Afghanistan - from the solidification of the Taliban regime to the possibilities of reconciliation: testimonies from the diaspora
A ORDEM MUNDIAL EM DESORDEM: O REGRESSO GLOBAL DA GUERRA E O FIM DA PAZ
Afeganistão:
da solidificação
do regime talibã
às possibilidades
de reconciliação
Testemunhos
da diáspora
Ricardo Alexandre
INTRODUÇÃO
O Governo dos Estados Unidos da América (eua) gastou
2,3 triliões de dólares (milhões de milhões), durante os
vinte e um anos de invasão e ocupação do Afeganistão.
Quando em 2021 aconteceu a retirada – que começou a ser
pensada durante o segundo mandato de Barack Obama,
foi delineada durante a Administração Trump e levada a
cabo por Joe Biden – a guerra já tinha provocado a morte
de 2324 militares dos eua, 3917 contratados dos eua e
1144 soldados de países aliados. Muitos afegãos perderam
a vida: 70 mil militares e polícias afegãos, 46 319 civis
(dados, provavelmente, subestimando a realidade) e cerca
de 53 mil combatentes islamitas, os chamados insurgentes.
Quase 67 mil outras pessoas foram mortas no Paquistão
na relação com a Guerra do Afeganistão.
O mundo tem receado que, isolados internacionalmente,
com a economia sufocada e imensas restrições no acesso
ao sistema bancário internacional, os talibãs voltem a
investir no cultivo da papoila de ópio. De facto, no início
de 2024, uma recuperação da produção seguiu-se a uma
redução maciça de 95% em 2023, quando a proibição
RESUMO
Q
ue Afeganistão temos hoje, mais
de três anos após o regresso dos
talibãs ao poder? De que forma se
materializa o que aparenta ser uma
solidificação do regime? Qual o papel
e impacto das sanções internacionais
sobre as autoridades locais ilegítimas
e sobre a população? Este artigo procura dar um conjunto de respostas
possíveis a estas questões, considerando
a realidade política e socioeconómica
afegã, com base nos instrumentos
documentais disponíveis e centrando
o texto em testemunhos em primeira
mão, a partir de entrevistas com afegãos na diáspora. Procura-se igualmente problematizar a viabilidade de
um diálogo intra-afegão, como possibilidade de abertura de um processo
de reconciliação nacional, que liberte
o Afeganistão das amarras do parcial
isolamento internacional e da crise
humanitária profunda em que se
encontra.
Palavras-chave: Afeganistão, talibãs,
diáspora, reconciliação.
>
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DEZEMBRO : 2024 84 [ pp. 131-149 ]
https://doi.org/10.23906/ri2024.84a09
«quase eliminou a produção de papoila em todo o país,
ABSTRACT
levando a um declínio severo na produção de ópio no
Afeganistão»1. No entanto, como sustenta Mishra, «ainda
Afghanistan – from the
solidification of the
que o cultivo tenha aumentado, os níveis actuais permaTaliban regime
necem substancialmente inferiores aos de 2022, que registo the possibilities
tou 232 000 hectares de cultivo de papoila»2. A diretora
of reconciliation:
testimonies from the
executiva do Gabinete das Nações Unidas contra a Droga
diaspora
e o Crime (undoc, na sigla inlesa ), Ghada Waly, exhat is Afghanistan like today,
-ministra da Solidariedade Social no Egito, afirma que «as
more than three years after the
mulheres e os homens do Afeganistão continuam a
Taliban’s return to power? How does
the regime seem to be consolidating?
enfrentar terríveis desafios financeiros e humanitários,
What is the role and impact of intere são urgentemente necessários meios de subsistência
national sanctions on illegitimate
local authorities and the population?
alternativos»3.
This article seeks to provide a set of
São muitos e diversos os problemas que o país hoje
possible answers to these questions,
considering Afghanistan’s political
enfrenta. Da violência contra civis às questões de saúde,
and socio-economic reality, based on
da fuga de cérebros ao impacto das alterações climáticas.
available documentary instruments
and focusing the text on first-hand
E, por exemplo, o caso da educação. O Afeganistão é
testimonies based on interviews with
atualmente o único país do mundo onde o ensino secundário
Afghans in the diaspora. It also seeks
to problematize the viability of an
e superior é estritamente proibido a mulheres e raparigas
intra-Afghan dialogue as a possibility
com mais de 12 anos. Três anos depois da queda de Cabul,
for opening a process of national
reconciliation that would free Afghaa capital do país, pelo menos 1,4 milhões de raparigas
nistan from the constraints of partial
tiveram deliberadamente negado o acesso ao ensino
international isolation and the deep
humanitarian crisis that the country
secundário devido às proibições. Se na contabilidade forem
faces.
incluídas as raparigas que já estavam fora da escola antes
de os códigos legais religiosos rigorosos pelos talibãs terem
Keywords: Afghanistan, Taliban, diaspora, reconciliation.
voltado a ser impostos, «há agora quase 2,5 milhões de
raparigas no país privadas do seu direito à educação, o que
representa 80 por cento das raparigas afegãs em idade escolar»4.
Também houve uma diminuição de mais da metade no número de estudantes matriculados em universidades desde 2021, de acordo com a Organização das Nações Unidas
para a Educação, a Ciência e a Cultura (unesco, na sigla inglesa). O país enfrentará
uma escassez de licenciados formados para empregos altamente qualificados, o que
agravará os problemas de desenvolvimento. Novos dados da unesco mostram que o
Afeganistão tinha apenas 5,7 milhões de raparigas e rapazes na escola primária em
2022, em comparação com 6,8 milhões em 2019. Esta queda nas matrículas no ensino
primário é o resultado da decisão dos talibãs de proibir as professoras de ensinar
rapazes, agravando a escassez de professores, bem como pela falta de incentivo dos
pais para enviarem os seus filhos à escola num ambiente socioeconómico cada vez mais
difícil. Teme-se que o aumento da taxa de abandono escolar possa levar a um aumento
do trabalho infantil e do casamento precoce.
W
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DEZEMBRO : 2024 84
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De acordo com a agência ONU Mulheres (da Organização das Nações Unidas – onu),
no seu último relatório, o «apagamento político» de uma parte substancial da população, também se reflete a nível social, uma vez que «98% das mulheres inquiridas sentiram que tinham influência limitada ou nula sobre as decisões tomadas nas suas
comunidades». Alison Davidian, representante da ONU Mulheres no Afeganistão, afirma:
«há três anos uma mulher afegã poderia tecnicamente decidir concorrer à presidência.
Agora, ela pode nem conseguir decidir quando ir comprar mantimentos. Penso que
quando se retira o direito das mulheres à educação e se restringe os seus direitos ao
trabalho e à vida pública, isso afecta todos os direitos e afecta a agência das mulheres
de forma mais geral»5.
Apesar dos desafios e reveses no Afeganistão, é importante reconhecer os progressos
significativos alcançados durante as duas últimas décadas. A expansão da educação
para as raparigas e as oportunidades de emprego para as mulheres foram transformadoras. Mas a 15 de agosto de 2021 tudo mudou. Urge, portanto, conhecer melhor o
que veio a seguir.
A SOLIDIFICAÇÃO DO REGIME E OS DIREITOS DAS (...truncated)