Índice de sharpe e outros indicadores de performance aplicados a fundos de ações brasileiros
Índice de Sharpe e outros Indicadores de Performance
Aplicados a Fundos de Ações Brasileiros
Gyorgy Varga
RESUMO
Implementamos e aplicamos diversas medidas estatísticas de avaliação de performance aos dez
maiores fundos de ações oferecidos no mercado brasileiro. Mostramos as diferentes classificações
dos fundos de acordo com cada um desses indicadores e os defeitos da sua aplicação na avaliação de
fundos de investimento. O principal objetivo deste artigo é mostrar as dificuldades da aplicação dos
principais indicadores de performance a fundos brasileiros.
Palavras-chaves: investimentos; finanças; modelos de performance.
ABSTRACT
We applied several performance measures to evaluate the ten largest stock mutual funds offered in
Brazil. The main purpose of this article is to introduce and show the difficulties and shortfalls on
the application of the performance measures to the brazilian mutual fund industry.
Key words: investments; finance; portfolio performance.
RAC, v. 5, n. 3, Set./Dez. 2001: 215-245
215
Gyorgy Varga
INTRODUÇÃO
O processo de seleção de um fundo de investimento pode ser dividido em duas
partes. A primeira verifica qual a carteira adequada para o investidor; a segunda
tenta descobrir um gestor que pode superar o mercado. Se não for encontrado
nenhum, então o caminho natural é um fundo passivo que apenas acompanhe as
classes de ativos escolhidas. O investimento em fundo passivo é a referência e a
alternativa mais adequada, quando não há um bom gestor ativo conhecido(1).
O gestor capaz de superar o mercado é aquele que tem acesso a melhores
informações, e/ou tem modelos para mais bem processar as informações disponíveis para o público em geral. É o conjunto de informação e/ou seus modelos
que permitem ao bom gestor proporcionar um retorno superior ao do mercado,
justificando assim a administração ativa. Em troca do retorno superior esperado,
o gestor ativo costuma cobrar taxas de administração e de performance maiores
do que os fundos de gestão passiva; portanto só vale a pena incorrer nesse custo
maior, quando há forte evidência de que o gestor ativo tem condição de superar o
mercado.
Os praticantes desse mercado e as publicações especializadas tentam classificar
e apontar os melhores fundos de investimento e também avaliar a contribuição do
gestor com base em procedimentos estatísticos retirados dos modernos modelos
de finanças. Esses procedimentos são inspirados especialmente no modelo
CAPM(2), que postula certa relação entre risco e retorno. Outros modelos de
risco para o mercado financeiro, tal como o APT(3), também podem ser usados
para se avaliar a performance de investimento, como pode ser visto em qualquer
manual de finanças atual, como, por exemplo, Haugen (1997). Nas seções
seguintes, mostramos algumas estatísticas simples de avaliação de performance,
como a média do retorno; estatísticas inspiradas no CAPM (entre elas o famoso
índice de Sharpe), e outros procedimentos que permitem melhor avaliação do
timing de uma carteira ativa e também do sucesso da gestão passiva.
A principal adição dos modelos de finanças à avaliação dos fundos vem da
incorporação do risco, que se iniciou com o modelo de média-variância de
Markowitz, na década de 50. Se o retorno esperado de um fundo é tanto maior
quanto maior seu risco, então a inclusão de alguma medida de risco na avaliação
deste permite melhor verificação de quanto do retorno proporcionado por um
gestor veio do risco assumido e quanto veio de seu talento ou sorte. Assim, fica
mais bem explicada a verdadeira contribuição do gestor para o retorno do fundo.
216
RAC, v. 5, n. 3, Set./Dez. 2001
Índice de Sharpe e outros Indicadores de Performance Aplicados a Fundos de Ações Brasileiros
Outro aspecto importante na inclusão do risco é a sua contribuição para a
determinação da carteira ótima de um investidor (para investidores que se importem com risco, porquanto, no caso de investidores neutros ao risco, basta conhecer o retorno esperado).
Na avaliação de fundos de investimento, muitos praticantes e publicações especializadas tomam as estatísticas dos modelos acima, produzidas com base em
dados históricos, como se fossem bons estimadores do futuro desempenho do
fundo. Eles assumem a hipótese heróica de que séries de preços passados permitem boas estimativas para os preços futuros, daí o chavão de alguns: “retornos
passados não são garantia de retornos futuros. “Ainda que tivéssemos boas estimativas para o risco e retorno, um resultado interessante, apresentado por Admati
e Ross (1985), destaca que medidas de performance que dão melhor qualidade
a gestores com maior relação retorno/risco não indicam corretamente quais são
os gestores mais bem informados, pois esses certamente irão alterar bastante
suas carteiras em função da maior quantidade de informação, gerando assim
maior volatilidade (risco). No limite, um fundo que tem uma carteira estática
certamente não tem um gestor com informação ou modelos superiores.
Entre as estatísticas de avaliação de performance mais conhecidas estão o
índice de Sharpe (IS), apresentado em Sharpe (1966), que, desde então, tem sido
amplamente utilizado na indústria de fundos de investimento. Apesar da sua importância prática, sua utilização depende da estimação correta dos seus parâmetros
e da aplicação que se pretende. Na próxima seção, mostramos como calcular o
retorno; a seguir discutimos a inclusão e avaliação do risco e, mostramos como
calcular o IS e as falhas a que ele está sujeito; por fim mostramos outras medidas
para comparar fundos e fazemos uma breve aplicação aos dez maiores fundos
de ações negociados no Brasil.
Vale lembrar a importância desses indicadores, tanto para praticantes quanto
para todo o tipo de investidor, pois esse é um instrumental disponível para a tomada de decisão dos investidores, e recursos vultosos mudam de mãos de acordo
com o resultado desses números. Neste artigo mostram-se as falhas desses indicadores e como deve ser feita a sua aplicação. Toma-se como exemplo uma
amostra de três anos, com dados semanais dos dez maiores fundos de ações
brasileiros. Esperamos contribuir para as finanças nacionais, cobrindo uma lacuna na literatura e, possivelmente, ajudar na melhor alocação de recursos em
nosso país.
RAC, v. 5, n. 3, Set./Dez. 2001
217
Gyorgy Varga
RETORNO
O indicador de performance mais simples e talvez o mais utilizado na prática é
a taxa de retorno realizada. Mas a preocupação dos investidores deve ser com
a taxa esperada (ex-ante) de retorno e não com o que já aconteceu (ex-post).
Esse talvez seja o indicador mais importante para a maioria dos investidores
(certamente o é para os investidores neutros a risco). Há enorme dificuldade em
se obter esses valores esperados. Dessa forma, uma estimativa muito comum
para o retorno esperado vem da avaliação da média do seu retorno histórico, de
modo que, implicitamente, é suposto que o passado vai-se repetir de alguma forma.
No caso de fundos de investimento que não costumam ter nen (...truncated)