Seroprevalence of Chagas infection among inhabitants of municipalities in the Botucatu region, State of São Paulo
ARTIGO-ARTICLE
Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 40(5):516-520, set-out, 2007
Soroprevalência da infecção chagásica em moradores
de municípios da região de Botucatu, Estado de São Paulo
Seroprevalence of Chagas infection among inhabitants
of municipalities in the Botucatu region, State of São Paulo
Ilda de Godoy1 e Domingos Alves Meira2
RESUMO
O objetivo deste estudo foi o de procurar evidências da transmissão vetorial da doença de Chagas, nos domicílios e peridomicílios de indivíduos
residentes em municípios da região de Botucatu, que tiveram xenodiagnóstico positivos. Foram estudados 58 indivíduos e foi coletada amostra
do sangue para a realização de exames laboratoriais. Os resultados deste estudo mostraram que os indivíduos, de ambos os grupos, tinham baixa
escolaridade e exerciam profissões que não exigiam qualificações técnicas. Houve discreto predomínio de indivíduos do sexo feminino. Quando
comparadas às condições anteriores, verificou-se que houve discreta melhora nas condições de habitação, por outro lado, houve aumento de
moradores em zona rural. Os indivíduos nascidos antes de 1983, apresentaram conhecimento e contato com triatomídeo estaticamente mais
elevado quando comparado com os nascidos a partir 1983. A análise e comparação dos resultados das sorologias, referentes aos hemaglutinação
passiva indireta, imunofluorescência indireta e ensaio imunoenzimático, mostrou que o ELISA apresentou maior sensibilidade. Os resultados
deste estudo mostram que a população nascida a partir de 1983 não conhecia o vetor transmissor da doença de Chagas.
Palavras-chaves: Doenças de Chagas. Infecção chagásica. Transmissão vetorial.
ABSTRACT
The aim of this study was to look for evidence of vector transmission of Chagas disease, in and around the homes of individuals living in
municipalities in the Botucatu region who presented a positive xenodiagnosis. Fifty-eight subjects were studied and blood samples were collected
from them for laboratory analysis. The results from this study showed that the individuals in both groups presented low formal education
levels and had been working in unskilled professions There was a slight predominance of females. In comparison with previous conditions, it
was observed that there had been a slight improvement in the subjects’ housing conditions, but on the other hand there had been an increase
in the numbers of individuals living in rural areas. Subjects born before 1983 presented statistically greater knowledge of and contact with
triatomines than did those born from 1983 onwards. Analysis and comparison of the results from the serological tests, including indirect passive
hemagglutination, indirect immunofluorescence and immunoenzymatic assay, showed that ELISA presented greatest sensitivity. The results
from this study have shown that the population born from 1983 onwards did not know about the transmission vector for Chagas disease.
Key-words: Chagas disease. Chagas infection. Vector transmission.
A doença de Chagas, descrita em 1909 por Carlos Chagas,
é enfermidade infecciosa causada por protozoário flagelado
da espécie Trypanosoma cruzi4 27. A transmissão natural se faz
pela contaminação da pele ou mucosas pelas fezes dos vetores insetos hematófogos estritos, da família Triatominae, conhecidos
genericamente por triatomíneos contendo formas infectantes de
Trypanosoma cruzi. Os mecanismos secundários de transmissão
são por via transfusional, materno-infantil (transplacentária
ou por aleitamento materno), via oral, transplante de órgãos
e a transmissão acidental, mais freqüente pela manipulação de
material contaminado em laboratório. Entre estas possibilidades
de veiculação do triatomíneo, vetor da infecção, tem especial
importância epidemiológica a transmissão por transfusão de
sangue, que pode fazer com que a doença se dissemine para
áreas sem transmissão natural, inclusive para grandes centros
populacionais. Outro, é a transmissão congênita, que pode
representar risco mais duradouro de produção de novos casos
e de manutenção da endemia chagásica4 25 26 27.
1. Departamento de Enfermagem, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, SP. 2. do Departamento de Doenças Tropicais e Diagnóstico por
Imagem, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadula Paulista, Botucatu, SP.
Endereço para correspondência: Profa Ilda de Godoy. Deptº de Enfermagem/FMB/UNESP. Rubião Júnior s/n, Campus de Botucatu, 18618-000 Botucatu, SP
Tel: 55 14 3811-6004
e-mail:
Recebido para publicação em: 8/02/2007
Aceito em: 17/08/2007
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Godoy I e Meira DA
Estudos de custo-benefício ou custo-efetividade têm mostrado
que o controle das condições que facilitam a infecção é muito mais
efetivo que os gastos com atenção ao paciente chagásico 5 19 23 .
Apesar da magnitude do problema representado pela doença
de Chagas e de se dispor de tecnologia comprovadamente eficaz,
isso não foi bastante para manter ação regular de controle
da doença. Entre 1950 e 1975, apenas atividades pontuais e
discontínuas foram cumpridas e muitos indivíduos, certamente,
foram infectados nesse período e contribuem para o número de
chagásicos crônicos até hoje. A partir de 1975, com os avanços
obtidos no controle da malária e com os recursos daí excedentes,
o controle da doença de Chagas no país passou a ter maior
prioridade24.
Entre 1975 e 1983, foram realizados os primeiros inquéritos
entomológicos e sorológicos, em todo o país. Desta forma foram
conhecidas as áreas endêmicas da doença e também definidas
e priorizadas as ações de controle. Em 1983, a área endêmica
reconhecida correspondia a 36% do território nacional. Na época,
a prevalência da infecção no meio rural foi de 4,2%, excluído
o estado de São Paulo, onde a transmissão estava virtualmente
interrompida24.
No período de 1990 a 1998, foram pesquisadas, dentro das
atividades de rotina do Programa de Controle da Doença de
Chagas no Estado de São Paulo, 127.408 unidades domiciliares.
No mesmo período, constatou-se a ocorrência isolada e dispersa
de apenas três exemplares do Triatoma infestans. Todos foram
notificados por moradores da região de Campinas, nenhum deles
infectado por Trypanosoma cruzi. Somente o atendimento à
notificação de um exemplar do triatomíneo, proveniente da área
rural do município de Paulínia, resultou no encontro de uma
colônia e captura de 109 exemplares do Triatoma infestans 9 24.
O encontro deste último foco, após uma década sem registro de
infestação importante por Triatoma infestans no Estado de São
Paulo, foi motivo de preocupação das autoridades da área de
Saúde Pública14.
Tendo em vista a inexistência de registro de transmissão
vetorial a partir de 1983, pressupõe-se que os indivíduos
infectados pelo Trypanosoma cruzi e que vivem no Estado de
São Paulo tenham adquirido a infecção antes de 1983. Muitos
indivíduos que têm a infecção chagásica transferiram-se do
meio rural para o urbano e, como tal, alguns deles tornaram-se
doadores de sangue vo (...truncated)