Regional parliaments in trade negotiations: the involvement of the European and Mercosur Parliaments in the EU-Mercosur negotiations
Revista do CESOP
http://dx.doi.org/10.1590/1807-01912019252377
e-ISSN 1807-0191
Parlamentos regionais nas negociações comerciais:
o Parlamento Europeu e o do Mercosul no acordo
União Europeia-Mercosul
Karina L. Pasquariello Mariano1
Bruno Theodoro Luciano2
Lucas Bispo dos Santos3
As negociações Mercosul-UE são tradicionalmente analisadas pela perspectiva dos
governos. O objetivo deste artigo é discutir o papel e a relevância dos parlamentos
regionais nessas negociações, que perduram mais de 20 anos. A análise verifica se
a existência de um parlamento regional amplia as discussões sobre as negociações
e influi no andamento destas, considerando o período entre 1999 e 2017. O artigo
analisa as posições dos parlamentares em relação às propostas apresentadas pelos
respectivos blocos, o nível de informação que os parlamentares possuem sobre as
negociações a que têm acesso e a capacidade de influência dos parlamentares
regionais nos termos do acordo. O intuito foi verificar o grau de envolvimento dos
parlamentos regionais nas negociações comerciais. Concluímos que, embora os dois
parlamentos tenham graus de competências bastante distintos, em ambos os casos
se observa uma atuação autônoma com relação aos Executivos, que apresenta um
importante grau de polarização política em relação aos resultados do acordo e uma
forte demanda por negociações comerciais mais transparentes.
Palavras-chave: negociações comerciais; União Europeia; Mercosul; parlamento
europeu; parlamento do Mercosul
Introdução
As negociações comerciais são tradicionalmente analisadas pela perspectiva dos
governos, partindo da suposição de que estes são porta-vozes dos interesses nacionais.
Algumas pesquisas apresentam análises mais amplas, levando em consideração os grupos
de interesse que pressionam os governos ou as instâncias burocráticas internas que podem
interferir no posicionamento dos representantes governamentais (Silva-Rêgo, Figueira,
2018; Mariano e Ramanzini Jr., 2013). Contudo, dificilmente se analisa a participação dos
Unesp, Departamento de Antropologia, Política e Filosofia. Araraquara (SP), Brasil. E-mail:
<>.
2 University of Birmingham, Political Science and International Studies. Birmingham (WM), Reino Unido. Email: <>.
3 Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas
(PUC-SP, Unesp e Unicamp), São Paulo (SP), Brasil. E-mail: <>.
1
OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, vol. 25, nº 2, maio-agosto, p. 377-400, 2019
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PARLAMENTOS REGIONAIS NAS NEGOCIAÇÕES COMERCIAIS: O PARLAMENTO EUROPEU E DO MERCOSUL
parlamentos regionais nas negociações comerciais. Este artigo discute justamente o papel
e relevância dos parlamentos regionais nessas negociações, usando como objeto de análise
o caso das negociações do acordo entre União Europeia (UE) e Mercado Comum do Sul
(Mercosul), que perduram mais de 20 anos. Nossa argumentação se baseia na seguinte
questão: a existência de um parlamento regional ampliou as discussões sobre as
negociações e influiu no andamento destas?
Como essa negociação envolve dois parlamentos regionais muito distintos,
buscamos responder à pergunta considerando as particularidades de cada caso.
Considerando que o Parlamento Europeu (PE) ao longo do tempo alcançou competências
mais próximas de um parlamento nacional (Kreppel, 2002; Rittberger, 2003; Campos,
2017) e que o Parlamento do Mercosul (Parlasul) mantém-se como esfera consultiva do
Mercosul (Dri e Paiva, 2016; Mariano, Bressan e Luciano, 2017), este artigo discute em
que medida possuir maior capacidade de poder decisório – como no caso do PE – é um
elemento que influencia no envolvimento parlamentar em negociações comerciais.
Apesar das claras diferenças em termos de competências e desenvolvimento
institucional entre os dois casos, consideramos que a UE não é necessariamente um modelo
sui generis (n = 1), como parte da literatura havia anteriormente defendido (Caporaso et
al., 1997; Phelan, 2012). Na verdade, nos alinhamos com a emergente agenda de pesquisa
sobre regionalismo comparado, que tem argumentado que o caso europeu pode ser, em
determinados aspectos, contrastado com outras organizações regionais estabelecidas
majoritariamente na América Latina e na África (Söderbaum, 2015; Börzel e Risse, 2016).
Tendo em vista que os dois casos parlamentares analisados neste artigo foram instâncias
criadas dentro de organismos com vocação para integração regional com o intuito de
acrescer legitimidade democrática às decisões tomadas em nível regional, ambos buscaram
igualmente monitorar e participar de temas decididos no âmbito de seus blocos regionais.
Essa tendência pode inclusive ser observada no campo das negociações comerciais, tema
tradicionalmente conduzido no âmbito do Mercosul e da UE. Nesse sentido, desenvolver
um esforço comparado para analisar o papel dos parlamentos regionais em negociações
comerciais é fundamental para alcançar um melhor entendimento sobre em que medida
essas e outras instâncias parlamentares têm contribuído para politizar e democratizar os
acordos comerciais firmados pelos blocos regionais.
Na primeira parte do artigo, “O desenvolvimento das negociações comerciais
Mercosul-UE: origens, estagnação e relançamento”, recuperamos as linhas gerais do
histórico da relação entre UE e Mercosul, apresentando os principais momentos da
negociação e as propostas defendidas por ambos os lados. Em seguida, em “O Parlamento
Europeu nas
negociações
Mercosul-UE: autonomia,
transparência
e polarização”,
verificamos o envolvimento do Parlamento Europeu (PE) nas negociações de políticas
comerciais, partindo do questionamento acima apresentado. Na terceira parte,
“O
Parlamento do Mercosul nas negociações Mercosul-UE: autonomia, transparência e
polarização”, abordamos o caso do Mercosul, apresentando quais os aspectos semelhantes
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KARINA L. PASQUARIELLO MARIANO; BRUNO THEODORO LUCIANO; LUCAS BISPO DOS SANTOS
e divergentes encontrados em relação ao caso europeu no acompanhamento parlamentar
das negociações do referido acordo.
Além de analisarmos os instrumentos utilizados nos dois casos parlamentares, para
influir ou se posicionar a respeito das negociações, observamos também o conteúdo dos
documentos e das discussões parlamentares nos últimos anos a partir do conteúdo
disponível nas páginas eletrônicas de ambos os parlamentos4. Em cada caso, três
elementos foram observados: o grau de autonomia dos parlamentos frente às posições dos
Executivos, o nível de transparência das negociações e a polarização política em cada
parlamento regional com relação ao acordo comercial.
Finalmente, na conclusão comparamos as posições dos parlamentares em relação
às propostas apresentadas pelos respectivos blocos, o grau de informação sobre as
negociações a que têm acesso efetivamente e a capacidade de influência dos
parlamentares regionais nos termos do acordo. Argumentamos que, embora os dois
parlamentos regionais apresentem competê (...truncated)