Narrativas da dor: o Facebook como espaço de discussão de saúde e doença
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Rizoma
e-ISSN 2318-406X
DOI: 10.17058/RZM.V6I1.11385
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Narrativas da dor:
o Facebook como espaço de discussão de saúde e doença
Resumo: O trabalho busca apresentar as interações realizadas entre membros
do grupo do Facebook denominado “Eu tenho Síndrome da Cauda Equina”
por meio do registro de narrativas da dor e busca por melhoria de qualidade
de vida através de troca de informações sobre a doença. Trata-se de um
estudo baseado na metodologia de netnografia que analisa as narrativas dos
membros e identifica a forma como a memória das dores física e psicológica
são compartilhadas entre si.
Palavras-chave: Comunicação e Saúde. Narrativas. Facebook. Síndrome da
Cauda Equina.
Relatos de dolor: Facebook como espacio de salud
para la discusión y la enfermedad
Resumen: El estudio tiene como objetivo presentar las interacciones realizadas
entre los miembros del grupo de Facebook llamado “ Eu tenho Síndrome da
Cauda Equina” mediante el registro de las narrativas de dolor y la búsqueda
de una mejor calidad de vida a través del intercambio de información sobre la
enfermedad. Se trata de un estudio basado en la metodología netnografía que
analiza las narrativas de los miembros e identifica cómo la memoria del dolor
físico y psicológico se comparten entre sí.
Palabras clave: Comunicación y Salud. Narrativas. Facebook. Síndrome de
cauda equina.
Arquimedes Pessoni1
Pós-doutor em Medicina na Faculdade de Medicina do ABC (linha de
pesquisa em educação na saúde/Saúde Coletiva-2014). Possui graduação
em Jornalismo pela Universidade
Metodista de São Paulo (1984), mestrado em Comunicação Social pela
Universidade Metodista de São Paulo
(2002) e doutorado em Comunicação
Social pela Universidade Metodista
de São Paulo (2005). Professor do
corpo permanente dos Programas de
Mestrado Profissionais em Inovação
na Comunicação de Interesse Público
e Inovação no Ensino Superior em
Saúde da Universidade Municipal de
São Caetano do Sul (USCS), onde
também leciona dos cursos da Escola
de Comunicação.
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Narratives of pain: Facebook as a space for
discussion of health and illness
Abstract: The work seeks to present the interactions carried out among
members of the Facebook group called “I have Cauda Equina Syndrome”
through the recording of pain narratives and search for improvement in
quality of life through the exchange of information about the disease. It is a
study based on the methodology of netnography that analyzes the narratives
of the members and identifies how the memory of physical and psychological
pain are shared among themselves.
Key words: Health Communication. Narratives. Facebook. Cauda Equina
Syndrome.
Rizoma, Santa Cruz do Sul, v. 6, n. 1, p. 181, agosto, 2018
Rizoma
Introdução
O espaço de troca de informações criado com o advento da internet
cresceu em importância nos últimos tempos. Embora o percentual da
população conectada - conforme dados de 2015 da Secretaria de Comunicação
Federal - ainda represente pouco mais de 50% dos brasileiros, trata-se de
número grande e com viés de alta, uma vez que a cada dia os equipamentos
eletrônicos têm seu preço diminuído e a população mais conectada.
Apesar da sua crescente importância, é alto o percentual de entrevistados
que ainda não utilizam a internet (51%). Contudo, entre os usuários,
a exposição é intensa e com um padrão semelhante: 76% das pessoas
acessam a internet todos os dias, com uma exposição diária de 4h59
de 2a a 6a-feira e de 4h24 nos finais de semana. Eles estão em busca,
principalmente, de informações (67%) - sejam elas notícias sobre temas
diversos ou informações de um modo geral -, de diversão e entretenimento
(67%), de uma forma de passar o tempo livre (38%) e de estudo e
aprendizagem (24%). (BRASIL, 2015, p. 49).
Castells (2003) já lembrava que a internet vinha se tornando um meio
essencial de comunicação e organização em todas as esferas de atividade.
Segundo o autor, trata-se de um instrumento privilegiado para atuar, informar,
recrutar, organizar, dominar e contradominar. Reforçando esta tese, Queiroz
(2016) salienta a importância da rede para reunir pessoas de lugares distantes
e ressignificar seu local de pertença. Para o autor:
(...) a Internet desterritorializa os indivíduos, libertando-os das condições
geográficas, o que lhes concede amplitude para novos relacionamentos,
novas aprendizagens e novos embates. O internauta não está limitado por
topografias e assim pode acessar diversos outros grupos, se inteirar de novos
contextos, novas referências que lhe vão complementar na ressignificação
de seu próprio mundo, de seu local de pertença. Há ainda a liberação
da fala para aqueles que não conseguem se manifestar publicamente nas
relações face-a-face, os tímidos, ou aqueles que se encontram oprimidos
em por grupos e/ou sistemas de pressão. (QUEIROZ, 2016, p. 16).
Sobre esse novo “não-lugar” de manifestação e enterrelações, Fontes
(2014) aponta que a base territorial inexistente é substituída pelo virtual
settlement, o ciberlugar, espaço virtual onde as sociabilidades se desenrolam.
Para o autor,
[...] temos ambientes em que se desenvolvem possibilidades de
comunicação, sejam elas ancoradas em sociabilidades primárias (troca-se
e-mails entre amigos, parentes e amantes), sejam aquelas outras onde se
reúnem pessoas que têm interesses (profissionais, econômicos, sexuais...)
em comum. (FONTES, 2014, p. 120).
É justamente nesta segunda possibilidade apontada por Fontes (2014)
que Araújo et al (2012) acreditam que buscar informações sobre saúde na
internet está se tornando comum. Para os autores, pacientes e familiares usam
Rizoma, Santa Cruz do Sul, v. 6, n. 1, p. 182, agosto, 2018
Rizoma
a rede para compreender o processo saúde-doença, conhecer abordagens
terapêuticas, sanar dúvidas sobre o uso de medicamentos e discutir os
sintomas e as preocupações com outros pacientes em fóruns e redes sociais.
Santos el al. (2015) também concordam que, com a internet e as mídias,
inúmeras redes virtuais têm se tornado ferramentas de grande utilidade
tanto para os profissionais de saúde quanto para as pessoas envolvidas no
processo saúde e doença, o que, segundo os autores, contribui de forma
positiva para o entendimento da doença crônica, seja por meio dos conteúdos
disponibilizados relacionados à saúde ou de bate-papo. Fontes (2014, p. 114)
reforça essa ideia:
De forma semelhante ao que acontece com outras esferas de sociabilidade,
questões sobre saúde encontram na Internet um lugar bastante
privilegiado. Há um número bastante diverso de formas comunicativas
sobre o assunto: blogs e grupos de discussão, sites de empresas (hospitais
e clínicas, empresas farmacêuticas, laboratórios) e de governo (agências
estatais de saúde, serviços especializados), entre outros. Neste imenso
campo, que denomino círculo virtual, en (...truncated)