Como as cidades podem favorecer ou dificultar a promoção da saúde de seus moradores?
DOI: 10.1590/S0103-40142016.00100002
Como as cidades podem
favorecer ou dificultar
a promoção da saúde
de seus moradores?
LAÍS FAJERSZTAJN I, MARIANA VERAS II
e PAULO HILÁRIO NASCIMENTO SALDIVA III
M
Introdução
ais da metade da população mundial vive em cidades. Na América
Latina – o continente mais urbanizado do mundo –, a população urbana chega a 82%; no Brasil, a 84%. Com tantas pessoas morando em
cidades, entender a influência do ambiente construído na saúde das pessoas torna-se assunto prioritário.
Por muitos séculos, o estilo de vida das cidades causou piores condições de
saúde, como maior risco para cólera, diarreia, tuberculose e outras doenças infecciosas. A densidade populacional favorecia a emergência de epidemias, e viver
em cidades representava uma desvantagem para a saúde em comparação à vida
no campo. Com o desenvolvimento científico sobre as formas de transmissão de
doenças, iniciado no século XIX, as cidades começaram a se estruturar visando
à promoção da saúde pública, principalmente a partir da adoção de medidas
sanitárias. Os serviços de assistência à saúde acompanharam o desenvolvimento
científico-tecnológico de forma muito mais eficiente nos centros urbanos e o
viver nas cidades passou a ser uma vantagem para a saúde, quando comparado
com a vida rural.
Hoje doenças diretamente relacionadas à forma como a sociedade está organizada e ao estilo de vida urbano, como hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e
obesidade, predominam nas cidades. Conhecidas como Doenças e Agravos Não
Transmissíveis (Dant), essas doenças foram responsáveis por 76% da mortalidade
geral, 63% das internações pagas e 73% dos gastos do Sistema Único de Saúde
(SUS) com internações no município de São Paulo, segundo dados do site oficial da prefeitura. A estratégia de enfrentamento tem se baseado principalmente
na modificação de fatores de risco individuais, com resultados positivos, porém
limitados, visto que o ambiente urbano pode facilitar ou dificultar hábitos individuais saudáveis, como a prática de atividade física ou a ingestão de frutas e
vegetais. Sendo assim, a integração de políticas de promoção da saúde coletiva
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e de urbanismo resultaria em ganhos de saúde significativos para os moradores
de cidades.
Alguns exemplos bem-sucedidos de controle e prevenção de doenças a
partir da modificação de fatores de risco individuais incluem o controle medicamentoso da pressão arterial e colesterol, parar de fumar, alimentar-se de forma
mais saudável e praticar atividade física. A lei antifumo, que proibiu fumar em
ambientes fechados de uso coletivo no estado de São Paulo em 2009, diminuiu
a exposição dos não fumantes à fumaça do tabaco. Tal lei ainda resultou na diminuição da quantidade de cigarros/dia entre os fumantes, sendo um exemplo
concreto de como o funcionamento de uma cidade pode melhorar a saúde de
sua população. Com custo anual estimado em mais de R$ 40 bilhões, valor equivalente a 1% do PIB brasileiro (Cintra, 2014), a imobilidade no município de
São Paulo é um exemplo oposto. A crise de mobilidade afeta a saúde não só por
conta do tempo perdido no congestionamento e impactos nocivos da exposição
à poluição do ar à saúde, em certa medida estimados no cálculo, mas também
pela sua contribuição para a obesidade, estresse emocional, entre outros. Numa
cidade congestionada, crianças não brincam na rua e adultos não retornam para
almoçar em casa, costume prevalente em São Paulo quando a obesidade ainda
não era uma epidemia.
Ademais, o progresso que resultou na vantagem para a saúde de viver nas
cidades não atingiu todos os moradores de países em desenvolvimento. Ainda
hoje, populações urbanas de baixa renda, particularmente residentes de favelas,
ainda convivem com a falta de saneamento básico e condições seguras de moradia. Frequentemente essas populações sofrem com enchentes, falta de água,
surtos de doenças infecciosas, entre outros riscos para a saúde, cujas formas
preventivas são amplamente evitáveis e conhecidas. Além disso, determinantes
sociais como escolaridade, moradia, alimentação e renda exercem influência
negativa em moradores de favela, prejudicando ainda mais o desempenho em
saúde dessa parcela da população. Por fim, a violência urbana diminui o desempenho da saúde de toda a população, seja causando mortes e incapacidades
diretamente, seja prejudicando a saúde mental, ou ainda, restringindo a mobilidade e lazer dentro das cidades. A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP)
lidera a prevalência de desordens mentais no mundo, quase 30% da população
apresentam algum distúrbio como ansiedade e abuso de substâncias, segundo
estudo realizado por Andrade et al. (2012). Os pesquisadores mostraram que
a exposição à violência (como ter presenciado um assassinato ou ter sido roubado) estava significativamente associada com as desordens mentais e, quanto
maior a exposição à violência, a gravidade da doença também tendia a ser maior
(Andrade et al., 2012).
Durante as últimas décadas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem
tentado fortalecer as relações entre saúde e planejamento urbano por meio de
dois movimentos: Saúde em todas as políticas (Health in all polices) (Ollila,
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2011) e Movimento das cidades saudáveis (Healthy cities movement) (Rydin
et al., 2012); no entanto, esses movimentos ainda não são fortes nas cidades
latino-americanas.
Recentemente, a preocupação da comunidade de saúde com os impactos
das mudanças climáticas tem crescido, sendo outra abordagem possível para
fortalecer a comunicação entre ambiente construído e melhor desempenho de
indicadores de saúde. Em 2009, uma série de artigos publicados no The Lancet
indicou que algumas ações que reduzem as emissões de gases de efeito estufa
trazem também benefícios para a saúde da população onde as medidas foram
adotadas (Haines et al., 2009). Em 2015, a mesma revista alertou para o fato de
que combater as mudanças climáticas pode ser a melhor oportunidade de saúde
do século XXI (Dora et al., 2015; Watts et al., 2015). Como as populações de
baixa renda são mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas em todas
as escalas (entre nações e entre cidades), combater as mudanças climáticas pode
ser uma oportunidade para reduzir as desigualdades de saúde.
O desafio de moldar cidades que promovam a saúde de seus moradores é
complexo e requer esforço multidisciplinar para muito além das competências
atuais atribuídas ao setor de saúde no Brasil. O experimento “Moving to Oportunity” conduzido pela universidade de Harvard com 4.600 famílias mostrou
que prover assistência para que famílias de baixa renda se mudem para bairros
mais saudáveis melhorou significativamente a saúde física e mental de crianças e
adultos (Chetty et al., 2015).
Neste artigo propomos uma discussão das relações entre o ambiente construído e a saúde coletiva a partir dos cinco tópicos propostos por Rydin et
al. (2012): a) transporte, mobilidade e atividade física; b) (...truncated)