Stalemates and ambiguities in Taiwan: the Republic of China (Taiwan), the People’s Republic of China, and the United States of America
A ORDEM MUNDIAL EM DESORDEM: O REGRESSO GLOBAL DA GUERRA E O FIM DA PAZ
Impasses e ambiguidades
em Taiwan
A República da China (Taiwan),
a República Popular da China
e os Estados Unidos da América
Vasco Rato
INTRODUÇÃO
O surgimento da República Popular da China (rpc) como
grande potência mundial transformou a carta geopolítica
do Indo-Pacífico desenhada pelos Estados Unidos da América (eua) nos anos que se seguiram à Segunda Guerra
Mundial. A emergência de uma nova arquitetura de segurança regional significa que, hoje, a «questão taiwanesa»
se tornou ainda mais decisiva, pois, no limite, poderá
despoletar um catastrófico confronto militar. Dir-se-á,
portanto, que o destino de Taiwan depende das escolhas
feitas em Washington, Pequim e Taipei, mas, também,
das complexas dinâmicas geradas pelos relacionamentos
bilaterais entre as três capitais.
Nos tempos mais recentes, em resultado dos sucessos
eleitorais do Partido Democrático Progressista (pdp),
a «reunificação pacífica» almejada pelo Partido Comunista
da China (pcc) cada vez mais se afigura como uma miragem distante. Por essa razão, o endurecimento da postura
de Pequim não deve ser visto como um mero artifício
retórico, mas como uma resposta às vitórias de Tsai Ing-wen e de Lai Ching-te nas eleições presidenciais taiwanesas. Com efeito, temendo o independentismo – e a
concomitante erosão do Consenso de 1992 e do princípio
de «uma China única» –, a cúpula comunista deixou de
vislumbrar um rumo claro para consumar a «reunificação»
RESUMO
E
ste artigo analisa as principais
questões levantadas pela problemática em torno da unificação de Taiwan com a República Popular da
China. Partindo de uma descrição do
endurecimento da posição de Pequim
relativamente ao independentismo na
ilha, considera, depois, a deterioração
das relações entre as autoridades
comunistas e taiwanesas no seguimento da vitória eleitoral, em 2016, de
Tsai Ing-wen. Neste quadro de crescente confronto, avalia-se, por último,
a política chinesa da Administração
Biden e o seu impacto na estabilidade
regional.
Palavras-chave: política externa, reunificação, República Popular da China,
Taiwan.
ABSTRACT
Stalemates and
ambiguities in Taiwan:
the Republic of China
(Taiwan), the People’s
Republic of China, and
the United States of
America
>
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DEZEMBRO : 2024 84 [ pp. 055-069 ]
https://doi.org/10.23906/ri2024.84a05
T
das duas Chinas. A força política do independentismo
tem vindo a aumentar desde que Donald Trump, pouco
depois de vencer as eleições de novembro de 2016, robusteceu o relacionamento com Taiwan, contribuindo, assim,
para convencer Pequim de que Washington procura fazer
descarrilar o processo de unificação.
Este artigo analisa as principais questões levantadas pela
problemática da unificação – ou, na perspetiva de Pequim,
da «reunificação» – da República da China (Taiwan) e da
rpc. Partindo de uma descrição do endurecimento da
posição de Pequim relativamente ao independentismo,
Keywords: foreign policy, reunification,
People’s Republic of China, Taiwan.
considera, depois, a deterioração das relações entre as
autoridades comunistas e taiwanesas no seguimento da
vitória eleitoral, em 2016, de Tsai Ing-wen, candidata presidencial do pdp. Neste quadro de crescente confronto, avalia-se, por último, a política
chinesa da Administração Biden e o seu impacto na estabilidade regional.
he article sketches the main questions relative to Taiwan’s ‘reunification’ with the People’s Republic of
China. Beginning with a description
of Beijing’s increasingly assertive
stance regarding the island’s independence, it then traces the deterioration
of relations between Taiwanese and
mainland authorities in the aftermath
of Tsai Ing-wen’s 2016 electoral victory. Finally, in this context of growing
confrontation, the article considers the
Biden administration’s China policy
and its impact on regional stability.
AS LINHAS VERMELHAS DO «SONHO CHINÊS»
Menos de um século depois de marinheiros portugueses terem avistado a Formosa,
o general Zheng Chenggong (Koxinga), expulsou, em 1662, os holandeses da ilha,
que, em 1885, se torna na vigésima província chinesa 1. Conquistado pelo Japão
em 1895, o arquipélago, por decisão das três potências vencedoras da Segunda
Guerra Mundial, é entregue à República da China – liderada pelo Guomindang
( kmt ) de Chiang Kai-shek – quando as hostilidades cessam 2. Terminada a guerra
civil entre nacionalistas e comunistas e proclamada a rpc , em outubro de 1949,
o kmt retira-se para Taiwan, onde, ao longo da Guerra Fria, continuará a defender a existência de «uma China única» territorialmente indivisível. Finalmente,
em 1991, Taipei renuncia à «soberania» sobre a China continental, passando a
reivindicar apenas a Formosa e as pequenas ilhas circundantes de Penghu, Kinmen
e Matsu.
Instalado no poder em Pequim desde 1949, o pcc procurou, até 1979, «libertar» a
ilha e unificar o país, recorrendo, caso fosse necessário, à força das armas, orientação modificada por Deng Xiaoping, quando, durante o 5.º Congresso Nacional
do Povo, publica a «Mensagem aos Compatriotas em Taiwan» preconizando a reunificação pacífica3. Na sequência da 3.ª Sessão Plenária do 11.º Comité Central do
PCC de 1978, Deng aclara o conceito de «um país, dois sistemas» a ser aplicado em
Hong Kong e Macau e, depois, na Formosa, quando a ilha «regressar ao abraço da
pátria»4. Posteriormente, em dezembro de 1982, o 5.º Congresso Nacional do Povo
promulga a revisão da Constituição, que, no seu Preâmbulo, descreve Taiwan como
«parte do território sagrado da República Popular da China», acrescentando que
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DEZEMBRO : 2024 84
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era o «dever inviolável de todos os chineses, incluindo os nossos compatriotas de
Taiwan», de contribuir para «a grande tarefa de reunificar a pátria» 5.
As linhas mestras da política traçada por Deng Xiaoping foram confirmadas por Jiang
Zemin e, depois, por Hu Jintao6. Foram, também, clarificadas pela Lei Antissecessão,
de março de 2005, cujo artigo 2 explicita que «a salvaguarda da soberania e da integridade territorial da China é uma obrigação comum de todo o povo chinês, incluindo
os compatriotas de Taiwan», e, por isso, o pcc «jamais permitirá que as forças secessionistas que preconizam a “independência” façam com que Taiwan se separe da
China sob qualquer nome ou por qualquer meio»7. O mesmíssimo espírito transparece
na Lei de Segurança Nacional, de julho de 2015, que, em termos inequívocos, reitera
a «obrigação» de os «compatriotas de Hong Kong, Macau e Taiwan» zelarem pela
unidade do país8.
No seguimento da política de «reforma e abertura» levada a cabo por Deng Xiaoping,
o kmt optou por estreitar as suas relações com a rpc, processo que culmina com o
encontro de novembro de 2015 entre Xi Jinping e Ma Ying-jeou, o então Presidente da
Formosa9. Com efeito, entre 1978 e 2021, o valor do comércio bilateral passou de uns
meros 46 milhões de dólares para 328,34 bilhões de dólares, fazendo da rpc o prim (...truncated)