Música e a produção de afetos
PENHA, Gustavo Rodrigues. Música e a produção de afetos. Revista Vórtex, Curitiba, v.7, n.1, 2019, p.1-29
Música e a produção de afetos1
Gustavo Rodrigues Penha2
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul | Brasil
Resumo: Este artigo investiga diferentes maneiras de se conceber o afeto, buscando, por meio de uma
revisão bibliográfica crítica, traçar conexões entre certas elaborações conceituais da filosofia de Gilles
Deleuze – engendradas junto aos pensamentos de Espinosa e Bergson, dois de seus principais
intercessores, bem como de seu parceiro Félix Guattari –, com reflexões de alguns compositores e
musicólogos acerca do funcionamento dos afetos na composição musical. São abordadas: certas
concepções de afeto-sentimento em música; a indicação de afetos, pelos compositores, por meio da escrita
de caráter nas partituras; a atenção ao afetos catalogados, ou clichês, na composição musical; a invenção e
inauguração de afetos na prática composicional; as qualidades e potências dos materiais musicais,
compreendidos enquanto afetos sensíveis; as estritas conexões e as cristalizações entre afetos sensíveis e
afetos problemáticos; a virtualidade dos afetos e dos perceptos; certas relações entre afeto, corte e tempo.
Palavras-chave: composição musical; afeto; percepto; sensação; cristal de tempo.
Music and the production of affects. Submetido em: 29/09/2018. Aprovado em: 05/04/2019. A maior parte deste artigo é
derivada da tese intitulada Entre escutas e solfejos: afetos e reescrita crítica na composição musical (PENHA, 2016), em que são
apresentados os resultados da pesquisa de doutorado, concluída em 2016, realizada pelo autor na UNICAMP, com bolsa da
FAPESP (Processo nº 2011.00784-6) e sob orientação do Prof. Dr. Silvio Ferraz.
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Compositor, Gustavo Penha é bacharel pela Faculdade Santa Marcelina (FASM), onde estudou com Sergio Kafejian e Paulo
Zuben. Realizou mestrado e doutorado em Música na UNICAMP, sob orientação de Silvio Ferraz e com bolsa da FAPESP, e
pós-doutourado na ECA/USP, com bolsa do CNPq. Durante seu doutorado participou de um estágio de pesquisa na
Universidade Paris 8, estudando com José Manuel Lopez Lopez, Anne Sèdes e Alain Bonardi. Atualmente é professor da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3076-3477. E-mail:
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PENHA, Gustavo Rodrigues. Música e a produção de afetos. Revista Vórtex, Curitiba, v.7, n.1, 2019, p.1-29
Abstract: This paper investigates different ways of conceiving the affect, seeking, through a critical
bibliographical review, to establish connections between certain conceptual elaborations of the Gilles
Deleuze’s philosophy – engendered with the Spinoza’s and Bergson’s thoughts, as well as with his partner
Félix Gattari – with reflections of some composers and musicologists about the functioning of the affect
in the musical composition. The following aspects are addressed: certain conceptions of affect-feeling in
music; the indication of affects, by the composers, through the writing of character on the scores; the
attention to cataloged affects, or clichés, in musical composition; the invention and inauguration of
affects in the compositional practice; the qualities and potencies of musical materials, understood as
sensitive affects; the strict connections and crystallizations between sensitive and problematic affects; the
virtuality of the affects and the percepts; certain relations between affect, cut and time.
Keywords: musical composition; affect; percept; sensation; crystal of time.
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roponho partirmos de uma definição do afeto como um acontecimento. Nesse sentido, o afeto é
incorporal, ele acontece nos corpos, afetando-os. Somos afetados por ventos, temperaturas, luzes,
sons, cheiros, sabores, mas também ideias, valores, contextos sociais, políticos, econômicos,
religiosos, linguísticos, libidinosos. Os corpos se afetam a si mesmos e uns com relação aos outros, num
movimento contínuo de variações. Corpos materiais, físico-químicos, biológicos, mas também sons,
ideias, coletividades3, que se individuam e se diferenciam por suas singulares diferenças de potencial
(energético e ideal) em constante interação, conexão, ressonância, conflito, aproximação e repulsão, num
campo de forças complexo e variável. Nessa concepção, o que caracteriza um corpo não é somente um
plano material extensivo, mas também sua capacidade de afetar e ser afetado4. Os corpos se afetam e são
Sobre tal concepção de corpo, ver DELEUZE, 2002[1981a]: “Um corpo pode ser não importa o quê, pode ser um animal,
pode ser um corpo sonoro, pode ser uma alma ou uma ideia, pode ser um corpus lingüístico, pode ser um corpo social, uma
coletividade” (tal citação, em fato, se utiliza de tradução inédita de Luiz. B. L. Orlandi)
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Deleuze e Guattari (1997[1980]: 47) apresentam a seguinte definição de corpo: “um corpo se define somente por uma longitude
e uma latitude: isto é, pelo conjunto de elementos materiais que lhe pertencem sob tais relações de movimento e de repouso, de
velocidade e de lentidão (longitude); pelo conjunto de afectos intensivos de que ele é capaz sob tal poder ou grau de potência
(latitude).”
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afetados; e os afetos são os modos, ou os acontecimentos, pelos quais se produzem as variações afetivas nos
corpos. Assim, enquanto acontecimento5, o afeto não se reduz à sua efetivação em um estado de coisas
espaço-temporalmente determinado, mas possui uma existência incorporal, ideal, virtual; é da ordem da
hecceidade6.
Os afetos acontecem nos encontros entre corpos, são os modos pelos quais os corpos são afetados
uns pelos outros. Numa de suas concepções mais comuns, o afeto é tido como a reação emotiva que
acontece num corpo em decorrência de um encontro. Em música, seria como os sentimentos despertados
pela escuta de uma peça, de uma passagem ou de um material musical. Um acorde, uma orquestração, um
trecho, uma textura, um motivo, provocam alegria, euforia, bravura, melancolia, saudade. São afetossentimentos, que em música parecem produzir algo como uma atmosfera, um clima, em que o ouvinte
imerge e é mais ou menos induzido a tal ou qual afecção. A coragem e a bravura nas quartas justas dos
trompetes, ou em seus ritmos pontuados, acompanhados de tambores e caixas; a força, robustez e
soberania em homofonias ou uníssonos grandiosos; a saudade num canto de amor ou à terra; a ternura
num calmo dedilhar de alaúde ou harpa. Trata-se, portanto, de reações emotivas e sentimentais que
decorrem da escuta de um material musical.
O filósofo holandês Baruch Espinosa (1632-1677) define as paixões primárias, ou os afetos de
alegria e tristeza, enquanto dois vetores a partir todos os demais afetos, sempre atravessados por um fluxo
de desejo, se estabelecem e com relação aos quais variam7. A alegria corresponde a um aumento da
capacidade de agir, a uma variação intensiva positiva, que favorece a (...truncated)