Fiberoptic endoscopic swallowing disorders in chronic encephalopathy
Jornal de Pediatria - Vol. 77, Nº1, 2002 67
0021-7557/02/78-01/67
Jornal de Pediatria
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ARTIGO ORIGINAL
Alterações nasofibrolaringoscópicas da deglutição
na encefalopatia crônica não-progressiva
Fiberoptic endoscopic swallowing disorders in chronic encephalopathy
Dayse Manrique1, Erich C.M. Melo2, Rogério B. Bühler2
Resumo
Abstract
Objetivo: o objetivo deste estudo é avaliar os resultados da
nasofibrolaringoscopia em crianças com encefalopatia crônica nãoprogressiva (ECNP), no diagnóstico de disfagia orofaríngea neurogênica.
Métodos: realizamos a nasofibrolaringoscopia funcional da
deglutição em 68 crianças, enquadradas no programa de reabilitação
da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) – São
Paulo, no período de março de 1999 a março de 2000.
Resultados: observamos escape precoce do contraste alimentar
para a faringe (53,0%), penetração laríngea de contraste alimentar
pastoso (5,9%), penetração laríngea de contraste alimentar líquido
(4,4%), aspiração traqueal de contraste alimentar pastoso (14,7%),
aspiração traqueal de contraste líquido (32,3%), resíduo do contraste
após a deglutição (7,4%) e eficácia da tosse com eliminação do
contraste das vias aéreas (44,1%).
Conclusões: as crianças apresentaram elevados índices de comprometimento da fase faríngea da deglutição. A nasofibrolaringoscopia permitiu o diagnóstico da disfunção orofaríngea nas crianças
com ECNP, sendo importante sua realização para indicar a consistência alimentar mais segura, além de identificar a aspiração traqueal, que está relacionada a uma elevada morbidade.
Objective: to evaluate the results of fiberoptic endoscopic
examination of swallowing safety in children with cerebral encephalopathy in order to identify patients with oropharyngeal dysphagia.
Methods: 68 children from the Association for the Care of
Disabled Children (Associação de Assistência à Criança Deficiente
-AACD), São Paulo, were submitted to fiberoptic endoscopic examination of swallowing safety from March 1999 to March 2000.
Results: we observed premature spillage (53%), penetration in
a pureed consistency (5.9%), penetration in a liquid consistency
(4.4%), tracheal aspiration in a pureed consistency (14.7%), tracheal
aspiration in a liquid consistency (32.3%), residue (7.4%), cough
effectiveness (44.1%).
Conclusions: children showed a high incidence of pharyngeal
swallowing disorders. Tracheal aspiration was the most important
disorder because it is related with high morbidity in children with
cerebral encephalopathy. The texture and consistency of the patient’s
diet may be modified to decrease the risk of aspiration and improve
swallowing examination.
J Pediatr (Rio J) 2002; 78 (1): 67-70: disfagia, endoscopia,
encefalopatia crônica.
J Pediatr (Rio J) 2002; 78 (1): 67-70: dysphagia, endoscopy,
chronic encephalopathy.
Introdução
A deglutição é um processo neuromuscular dinâmico,
que compreende, didaticamente, quatro fases: pré-oral e
oral (voluntárias); faríngea e esofágica (involuntárias). Os
distúrbios da deglutição das fases oral e faríngea são muito
comuns em crianças com comprometimento neurológico,
porém muito pouco estudadas1-5.
1. Pós-graduanda (Doutorado) da Disciplina de Otorrinolaringologia e Distúrbios da Comunicação Humana da Univ. Federal de São Paulo – Escola
Paulista de Medicina; Médica Assistente do Hospital do Servidor Público
Estadual – Francisco Morato de Oliveira - São Paulo; otorrinolaringologista da Clínica de Disfagia da Associação de Assistência à Criança
Deficiente (AACD) – São Paulo.
2. Médico Residente do Serviço de Otorrinolaringologia e Cirurgia de
Cabeça e Pescoço do Hospital do Servidor Público Estadual – Francisco
Morato de Oliveira - SP; otorrinolaringologista voluntário da Clínica de
Disfagia da AACD – São Paulo.
A disfagia neurogênica compreende as alterações da
deglutição, que ocorrem em virtude de uma doença neurológica, com os sintomas e complicações decorrentes do
comprometimento sensório-motor dos músculos envolvidos no processo da deglutição6. A disfagia neurogênica é
particularmente debilitante, com conseqüente desnutrição
e problemas pulmonares crônicos, decorrentes da aspiração traqueal.
Artigo submetido em 08.05.01, aceito em 31.10.01.
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Alterações nasofibrolaringoscópicas... - Manrique D et alii
Várias afecções neurológicas cursam com disfagia orofaríngea, a qual é subdiagnosticada. As mais comuns são:
encefalopatias crônicas, não-progressivas e progressivas,
doenças neuromusculares degenerativas, tumores cerebrais
e traumatismo craniencefálico.
As manifestações clínicas dos distúrbios da deglutição
não são específicas de cada etiologia, mas constituem uma
síndrome, que pode cursar com recusa alimentar, fadiga
durante a alimentação, escape oral, regurgitação nasal,
engasgos, sufocação, asfixia, cianose, tosse durante a alimentação e alteração da qualidade vocal (voz úmida). No
entanto, o quadro mais grave é decorrente da aspiração
traqueal, que ocorre por inadequação da fase faríngea da
deglutição, levando à infecção pulmonar de repetição.
O diagnóstico da disfagia orofaríngea pode ser feito
pela correlação dos seus sintomas e sinais com o diagnóstico neurológico previamente estabelecido. Entre os métodos complementares de diagnóstico, destaca-se a videofluoroscopia da deglutição, que é o exame considerado padrão-ouro no diagnóstico das disfagias. A nasofibrolaringoscopia funcional da deglutição tem resultados comparáveis à videofluoroscopia, sendo um método seguro para ser
realizado em pacientes de qualquer idade, com a vantagem
de um menor custo, não exposição à radiação, além de
poder ser realizado à beira do leito. No entanto, não permite
o estudo da fase oral e esofágica da deglutição. Outros
métodos, como a cintilografia e o salivograma, permitem
identificar a aspiração, que é a complicação mais grave dos
distúrbios da deglutição.
O objetivo deste estudo é avaliar os resultados da
nasofibrolaringoscopia em crianças com encefalopatia crônica não-progressiva (ECNP), no diagnóstico de disfagia
orofaríngea neurogênica.
tes alterações motoras orais, e sobretudo da fase faríngea da
deglutição, além de serem dependentes de cuidador para a
alimentação.
Métodos
Foi realizado um estudo retrospectivo em 68 crianças
com ECNP e quadro clínico de disfagia orofaríngea, no
período de março de 1999 a março de 2000, enquadradas no
programa de reabilitação da Associação de Assistência à
Criança Deficiente (AACD) – São Paulo, sendo seu protocolo de estudo aprovado pelo comitê de ética da UNIFESP
- EPM (Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina) e da AACD. A nasofibrolaringoscopia
funcional da deglutição foi realizada segundo protocolo
proposto por Langmore7, sendo indicada nas crianças com
queixas predominantemente da fase faríngea da deglutição,
já que este método não permite o exame da fase oral da
deglutição. Os sintomas e sinais relevante (...truncated)