Palinomorfos do perfil sedimentar de uma turfeira em São Francisco de Paula, Planalto Leste do Rio Grande do Sul, Sul do Brasil
Revista Brasil. Bot., V.30, n.1, p.47-59, jan.-mar. 2007
Palinomorfos do perfil sedimentar de uma turfeira em São Francisco de
Paula, Planalto Leste do Rio Grande do Sul, Sul do Brasil1
ADRIANA LEONHARDT2,3 e MARIA LUISA LORSCHEITTER2
(recebido: 2 de fevereiro de 2006; aceito: 30 de setembro de 2006)
ABSTRACT – (Palynomorphs of the sedimentary profile of a bog, São Francisco de Paula, Eastern Plateau of Rio Grande do
Sul, southern Brazil). This paper aims at giving basic reference material to the study of plant succession in the Quaternary
Brazilian southern plateau. Therefore, it presents the palynological analysis of 22 samples, taken along one sedimentary profile
of 286 cm, in a bog of Rio Grande do Sul Eastern Plateau, corresponding approximately to the last 25000 years. The chemical
processing of the samples followed the conventional method and the analysis was made by light microscopy. Palynomorphs
corresponding to 10 fungi, 6 algae, 3 bryophytes and 16 pteridophytes were examined. The material, especially spores, is
described and illustrated. The descriptions are accompanied, whenever possible, by ecological data of the original organism.
Key words - cryptogams, palynology, Quaternary, southern Brazil, taxonomy
RESUMO – (Palinomorfos do perfil sedimentar de uma turfeira em São Francisco de Paula, Planalto Leste do Rio Grande do Sul, Sul
do Brasil). O trabalho tem como objetivo fornecer material de referência básico para o estudo de sucessão vegetal no Quaternário
do Planalto Sul-brasileiro. Para tanto, apresenta a palinologia de 22 amostras, retiradas ao longo de um perfil sedimentar de 286 cm,
em uma turfeira do Planalto Leste do Rio Grande do Sul, correspondendo aproximadamente aos últimos 25.000 anos. O processamento
químico das amostras seguiu o método convencional e a análise foi feita em microscopia fotônica. Foram examinados palinomorfos
correspondentes a 10 fungos, 6 algas, 3 briófitos e 16 pteridófitos. O material, especialmente esporos, é descrito e ilustrado. As
descrições são acompanhadas, sempre que possível, de dados ecológicos do organismo de origem.
Palavras-chave - criptógamos, palinologia, Quaternário, Sul do Brasil, taxonomia
Introdução
O estudo de sucessão vegetal permite o
conhecimento dos processos envolvidos na gênese das
formações vegetais e, assim, a melhor compreensão da
dinâmica e das tendências naturais da vegetação e clima,
importantes em monitoramento ambiental. Como pólen,
esporos e outros palinomorfos refletem na morfologia a
espécie de origem, a palinologia de perfis sedimentares,
aliada a datações radiométricas, fornece uma das
principais ferramentas a este estudo. Para tanto, a
prévia identificação dos palinomorfos contidos nos
sedimentos é necessária, o que torna de grande valia os
catálogos palinológicos de referência, tanto da flora atual
quanto do material sedimentar.
A dinâmica da mata com Araucária no Holoceno e
a gênese das turfeiras do Planalto do Rio Grande do Sul
tem despertado a atenção de muitos pesquisadores,
1.
2.
3.
Parte da dissertação de mestrado da primeira autora, Programa
de Pós-graduação em Botânica, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de
Biociências, Departamento de Botânica. Av. Bento Gonçalves
9500, 91540-000 Porto Alegre, RS, Brasil.
Autor para correspondência:
preocupados com a preservação desses ecossistemas,
mas ainda são escassos os trabalhos sobre palinologia
de sedimentos da região, envolvendo sucessão vegetal
(Roth & Lorscheitter 1993, Behling et al. 2001, 2004).
Visando contribuir para o desenvolvimento dos
estudos de sucessão vegetal no Planalto Leste do Sul
do Brasil, é apresentada aqui a primeira parte da análise
palinológica qualitativa de um perfil sedimentar, em uma
turfeira atual do Município de São Francisco de Paula,
abrangendo palinologia de fungos, algas, briófitos e
pteridófitos como material de referência. O espectro
polínico corresponde ao encontrado num intervalo de
286 cm de comprimento, envolvendo 22 amostras,
distribuídas ao longo do perfil. A base da seqüência foi
datada em 24.930 ± 180 anos AP (Antes do Presente),
Beta 194784. O intervalo corresponde, portanto, ao final
do Pleistoceno e a todo o Holoceno. O trabalho
apresenta caracterizações sucintas de cada material,
com dados ecológicos do organismo de origem (sempre
que possível) e fotomicrografias ópticas.
Material e métodos
A turfeira estudada localiza-se em Alpes de São
Francisco (29º29’ S e 50º37’ W), Município de São Francisco
de Paula (figura 1). O perfil foi coletado aproximadamente no
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A. Leonhardt & M.L. Lorscheitter: Palinomorfos de sedimentos de uma turfeira, Planalto Leste do Sul do Brasil
fotomicrografias foi realizada em aumento de 1.000 x (filme
T-MAX 100).
Resultados e Discussão
Fungos
Filo Glomeromycota
Classe Glomeromycetes
Ordem Glomerales
Família Glomeraceae
Figura 1. Estado do Rio Grande do Sul e a turfeira estudada a
29º29’ S e 50º37’ W (y), Município de São Francisco de Paula,
Planalto Leste.
Figure 1. Rio Grande do Sul State and the studied bog at
29º29’ S and 50º37’ W (y), São Francisco de Paula Municipality,
eastern Plateau.
centro da turfeira, correspondendo à porção mais espessa
do pacote sedimentar. Para a coleta foi usado o Amostrador
de Hiller (Faegri & Iversen 1989), em 11 secções de 26 cm,
que foram posteriormente alinhadas, formando um perfil
sedimentar de 286 cm de comprimento. Ao longo desse perfil
foram retiradas 22 amostras em intervalos regulares, cada
uma contendo 8 cm3 de sedimento fresco. Da base do perfil
foi coletada uma amostra para datação por 14C, realizada no
laboratório Beta Analytic Inc., Miami, Flórida. O tratamento
químico das amostras para análise palinológica seguiu o
método padrão (Faegri & Iversen 1989), usando-se HCl, HF,
KOH e acetólise, com filtragem em malha de 250 µm. As lâminas
de microscopia foram montadas em gelatina-glicerinada e a
análise das mesmas foi realizada em fotomicroscópio óptico
Diaplan Leitz em aumento de 1.000 x. A palinoteca de plantas
atuais do Laboratório de Palinologia do Departamento de
Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi
usada como auxiliar na identificação do material. Procurou-se
sempre alcançar o nível hierárquico mais baixo possível. Nos
grupos taxonômicos onde a morfologia dos esporos é muito
semelhante dentro de um gênero ou família, optou-se por
usar a denominação “tipo” antes do nome, conforme o usual
em palinologia de sedimentos (Berglund 1986). Quando a
identificação não foi possível, o material recebeu uma
denominação apenas morfológica, dando possibilidade à
futura identificação.
As descrições dos palinomorfos foram feitas de modo
sucinto, apresentando as características básicas para a
identificação do material. As medidas foram realizadas em
ocular de fio móvel e convertidas para micrometros. Nas
medidas dos esporos de briófitos e pteridófitos foram usados
o eixo polar e o eixo equatorial. Sempre que possível foram
incluídos dado (...truncated)