DIFERENCIATING REPRODUCTIONS FROM ORIGINAL PAINTINGS: AN INTERESTING CASE STUDY
http://dx.doi.org/10.5935/0100-4042.20160056
Quim. Nova, Vol. 39, No. 5, 542-547, 2016
Artigo
DIFERENCIANDO REPRODUÇÕES E PINTURAS VERDADEIRAS: UM INTERESSANTE ESTUDO DE CASO†
Dalva L. A. de Faria* e Thiago S. Puglieri
Instituto de Química, Universidade de São Paulo, CP 26077, 05513-970 São Paulo – SP, Brasil
Recebido em 05/09/2015; aceito em 26/01/2016; publicado na web em 12/04/2016
DIFERENCIATING REPRODUCTIONS FROM ORIGINAL PAINTINGS: AN INTERESTING CASE STUDY. A few years ago,
during a storage room clean out at the University of São Paulo (Biblioteca do Conjunto das Químicas), several items were discarded,
including apparently modern worthless large-scale reproductions of paintings by famous painters. A member of staff retrieved these
reproductions from the litter bin, one of which was carefully inspected and non-destructively analyzed by spectroscopic techniques
(Raman and XRF). The results showed that instead of being a modern reproduction of the gouache “Clinique de Sannois” (Maurice
Utrillo, 1923), it was hand-painted probably between the late 1940s and early 1950s using the Jacomet process. This technique was
developed by the French printer Daniel Jacomet in the 1920s, who made authorized reproductions of works of art by some of the
most celebrated painters of the time.
Keywords: Utrillo; pochoir; Jacomet; Raman; XRF; pigment.
INTRODUÇÃO
A tarefa de autenticação de obras de arte não é trivial e há já algum
tempo não pode prescindir de métodos instrumentais de análise. As
avaliações feitas usando apenas critérios estilísticos tem limitações
óbvias e talvez o caso mais emblemático seja o de Henricus van
Meegeren, que se especializou no estilo de Vermeer (1632 - 1675)
e produziu falsificações de obras do pintor, as quais eram posteriormente “autenticadas” por especialistas. As falsificações de van
Meegeren somente foram descobertas porque ele, além de confessar
o ato, também pintou um “legítimo Vermeer” na prisão, quando era
acusado de colaborar com nazistas na Segunda Guerra Mundial.1
Esse cenário ganha em complexidade com o papel reconhecidamente cada vez maior que obras de arte vem tendo na lavagem
de dinheiro2,3 e com o surgimento de uma indústria de produção de
cópias de obras clássicas por pintores anônimos, como é o caso de
Dafen, na China.4
A utilização de métodos físico-químicos de análise é indispensável na avaliação de bens culturais, por não serem objeto da subjetividade existente na apreciação de especialistas, por apresentarem resultados detalhados em termos de composição química, por permitirem
a compreensão dos processos responsáveis pela degradação desses
bens e por possibilitarem a definição de métodos preventivos, capazes
de minorar essa degradação. Essas características são ainda mais
evidentes e vantajosas quando é possível a utilização de ferramentas
analíticas não destrutivas no estudo desses bens culturais, como é o
caso da espectroscopia Raman e da espectroscopia de fluorescência
de raios X (XRF). Essas duas técnicas foram empregadas, neste
trabalho, na investigação de uma pintura que foi possível analisar
devido a uma circunstância inusitada.
A necessidade por espaço na Biblioteca do Conjunto das
Químicas (USP), em 2007, fez com que alguns objetos que já haviam
sido destinados ao descarte fossem removidos da sala que ocupavam
e levados à lixeira. Dentre esses itens estavam o que se acreditava
serem 15 reproduções modernas de pinturas de artistas famosos, sem
qualquer valor comercial. Apesar de empoeiradas e desgastadas pelo
tempo, essas peças atraíram a atenção de um funcionário que passava
*e-mail:
†
Este texto é dedicado à memória do Prof. Dr. Jaim Lichtig
pelo local no momento do descarte, o qual as recolheu para si tocado
pela beleza das cenas representadas.5
Um desses itens foi analisado no Laboratório de Espectroscopia
Molecular do IQUSP e os resultados estão reportados neste artigo.
Trata-se da representação de uma cena urbana do início do século XX,
feita sobre cartão e medindo 36 x 27 cm (Figura 1), que apresenta
assinatura (Maurice, Utrillo, V) e data (1923), possuindo um passé-par-tout de papel colado a ela, que se encontra em estado precário
de conservação, com ruptura em diversos locais. Maurice Valadon
Utrillo (1883-1955) foi um pintor francês conhecido como um dos
artistas que mais representaram o bairro parisiense de Montmartre;
desde a adolescência teve problemas com alcoolismo o que fez com
que fosse internado várias vezes em sanatórios para desintoxicação.6
Figura 1. Fotografia da obra identificada com a assinatura “Maurice,
Utrillo, V”
Técnicas de caracterização química, como microscopia Raman,
espectroscopia ou microscopia de absorção no infravermelho com
transformada de Fourier, microscopia eletrônica de varredura acoplada à espectroscopia de dispersão de energia (SEM-EDS), difratometria de raios X (XRD), XRF, espectrometria de emissão óptica com
plasma induzido por laser (Laser Induced Brakedown Spectroscopy,
Vol. 39, No. 5
Diferenciando reproduções e pinturas verdadeiras: um interessante estudo de caso
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LIBS), entre outras, têm sido amplamente empregadas em estudos de
obras de arte visando sua autenticação,7-9 conservação e restauro10-12
ou identificação das metodologias empregadas para sua produção.13-15
No caso do objeto analisado neste trabalho, em particular, a caracterização poderia ser útil para esclarecer se a obra da Figura 1 seria um
trabalho original ou uma reprodução que poderia ter valor agregado.
Idealmente as técnicas a serem empregadas na caracterização dos
materiais de uma obra de arte devem ser não destrutivas, não invasivas
e fornecer resultados que permitam a identificação inequívoca das
substâncias presentes. A microscopia Raman, uma técnica vibracional
que envolve o espalhamento inelástico da radiação incidente em uma
amostra,16 vem sendo empregada com muito sucesso na investigação
de bens culturais,17 como pinturas e desenhos,7,18-20 por apresentar as
características acima mencionadas e ainda ser relativamente imune
à interferência do substrato devido à confocalidade ou à resolução
espacial, o que permite restringir a área estudada aos pigmentos.
Essa técnica foi usada na identificação dos pigmentos da obra em
estudo e utilizou-se espectroscopia de fluorescência de raios X como
técnica complementar.
PARTE EXPERIMENTAL
Para as análises por Microscopia Raman hastes plásticas com
algodão nas extremidades foram suavemente friccionadas sobre a
superfície do quadro, removendo pequenos fragmentos de pigmentos
(tipicamente de 5 a 10 µm) que ficaram presos às fibras de algodão
(Figura 2a). As hastes contendo os pigmentos foram guardadas em
tubos eppendorf até o momento da análise quando foram colocadas
diretamente sobre o estágio do microscópio (plataforma que suporta
a amostra, também chamado de platina), sem nenhum pré-tratamento.
Apesar das análises não terem sido realizadas in situ, a quantidade
de amostra coletada através desse procedimento é tão pequena que
pode ser considerad (...truncated)