Flora of Espírito Santo: Meliaceae
Rodriguésia 68(5): 1693-1723. 2017
http://rodriguesia.jbrj.gov.br
DOI: 10.1590/2175-7860201768512
Flora do Espírito Santo: Meliaceae
Flora of Espírito Santo: Meliaceae
Thiago Bevilacqua Flores1,2,4, Vinicius Castro Souza2 & Rubens Luiz Gayoso Coelho3
Resumo
Meliaceae possui 50 gêneros e cerca de 550 espécies distribuídas em todo mundo, embora com maior
diversidade na região pantropical. No Brasil, são encontradas 84 espécies distribuídas em sete gêneros. Esse
estudo apresenta o tratamento florístico das espécies de Meliaceae no estado do Espírito Santo. Para alcançar
esses resultados, foram consultados os principais herbários do país, além de realizadas atividades de campo.
Os principais resultados deste trabalho incluem, descrições morfológicas para os gêneros e as espécies, chaves
de identificação, ilustrações e comentários taxonômicos. Com relação as novidades taxonômicas, foram
encontradas 25 espécies que pertencem a quatro gêneros, uma pertencente a Cabralea, duas a Cedrela, seis
a Guarea e 16 a Trichilia. Nesse estudo também são apresentados uma nova ocorrência para o estado e ainda,
duas espécies de Trichilia são provisoriamente tratadas como Trichilia sp. 1 e Trichilia sp. 2.
Palavras-chave: angiospermas, flora, Mata Atlântica, taxonomia.
Abstract
Meliaceae has 50 genera and about 550 species distributed in the whole world, although with greater diversity
in the pantropical region. In Brazil, there are 84 species distributed in seven genera. This study presents the
floristic treatment of the Meliaceae species in the state of Espírito Santo. In order to achieve these results,
we consulted the main herbaria in the country and performed field activities. The main results of this work
include the morphological descriptions of the genera and species, identification keys, illustrations and
taxonomic comments. In terms of the taxonomic novelties, 25 species belonging to four genera were found:
One belonging to Cabralea, two to Cedrela, six to Guarea, and 16 to Trichilia. In this study, we also present
a new species occurrence for the state and therefore, the two Trichilia species are provisionally treated as
Trichilia sp. 1 and Trichilia sp. 2.
Key words: angiosperms, flora, Atlantic forest, taxonomy.
Introdução
Meliaceae possui cerca de 550 espécies
distribuídas em aproximadamente 50 gêneros.
A família apresenta distribuição principalmente
cosmopolita, mas sobretudo pantropical e
ocorrendo em diversos habitats, desde florestas
úmidas até ambientes semiáridos (Pennington
& Styles 1975; Mabberley et al. 1995). A região
neotropical é o centro de diversidade da família,
apresentando 122 espécies em oito gêneros. O
continente africano e a região da Malásia, também
são importantes regiões para a diversidade desse
grupo (Pennington 1981; Mabberley et al. 1995).
No Brasil, são encontradas 84 espécies distribuídas
em sete gêneros: Cabralea A.Juss., Carapa Aubl.,
Cedrela P.Browne, Guarea F.Allam. ex L., Melia
L. (subespontâneo), Swietenia Jacq. e Trichilia
P.Browne. Meliaceae é encontrada em todos
os estados do Brasil, contudo, o maior número
de espécies é concentrado principalmente nos
domínios fitogeográficos da Amazônia e da Mata
Atlântica (BFG 2015).
Universidade Estadual de Campinas, Inst. Biologia, Cidade Universitária Zeferino Vaz, R. Monteiro Lobato 255, Campinas, 13083-862, SP, Brasil.
Universidade de São Paulo, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Lab. Botânica Sistemática, Herbário ESA, Av. Pádua Dias 11, Bairro
Agronomia, 13418-900, Piracicaba, SP, Brasil.
3
Universidade de São Paulo, Escola de Artes, Ciências e Humanidades, R. Arlindo Bettio 1000, 03828-000, São Paulo, SP, Brasil.
4
Autor para correspondência:
1
2
1694
Economicamente, merecem destaque algumas
espécies que produzem madeira de boa qualidade
para a indústria madeireira e moveleira, como
os “mognos” (Swietenia spp.), as “canjeranas”
(Cabralea canjerana (Vell.) Mart.) e os “cedros”
(Cedrela spp.). Algumas espécies, também são
cultivadas como ornamentais, como “aglaia”
(Aglaia Lour. spp.), “árvore-de-Santa-Bárbara”
(Melia azadirachta L.) e o “niim” (Azadirachta
indica A. Juss.), que além disso, também apresenta
uma substância chamada “azadiractina”, utilizada
como inseticida (Lorenzi et al. 2003; Souza &
Lorenzi 2010).
Meliaceae tem um longo histórico taxonômico
que foi sumarizado na obra de Pennington & Styles
(1975). Os principais trabalhos que trataram a
família de modo amplo, são os de De Candolle
(1824); Hooker (1862); C. De Candolle (1878a);
Harms (1896, 1940) e Pennington & Styles (1975).
Também é importante ressaltar, os trabalhos de
Pennington (1981) e Mabberley et al. (1995)
que trataram um grande número de espécies em
regiões de importante diversidade para a família.
Além disso, algumas revisões taxonômicas para
os gêneros foram realizadas recentemente, como
por exemplo, para a região neotropical, os gêneros
Cedrela (Pennington & Muellner 2010), Carapa
(Kenfack 2011), Guarea (Pennington & Clarkson
2013) e Trichilia (Pennington 2016) foram revistos
nessa década.
Do ponto de vista da classificação, vale
destacar os trabalhos de C. De Candolle (1878b)
que dividiu a família em quatro tribos (Melieae,
Trichilieae, Swietenieae e Cedreleae), os de Harms
(1896 e 1940), que propuseram a divisão da família
em três subfamílias (Cedreloideae, Swietenioideae e
Melioideae) e o de Pennington & Styles (1975), que
dividiu a família em quatro subfamílias - Melioideae
com sete tribos e 35 gêneros, Swietenioideae com
três tribos e sete gêneros e Quivisianthoideae e
Capuronianthoideae, com apenas um gênero cada.
Muellner et al. (2003), através do uso de dados
macromoleculares, indicam que Quivisianthe Baill.
e Capuronianthus J.-F. Leroy devem ser inseridos
em Melioideae e Swietenioideae, respectivamente.
Filogeneticamente, Meliaceae é monofilética
(Gadek et al. 1996; Muellner et al. 2003) e o grupoirmão dessa família é Simaroubaceae (Muellner
et al. 2007). Contudo, as principais análises
filogenéticas que trataram dessas questões foram
realizadas com baixo número de terminais e em
especial, uma baixa amostragem das espécies da
região neotropical.
Flores TB, Souza VC & Coelho RLG
O estado do Espírito Santo é constituído por
formações florestais peculiares ao bioma da Mata
Atlântica e recentemente muitas espécies novas
foram descobertas nessas formações (Filho et al.
2000). Além disso, Meliaceae também está entre
as famílias que mais contribuem para a diversidade
florística na região neotropical (Gentry 1988) e
do ponto de vista econômico, algumas espécies
produzem madeira de boa qualidade, como
Cedrela fissilis (Souza & Lorenzi 2010), o que
leva a ameaças de extinção graças à pressão de
extrativismo.
O presente trabalho trata do estudo das
espécies de Meliaceae no estado do Espírito
Santo. São apresentados descrições morfológicas,
chaves de identificação, ilustrações e comentários
taxonômicos.
Material e Métodos
O estado do Espírito Santo ocupa uma área
de 46.098.571 km2 no Sudeste do B (...truncated)