Quotidian encounters and the research in Education: racial relations, dialogic experiences and identification processes
Encontros cotidianos e a pesquisa em
Educação: relações raciais, experiência
dialógica e processos de identificação1
Quotidian encounters and the research
in Education: racial relations, dialogic
experiences and identification processes
Mailsa Carla Pinto Passos2
RESUMO
O presente artigo consiste em uma reflexão construída no processo de uma
pesquisa em Educação realizada em diálogo com o cotidiano escolar e tendo
como tema as relações raciais. Esse estudo – que teve como questão principal
compreender “como, no Brasil, as populações afro-brasileiras estabelecem
laços e alianças culturais e identitárias” – elegeu como material de análise
as enunciações e diálogos que emergem cotidianamente em contextos educativos. Discorremos aqui sobre o “encontro” como metodologia de pesquisa, fenômeno a partir do qual esses contextos emergem como ambientes
polifônicos. O trabalho teve como principais interlocutores teóricos Mikhail
Bakhtin e seus estudos da linguagem; Boaventura de Sousa Santos, que nos
orienta na reflexão sobre as questões epistemológicas; Paul Gilroy e Stuart
Hall. É uma pesquisa que dialoga ainda com o texto literário, compreendendo
a literatura como teoria social.
Palavras-chave: cotidiano; relações raciais; metodologia de pesquisa;
linguagem; currículo.
1 O presente artigo consiste na apresentação de alguns resultados de uma pesquisa financiada
pelo Edital Universal, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq);
pelo Programa Jovem Cientista do Nosso Estado e pelo Programa de Apoio à Escola Pública, da
Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).
2 Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil. Rua: São Francisco
Xavier, nº 524 – Pavilhão João Lyra Filho, 12 º andar – Maracanã. CEP: 20550-900.
Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 51, p. 227-242, jan./mar. 2014. Editora UFPR
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PASSOS, M. C. P. Encontros cotidianos e a pesquisa em Educação: relações raciais...
ABSTRACT
The present paper is a reflection built on the process of a research on the
Education field. This research was conducted in dialogue with schools
quotidian and had racial relations as a theme. Its main question was to comprehend “how the Afro-Brazilian population establishes identity bonds and
connections”. The expressions and dialogues that daily appear in educational
contexts were chosen to be its analyses’ material. Here the author discourses
about the “encounter” as a research methodology, phenomenon from which
these contexts appear as polyphonic environments. This paper’s main
theoretical interlocutors were: Mikhail Bakhtin and his language studies;
Boaventura de Sousa Santos guiding on the reflection on epistemological
matters; Paul Gilroy and Stuart Hall. It is still a research that also dialogues
with literary work, understanding literature as a social theory.
Keywords: quotidian; racial relations; research methodology; language;
curriculum.
Se “falar é existir absolutamente para o outro”, como nos ensinou Fanon
(2008), quem enuncia tem a possibilidade de escapar do lugar da invisibilidade
pela/com a palavra, pelas/com as narrativas. São elas que guardam a potência das
renovações e dos deslocamentos, consistindo o que emerge dessas narrativas em
material rico para a compreensão da rede de significações e sentidos presentes
na cultura, na sociedade. A palavra e a profusão de significados que ela guarda
não pertencem a um só indivíduo, a palavra é uma ponte (BAKHTIN, 2004),
produtora e produto de saberes, crenças, gostos, que circulam polifonicamente
e que guardam níveis de complexidade que nos colocam “em xeque” todas as
vezes que tentamos atribuir um sentido único às relações usando modos simplificadores e aprisionando os sentidos em modelos dicotomizados.
Fazer pesquisa em Educação é “encontrar o ‘outro’” na dinâmica dessas
“pontes”. É, sabendo que a linguagem é incompletude, investir em uma escuta
atenta das narrativas das experiências dos nossos interlocutores e interlocutoras,
posicionando-nos dialogicamente nessa relação. Trata-se de uma perspectiva
dialógica que contribui para a compreensão do cotidiano, não naquilo que ele
carrega de repetição e reprodução, mas principalmente naquilo que está presente como criação anônima do “homem comum”, como invenção, assim como
anuncia Certeau (1994).
No estudo que desenvolvemos, no qual a principal questão é “como a
diáspora africana estabelece laços e alianças culturais e identitárias” – inspirada
no que já sugeriu Gilroy (2001) – e ainda “como homens e mulheres afrodescendentes são representados enquanto referência ética e estética no cotidiano
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Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 51, p. 227-242, jan./mar. 2014. Editora UFPR
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escolar”, é com a enunciação que trabalhamos, com a polifonia de vozes que
circulam no ambiente escolar e que nos ensinam sobre a complexidade e as
tensões que se impõem quando nos propomos a refletir sobre este cotidiano e
seus praticantes.
Uma criança, sua professora e a Branca de Neve: emergências no
cotidiano e a questão racial
Karoline3 tem 5 anos e mora em uma comunidade no Bairro de Acari, na
periferia da Cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. Ela estuda em uma Escola Municipal de Educação Infantil e adora as aulas da professora Cláudia, de Educação
Física. Em uma tarde, a professora acabara de realizar uma atividade lúdica
com a turma de Karoline, trabalhando com o filme “Kirikou e a feiticeira”, de
Michel Ocelot4. A escolha do filme se deu porque a educadora desejava discutir
com as crianças a ideia de um “herói minúsculo” – “o mais fraco”, que reverte
a situação a seu favor, vencendo “o mais forte” e discutir a representação da
criança negra como um herói. O filme conta a história de um menino que tem
seus poderes potencializados exatamente pela sua condição de ser pequeno. O
protagonista é Kirikou, criança de uma tribo da África Ocidental, que consegue
vencer uma feiticeira que ameaçava seu povo.
A menina Karoline gostou tanto do trabalho que foi desenvolvido pela
professora neste dia, e além disso gostava tanto da “Tia Cláudia”, que a abraçou
carinhosamente e lhe disse “Tia, você é muito linda! Você é a Branca de Neve!”
O elogio, ao mesmo tempo em que encanta a professora, provoca uma
série de reflexões e deflagra para ela questões que dizem respeito aos modelos/
referências que uma criança negra de cinco anos tem em seu cotidiano. Como
se forma a subjetividade de uma menina negra em um país da América Latina,
cuja população de indivíduos negros autodeclarada, segundo o último censo do
IBGE, passa de 50%? Que imagens, que referências fazem para do cotidiano
dessa criança?
3 Neste texto foram preservados os nomes das pessoas. Optei por fazer desta forma por
entender que a pesquisa não desqualifica nem expõe de maneira vexatória nenhum sujeito em nosso
estudo. A todos – inclusive às crianças – foi perguntado durante o trab (...truncated)