Male body image: assessment tools
Psicologia: Teoria e Pesquisa
Jul-Set 2014, Vol. 30 n. 3, pp. 277-285
Imagem Corporal em Homens: Instrumentos Avaliativos
Pedro Henrique Berbert de Carvalho1
Maria Elisa Caputo Ferreira
Universidade Federal de Juiz de Fora
RESUMO - Este estudo teve como objetivo avaliar os instrumentos disponíveis para avaliação da imagem corporal de adultos
do sexo masculino, bem como verificar as qualidades psicométricas avaliadas no processo de criação/adaptação destes. Foi
realizada busca nas bases de dados: Scopus, Web of Science, BIREME, e Banco de Teses da CAPES; limitadas ao período de
2009 a 2013, por meio das palavras chave: body image, scales, questionnaires, validation e translations. Esta pesquisa constatou
um aumento do número de instrumentos disponíveis para a população brasileira, além de uma diversificação das populações
estudadas. Entretanto, ainda são poucos os instrumentos específicos para adultos do sexo masculino. Há necessidade de criação
e adaptação de novos instrumentos que contemplem a complexidade do construto da imagem corporal.
Palavras-chave: imagem corporal, escalas, questionários, homens, validade
Male Body Image: Assessment Tools
ABSTRACT - This study aimed to evaluate the available assessment tools of body image in adult males, and to verify the
psychometric properties obtained in the process of construction/adaptation of these instruments. Search restricted to the period
of 2009-2013 was conducted in the Scopus, Web of Science, BIREME databases and in the theses bank of CAPES, using
the keywords: body image, scales, questionnaires, validation and translations. This study found an increase in the number of
instruments available for the Brazilian population, as well as a diversification of the populations studied. However, there are
few specific instruments for adult males. It is necessary create and adapt new tools that address the complexity of the body
image construct.
Keywords: body image, scales, questionnaires, men, validity
O termo imagem corporal foi definido por Paul Schilder,
no início do século 19, como a figuração de nosso corpo
formada em nossa mente (Cash & Pruzinsky, 2002). Slade
(1994) a definiu como uma imagem que o indivíduo tem do
tamanho, da forma e do contorno de seu próprio corpo, bem
como dos sentimentos em relação a essas características e às
partes que o constituem. A primeira definição do construto
gerou durante anos confusões teóricas e metodológicas, no
entanto, a partir da definição de Slade (1994) percebe-se uma
confluência na conceituação do tema (Thompson, 2004).
Percebe-se que as definições atuais de imagem corporal
a caracterizam não só como uma construção cognitiva, mas
também um reflexo dos desejos, emoções e da interação
social (Cash & Smolak, 2011). Cash e Pruzinsky (2002)
sugerem a divisão da imagem corporal em duas dimensões:
perceptiva e atitudinal. A dimensão perceptiva procura avaliar
a acurácia no julgamento do tamanho e da forma corporal,
enquanto a atitudinal pode ser avaliada em seus três componentes: afetivo, cognitivo e comportamental.
Observa-se que o número de estudos relacionados com
o tema imagem corporal expandiu-se mundialmente em
diversas áreas do conhecimento, contendo estudos, sobretudo na área de Psicologia e Psiquiatria (Turtelli, Tavares, &
Duarte, 2002). Existem associações da imagem corporal com
distúrbios alimentares (Peat, Peyerl, & Muehlenkamp, 2008);
depressão e baixa autoestima (Olivardia, Pope, Borowiecki,
1
Endereço para correspondência: Faculdade de Educação Física e
Desportos, Universidade Federal de Juiz de Fora, Rua José Lourenço
Kelmer, s/n, São Pedro, Juiz de Fora, MG, Brasil, CEP: 36036-900,
E-mail:
& Cohane, 2004); uso de esteroides anabólicos (Kanayama, Barry, Hudson, & Pope, 2006); doenças degenerativas
(Huang et al., 2006); cirurgias plásticas (Bolton, Pruzinsky,
Cash, & Persing, 2003), entre outros fatores.
Entretanto, segundo McCabe e Ricciardelli (2004) e
Pickett, Lewis e Cash (2005), parte do crescimento do interesse pelo estudo da imagem corporal está atrelado à relação
existente entre os distúrbios alimentares, como anorexia e
bulimia nervosa, e a preocupação excessiva com o peso e a
forma corporal. Em parte, durante anos, essa preocupação
direcionou as pesquisas em imagem corporal para o público feminino, dado que, até poucos anos atrás, existia um
consenso de que o distúrbio de imagem corporal era um
fenômeno associado quase que exclusivamente a esse público
(McCreary, 2007).
Apesar desse contexto, nas últimas duas décadas, houve
um crescimento significativo no número de estudos sobre a
imagem corporal na população masculina (Hobza & Rochlen,
2009). Atualmente, é aceito o fato de que tanto os homens
como as mulheres estão insatisfeitos com seus corpos, e que a
insatisfação corporal masculina pode-se tornar problemática,
pois esses indivíduos, na atualidade, estão mais susceptíveis
aos distúrbios de imagem corporal (Frederick et al., 2007).
Existem diferenças quanto às preocupações com o peso e
as formas corporais nos dois sexos. De maneira geral, mulheres procuram atingir um modelo de corpo magro, adotando
comportamentos dirigidos para o emagrecimento – drive for
thinness –, enquanto homens procuram um corpo com maior
massa muscular, dirigindo sua atenção para a muscularidade
– drive for muscularity (McCreary & Sasse, 2000).
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PHB Carvalho & MEC Ferreira
Entretanto, drive for thinness e drive for muscularity não
são mutuamente excludentes, ou seja, tanto homens como
mulheres podem apresentar, concomitantemente, os dois
direcionamentos, com a ressalva de que homens, em geral,
irão apresentar maior atenção para o ganho de musculatura
corporal, enquanto as mulheres normalmente estão preocupadas em atingir um corpo magro (Kelley, Neufeld, &
Musher-Eizenman, 2010).
Com base na identificação dessas diferenças, Cafri e
Thompson (2004), em revisão sobre estudos de imagem
corporal em homens, apontam para o fato de que poucos
instrumentos avaliativos dos componentes da imagem
corporal dessa população valem-se das diferenças de sexo
na construção das escalas e dos questionários. Segundo os
autores, durante anos, a crença da não existência de distúrbios de imagem corporal em homens se deve ao fato de
que os estudos utilizaram, e ainda utilizam, instrumentos
com foco na satisfação com o peso e com a forma corporal
baseada na gordura (preocupação com a magreza). Dessa
maneira, fatalmente, os achados apontam para prevalência
de maior distúrbio de imagem corporal em mulheres (Cafri
& Thompson, 2004).
Recomendações atuais demonstram necessidade do uso
criterioso dos instrumentos avaliativos da imagem corporal,
em que a atenção deve ser dada à escolha de questionários
e escalas apropriadas para cada população (Gardner &
Brown, 2010; Thompson, 2004). Para os homens, Cafri e
Thompson (2004) sugerem: 1) Avaliação da preocupação e/
ou satisfação com a aparência muscular; 2) Identificação de
comportamentos associados com a preocupação com a aparência muscular (como prática exc (...truncated)