Consultancy for small and medium enterprises: structure and organization of brazilian consulting services
Gest. Prod., São Carlos, v. 19, n. 1, p. 151-171, 2012
Consultoria para pequenas e médias empresas:
as formas de atuação e configuração no espaço de
consultoria brasileiro
Consultancy for small and medium enterprises: structure and
organization of brazilian consulting services
Júlio César Donadone1
Frederico Zenorini da Silveira1
Vanise Rafaela Zivieri Ralio1
Resumo: Ao visualizar o tecido organizacional brasileiro, evidencia-se a presença e a importância das micro e
pequenas empresas (MPEs), tendo como consequência a crescente demanda por serviços de suporte à sua gestão. Nesse
sentido, o presente trabalho visa contribuir para o entendimento do espaço de consultoria brasileiro, principalmente
no que se refere ao seu crescimento, e sua relação com as empresas de médio e pequeno porte, particularmente,
analisando as formas de atuação e posicionamento do SEBRAE-SP, desde seu surgimento dentro deste espaço e sua
inter-relação com o aparecimento e crescimento de Cooperativas de Consultores e na instrumentação e implementação
de políticas públicas direcionadas às MPEs.
Palavras-chave: Pequenas e médias empresas. Consultoria. SEBRAE. Cooperativa. Consultores.
Abstract: The Brazilian organizational space shows the presence and importance of micro and small business
companies, which leads to a growing demand for management support services. Therefore, the present study aims
to contribute to the Brazilian consulting services space in terms of its growth and its relationship with small and
medium companies, particularly analyzing SEBRAE-SP since its establishment focusing on its operation with the
creation of consulting cooperatives as well as the implementation of public policies for micro and small businesses
development.
Keywords: Small and medium firms. Management consulting. SEBRAE. Cooperative. Consultant.
1 Introdução
Ao visualizar o tecido organizacional brasileiro,
evidenciam-se a presença e a importância das micro
empresas e das empresas de pequeno porte (PMEs),
tendo como consequência a crescente demanda por
serviços de suporte a sua gestão. Nesse sentido, o
presente trabalho visa contribuir para o entendimento
do espaço de consultoria brasileiro, principalmente no
que se refere ao seu crescimento e à sua relação com as
empresas de médio e pequeno porte, particularmente,
analisando a forma como o SEBRAE-SP, desde seu
surgimento, vem se comportando dentro deste espaço
e sua inter-relação com o aparecimento e crescimento
de Cooperativas de Consultores.
Para atingir tal objetivo, a pesquisa foi estruturada
em dois eixos: o primeiro focado na descrição e
análise da atuação do SEBRAE-SP enquanto prestador
de serviços de consultoria para micro e pequenas
empresas, mais especificamente, nos processos de
mudanças aos quais a instituição se submeteu nos
1
últimos anos, culminando na criação da Unidade
Operacional de Orientação Empresarial, a qual, hoje,
é a responsável pelo desenvolvimento dos produtos
de consultoria e consultoria remota (impressos,
cursos, palestras, mídias etc.) que representam a
principal forma pela qual o SEBRAE-SP atualmente
atende às organizações de pequeno porte; o segundo,
decorrente do anterior, como explicitarei no decorrer
do trabalho, surgiu do interesse de analisar e entender
o que tem motivado o aparecimento e crescimento
de Cooperativas de Consultores, e a sua inter-relação
com as mudanças nas formas de atuação do SEBRAE.
2 Origens das empresas de
consultoria
O início do processo de formação das empresas de
consultoria que se destacam no cenário atual remonta
ao período que corresponde ao final do século XIX
Departamento de Engenharia de Produção, Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia, Universidade Federal de
São Carlos – UFSCar, Rod. Washington Luís, Km 235, SP-310, CP 676, CEP 13565-905, São Carlos, SP, Brasil,
e-mail:
Recebido em 24/8/2010 — Aceito em 15/10/2011
Suporte financeiro: CNPq.
152 Donadone et al.
e início do século XX. Entre as décadas de 1850 e
1920, surgem as firmas que, posteriormente, por meio
de fusões e aquisições, iriam consolidar-se como os
polos dominantes do espaço de consultoria mundial.
Dois países destacam-se como locais de origem
das empresas de consultoria: a Inglaterra e os Estados
Unidos. Este último, configurando-se como principal
espaço de construção das características que se
tornariam elementos estruturantes das corporações
líderes do setor. Segundo pesquisa da Revista
Consultants News de 2000, entre as dez maiores
empresas do setor, seis têm origem norte-americana,
duas têm sua origem na fusão de firmas inglesas e
norte-americanas, uma tem origem inglesa e somente
a francesa Gemini Consulting não é originária desses
países. Como referência cronológica, podemos
citar a fundação, nos Estados Unidos, em 1886,
da Arthur D. Little; em 1906, da Ernst & Ernst
e Arthur Young & Company; em 1914, da Booz
Hallen & Hamilton; Arthur Andersen, em 1913;
Mckinsey, em 1926; e, na Inglaterra, em 1849,
tem-se a fundação da Price - segundo Coget (1999),
a Price que, posteriormente, em 1865 tornar-se-ia a
Pricewaterhouse, aparece como a mais antiga empresa
de consultoria - e, em 1854, da Coopers. Entre as
empresas citadas e que surgiram neste período,
encontram-se oito das dez maiores empresas de
consultoria do mercado mundial.
A primeira fase do desenvolvimento das consultorias
está relacionada com o aumento do tamanho e da
complexidade das organizações industriais nos Estados
Unidos na passagem do século. Tal acontecimento
trazia consigo inúmeras possibilidades para a atuação
de engenheiros, advogados e contadores, como agentes
externos detentores de um conhecimento específico,
no auxílio da resolução dos problemas originários
do processo de expansão das empresas.
Como formulado por McKenna (1995) no período,
as empresas em fase de expansão, que buscavam
auxílio técnico, poderiam encontrá-lo em consultores
como o engenheiro químico Arthur D. Little bem como
em firmas de contabilidade como Arthur Andersen
e Ernst & Ernst que, na primeira década do século,
já atuava em todo o território norte-americano e em
subsidiárias de firmas de contabilidade inglesas,
como a Price Waterhouse, as quais providenciavam
auditoria externa e controle financeiro para as
empresas em crescimento - as leis que discorriam
sobre corporações inglesas (The Companies Act de
1879 e The Bankruptcy Act de 1883) mudaram o papel
dos contadores que passaram de “guarda livros” para
auditores. Fato que nos Estados Unidos só ocorreu na
primeira década do século XX (WILKINSON, 1995).
Quanto às questões jurídicas, havia uma expansão
de unidades regionais que, conjuntamente com as
situadas em Nova York, atendiam às divisões de
companhias distribuídas nos estados norte-americanos.
Gest. Prod., São Carlos, v. 19, n. 1, p. 151-171, 2012
Ou seja, as três profissões, engenharia, contabilidade
e direito, apresentavam um forte crescimento em
número e tamanho das empresas a partir de 1890,
fornecendo conselhos corporativos a um mercado
que se expandia rapidam (...truncated)