixa etária de 20 a 39 anos a mais atingida.(8) No Rio Grande do Sul, no ano de 2002, foram diagnosticados 4.571 novos casos de tuberculose, com uma incidência de 43,97/100.000 habitantes, 308 óbitos por ano e 1.140 casos de co-infecção de HIV com tuberculose (24,3%). Dados parciais de 2004 revelaram 214 óbitos por tuberculose em 5.596 dos novos casos.(9)
O Programa Nacional de Controle da Tuberculose (PNCT), relançado em 1999 em caráter emergencial, está integrado à rede de Serviços de Saúde e é desenvolvido por intermédio de um programa unificado, executado em conjunto pelas esferas federal, estadual e municipal. Este programa está subordinado a uma política de programação das suas ações, com padrões técnicos e assistenciais bem definidos, garantindo desde a distribuição gratuita de medicamentos e outros insumos necessários até ações preventivas e de controle do agravo. Isso permite o acesso universal da população às suas ações. As metas internacionais estabelecidas pela OMS e pactuadas pelo governo brasileiro consistem em descobrir 70% dos casos de tuberculose estimados, tratar corretamente 100% destes e curá-los em 85%.(10)
No Rio Grande do Sul, existem 24 municípios considerados prioritários que concentram 75% dos casos de tuberculose do estado, sendo um deles a cidade de Bagé, por enquadrar-se como um município com mais de 100.000 habitantes, com coeficiente de incidência superior à média nacional de 47/100.000.(10)
O Ministério da Saúde estipula que, anualmente, deve-se investigar 1% da população sintomática respiratória, através da baciloscopia direta de escarro, estimando-se que 4% deles sejam casos novos.(11)
O objetivo deste estudo foi fazer um levantamento epidemiológico dos pacientes maiores de 18 anos, de ambos os sexos, com diagnóstico confirmado de tuberculose (através da baciloscopia de escarro), e dos fatores associados, no período de janeiro de 2001 a dezembro de 2004, assim como avaliar a eficácia do PNCT. Tentou-se desta forma atender às Diretrizes Brasileiras para Tuberculose de 2004, que recomendam a realização de estudos e análises atuais e em diversas áreas do país, auxiliando na melhor definição de variáveis e parâmetros, com o objetivo de se estabelecer um modelo mais próximo da realidade nacional, viabilizando comparar os dados dos programas de controle com as estimativas e, conseqüentemente, dimensionar sua cobertura. Esta recomendação deve-se ao fato de os parâmetros e as variáveis usadas para medir a magnitude da tuberculose no Brasil não serem seguros e, conseqüentemente, as estimativas conhecidas variam marcadamente.(12)
Métodos
A pesquisa foi realizada através de um estudo retrospectivo dos prontuários de pacientes maiores de 18 anos do Posto Paulo Barcellos, cadastrados e notificados no Sistema Nacional de Agravos de Notificação. A sorologia para HIV e a cultura (...truncated)