Gas chromatography coupled with atomic absorption spectrometry
220
Campos & Grinberg
Quim. Nova
Revisão
Quim. Nova, Vol. 24, No. 2, 220-227, 2001.
ACOPLAMENTO CROMATOGRAFIA GASOSA - ESPECTROMETRIA DE ABSORÇÃO ATÔMICA EM ESTUDOS
DE ESPECIAÇÃO: UMA REVISÃO
Reinaldo Calixto de Campos e Patricia Grinberg
Departamento de Química, Pontifícia Universidade Católica do Rio do Janeiro, Rua Marquês de São Vicente, 225, 22453-900
Rio de Janeiro - RJ
Recebido em 13/3/00; aceito em 7/8/00
GAS CHROMATOGRAPHY COUPLED WITH ATOMIC ABSORPTION SPECTROMETRY. This
review presents an updated overview of the trace element speciation by gas chromatography coupled
with atomic absorption spectrometry.
Keywords: speciation; gas cromatography; atomic absorption spectrometry.
INTRODUÇÃO
O termo especiação foi definido por Ure1 como um processo
ativo de identificação e quantificação de diferentes espécies,
formas ou fases em que um elemento ocorre em uma determinada amostra. A importância da especiação para a ciência
ambiental, biologia e medicina reflete-se na crescente quantidade de artigos e livros publicados nos últimos anos, de congressos devotados ao tema e no constante progresso alcançado. A
principal razão é que a toxicidade, bio-disponibilidade, o transporte e propriedades físico-químicas de um elemento podem
diferir grandemente, dependendo de sua forma química2,3. Logo,
informar o conteúdo total de um elemento não é suficiente na
avaliação de seu potencial de ação. Por exemplo, o Sn inorgânico
apresenta menor toxicidade do que os seus compostos
alquilderivados, sendo que a toxicidade aumenta com o aumento do número de grupos alquila ligados ao átomo de Sn4. Entretanto, para o As, os compostos inorgânicos são mais tóxicos do
que os respectivos compostos orgânicos, o mesmo ocorrendo
com os compostos de Sb. Já em relação à influência do número
de oxidação, sabe-se, por exemplo, que o As(III) é mais tóxico
que o As(V) e que o Sb(III) se mostra dez vezes mais tóxico do
que Sb(V)5,6. Em relação aos compostos de mercúrio, tanto as
espécies inorgânicas como as orgânicas são tóxicas, sendo seus
alquil derivados os mais tóxicos, em especial o metil-mercúrio,
de todas as formas, a mais agressiva7.
Logo, o desenvolvimento de ferramentas analíticas precisas e seletivas para a determinação destas diferentes espécies é de extrema importância para uma estimativa realista dos
riscos toxicológicos ou do comportamento ambiental de um
dado elemento 8 .
A determinação individual das diferentes espécies de um
elemento, presente a nível de traços, é dependente dos seguintes requisitos9:
•
•
•
•
Os compostos de interesse devem ter suas integridades preservadas durante a amostragem, armazenamento e pré-tratamento da amostra. Deve-se evitar qualquer ação que resulte
em uma mudança do equilíbrio químico, destruição ou transformação das diferentes formas existentes na amostra. Este
requisito é considerado o principal problema da especiação;
As análises devem ser específicas e não sujeitas a interferências de outros elementos ou compostos presentes na amostra;
No caso de processos de separação, estes devem ser, além
de eficientes, tais que não impliquem em excessiva diluição das espécies;
O método de detecção deve ser suficientemente sensível, de
modo a permitir determinações a nível de traços e ultra-traços.
Assim, os métodos analíticos aplicados à determinação
seletiva das espécies elementares podem ser classificados como:
• métodos químicos, baseados em técnicas de separação por extração, volatilização, co-precipitação ou por redução seletiva;
• métodos cinéticos;
• métodos baseados em técnicas cromatográficas.
Os métodos baseados em separações não cromatográficas,
assim como os cinéticos, apresentam boa precisão e têm a
vantagem de ter baixo custo operacional, pois necessitam de
instrumentação bastante simples; entretanto, podem ser bastante laboriosos e demorados.
Já os métodos baseados em técnicas cromatográficas, apesar de necessitarem de instrumentação mais sofisticada, são
mais eficientes na separação das diferentes espécies, sendo,
portanto, os mais empregados, especialmente na especiação de
compostos organometálicos em amostras clínicas ou ambientais.
A maior parte dos sistemas visa o acoplamento direto da cromatografia, em linha, a técnicas de detecção diversas, como
AAS, ICP-MS10-21, ICP-AES10,22-29, AFS30, MIP10,21,31-46 etc.
Ou seja, os diferentes equipamentos relativos a essas técnicas
analíticas tornam-se os detectores, postados à saída da coluna
de separação.
Nestes acoplamentos, a cromatografia líquida, principalmente HPLC, tem sido uma técnica amplamente utilizada47, tanto
devido a seu alto poder de separação, como pelo fato de poder
lidar com analitos voláteis ou não. Entretanto, a instrumentação
pode apresentar-se cara e o tempo de análise excessivamente
longo. Concomitantemente, a sua interface com técnicas de
espectrometria atômica implica, na maioria dos casos, na
nebulização pneumática do efluente, com as perdas que este
modo de introdução de amostra acarreta, ou no uso de sistemas especiais, não disponíveis comercialmente. Para alguns
elementos, a nebulização pode também ser contornada por reações de derivatização a formas voláteis, após a coluna, o que
implica, entretanto, no aumento da complexidade do sistema.
Frente à HPLC, além do mais baixo custo, a cromatografia
gasosa tem a vantagem de transferir ao detector o analito já na
forma gasosa, evitando assim os problemas de perdas inerentes
à nebulização da amostra, aumentando, consequentemente, a
sensibilidade do método. No entanto, sua utilização é limitada
a compostos voláteis, ao passo que grande parte dos problemas de especiação envolve espécies não voláteis. Contudo, esta
limitação também pode ser contornada pela derivatização das
espécies de interesse a compostos voláteis.
Entre todas as técnicas analíticas utilizadas para detecção,
grande atenção tem sido dada ao ICP-MS, que é considerado
o detector mais sensível para a especiação e que terá uma
Vol. 24, No. 2
Acoplamento Cromatografia Gasosa - Espectrometria de Absorção Atômica
importância crescente no futuro, principalmente onde é necessária a melhor sensibilidade e/ou a análise simultânea de diversos
elementos. Entretanto, seu alto custo e conseqüente
indisponibilidade, faz com que a AAS seja considerada a técnica de maior potencial de uso em análises de rotina, onde o custo
se torna um fator determinante para a escolha do método 47.
A AAS, além de ser uma técnica relativamente barata, tanto
na sua implantação quanto nos gastos de operação, é de fácil
operação, estando disponível na maioria dos laboratórios, e o
acoplamento de técnicas de derivatização, como geração de
hidretos ou etilação, não traz qualquer dificuldade maior. Dependendo do elemento e forma a ser determinada, a interface
GC-AAS pode ser bastante simples, usufruindo da AAS sua
sensibilidade, robustez e especificidade.
Para a melhor utilização do acoplamento GC-AAS47-49, as
seguintes condições devem ser observadas 50:
1. Todas espécies injetadas na coluna croma (...truncated)