Erythroxylum (Erythroxylaceae) in the Atlantic Forest of Bahia, Brazil
Rodriguésia 65(3): 637-658. 2014
http://rodriguesia.jbrj.gov.br
DOI: 10.1590/2175-7860201465305
Erythroxylum (Erythroxylaceae) na Mata Atlântica da Bahia, Brasil
Erythroxylum (Erythroxylaceae) in the Atlantic Forest of Bahia, Brazil
Thiago Felipe de Araújo1,4, Pedro Fiaschi2 & André M. Amorim3
Resumo
Neste trabalho é apresentado o levantamento florístico de Erythroxylum na Mata Atlântica do estado da Bahia.
Todas as informações sobre as espécies foram obtidas através de análise de exsicatas depositadas nos herbários
ALCB, CEPEC, HRB, HUEFS, HUESC, MBM, R, RB, SP, SPF e consultas virtuais aos herbários BR, F, NY
e K. Foram realizadas expedições em campo, priorizando regiões com poucas coletas, registros de espécies
raras e suspeitas de novidades taxonômicas. Foram registradas 28 espécies, sendo E. ectinocalyx um novo
registro para a Bahia e E. compressum, E. distortum, E. leal-costae, E. mattos-silvae, E. membranaceum e
E. petrae-caballi constantes na lista de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção. São apresentadas
descrições, ilustrações, chave de identificação e comentários para todas as espécies estudadas.
Palavras-chave: flora, taxonomia, Malpighiales.
Abstract
A floristic treatment of Erythroxylum species from the Atlantic Forest of Bahia State is presented. We analyzed
specimens from the following Brazilian herbaria: ALCB, CEPEC, HRB, HUEFS, HUESC, MBM, R, RB, SP,
SPF, as well as images of specimens from a few virtual herbaria: BR, F, K, and NY. Field work was carried
out in the studied area, to visit areas with few collections, record rare species, and find possibly undescribed
taxa. Twenty eight species of Erythroxylum were recorded, among which E. ectinocalyx represents a new
record for the state and E. compressum, E. distortum, E. leal-costae, E. mattos-silvae, E. membranaceum
and E. petrae-caballi are threatened. We present descriptions, illustrations, identification keys and comments
for all studied species.
Key words: flora, taxonomy, Malpighialess.
Introdução
Erythroxylaceae Kunth é uma família de
distribuição tropical, constituída pelos gêneros
Aneulophus Benth., Nectaropetalum Engl.,
Pinacopodium Exell & Mendonça e Erythroxylum P.
Browne, sendo os três primeiros restritos ao continente
africano e o último presente em toda a zona tropical
(Heywood et al. 2007). A família já foi incluída na
ordem Linales por Cronquist (1981), porém recentes
estudos moleculares e morfológicos apontaram
o táxon como grupo irmão de Rhizophoraceae
(Wurdack & Davis 2009; Xi et al. 2012), assegurando
sua posição dentro da ordem Malpighiales.
Erythroxylum é o maior gênero da família e
comporta cerca de 230 espécies, que ocorrem em sua
maioria na América do Sul (Daly 2004). O Brasil,
com cerca de 114 espécies, é apontado como um
importante centro de diversidade e endemismo do
grupo (Plowman & Hensold 2004), especialmente
a Região Nordeste, que abriga 71 espécies (Loiola
2013), boa parte destas, descritas nos últimos trinta
anos (Costa-Lima & Alves 2013; Loiola & Sales
2008, 2012; Plowman 1983, 1986 e 1987). Dentre
os estados brasileiros, a Bahia é o que apresenta
maior número de espécies de Erythroxylum (ca.
de 50), distribuídas principalmente na Mata
Atlântica (Plowman 1987). Essa alta diversidade
de Erythroxylum na Mata Atlântica da Bahia
é acompanhada por uma destacada taxa de
endemismo, já que das 13 espécies apontadas como
endêmicas da Bahia por Loiola (2013), apenas E.
longisetulosum não ocorre neste bioma.
Universidade Estadual de Feira de Santana, Depto. Ciências Biológicas, Av. Transnordestina s/n, Novo Horizonte, 44036-900, Feira de Santana, BA, Brasil.
² Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Biológicas, Depto. Botânica, Campus Universitário, Trindade, 88040-900, Florianópolis, SC, Brasil.
3
Universidade Estadual de Santa Cruz, Depto. Ciências Biológicas, Rod. Ilhéus-Itabuna km 16, 45600-970, Ilhéus, BA, Brasil.
4
Autor para correspondência:
1
Araújo, T.F., Fiaschi, P. & Amorim, A.M.
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A presença de catafilos, estípulas
intrapeciolares, flores diminutas, heterostílicas com
tubo estaminal curto e frutos do tipo drupa permitem
o reconhecimento do gênero. Porém, a complexidade
morfológica de alguns caracteres, o elevado
número de espécies simpátricas, a falta de chaves
taxonômicas e de trabalhos que reúnam informações,
especialmente sobre as espécies descritas nos últimos
anos, tornam sua distinção infragenérica uma tarefa
difícil. Diante desta problemática, objetivou-se
neste trabalho contribuir para o conhecimento sobre
a riqueza e distribuição de Eryhtroxylum na Mata
Atlântica da Bahia, apontar os caracteres úteis para
a identificação das espécies e fornecer descrições
morfológicas, ilustrações e uma chave taxonômica
contemplando todas as espécies encontradas.
baixas). A compilação das informações sobre a
distribuição geográfica das espécies fora da área de
estudo foi baseada em literatura (Loiola 2013, 2001)
e eventuais categorias infra-específicas não foram
adotadas neste trabalho.
A terminologia morfológica foi baseada em
Radford et al. (1974) e para a definição de termos
como catafilo, sétula, lígula, flores brevistilas e
flores longistilas seguiu-se Schulz (1907) e Loiola
(2001). Todas as flores ilustradas tiveram a corola
total ou parcialmente removida.
Material e Métodos
Foram efetuadas análises de exsicatas
depositadas nos herbários ALCB, CEPEC, HRB,
HUEFS, HUESC, MBM, R, RB, SP, SPF e consultas
virtuais aos herbários BR, F, K e NY (siglas seguem
Thiers, continuamente atualizado). Estas informações
foram complementadas por observações feitas em
campo, priorizando regiões com poucas coletas, com
registros de espécies raras ou possíveis novidades
taxonômicas. A área de estudo considerada foi a
extensão da Mata Atlântica no estado da Bahia, como
delimitada pelo Mapa de Biomas do IBGE (2004)
(Fig. 1). Quanto às fitofisionomias, foram adotados
os limites propostos por Thomas & Barbosa (2008)
que consideraram os seguintes tipos vegetacionais
na Mata Atlântica da Bahia: restinga (arbustiva e
arbórea), tabuleiro (floresta de tabuleiro, mussununga
e campo nativo), floresta ombrófila densa (montana,
submontana e de terras baixas), floresta estacional
semidecidual (submontana e de terras baixas) e
floresta estacional decidual (submontana e de terras
Figura 1 ‒ Limites do Bioma Mata Atlântica no estado
da Bahia adaptado de IBGE (2004)
Figure 1 ‒ Limits of the Atlantic Forest biome in Bahia state,
adapted from IBGE (2004).
Chave para as espécies de Erythroxylum da Mata Atlântica na Bahia, Brasil
1.
Estípulas estriadas (às vezes com estrias evidentes apenas nas estípulas jovens ou em sua face interna,
E. squamatum).
2. Estípulas iguais ou maiores que 5 mm compr.
3. Estípulas com margem fimbriada ................................................. 11. Erythroxylum hamigerum
3’. Estípula com margem inteira (raro erosa, E. columbinum).
4. Pecíolo 6‒20 mm compr. ......................................................... 18. Eryth (...truncated)