Arsenic Speciation - A review
REVISÃO
ESPECIAÇÃO DE ARSÊNIO - UMA REVISÃO
Cristina Maria Barra
Departamento de Química - UFRRJ - Antiga Rio-São Paulo - Km 47 - 23850-970 - Seropédica - RJ
Ricardo Erthal Santelli, Jorge João Abrão
Departamento de Geoquímica - UFF - Outeiro de São João Batista - s/n - Centro - 24020-007 - Niterói - RJ
Miguel de la Guardia
Departamento de Química Analítica - Universidade Valência - Dr. Moliner - 50, Burjassot - 46100 - Valencia - Espanha
Recebido em 3/8/98; aceito em 16/4/99
ARSENIC SPECIATION – A REVIEW. This paper provides a review on separation methods and
analytical techniques for the determination of several species of organic and inorganic arsenic in
different matrices. Arsenic is an element whose speciation is of particular interest due to the great
variation of toxicity levels exhibited for its different chemical forms. Arsenic (III) and As (V) are
the most toxic species while organic compounds such as arsenobetaine (AsB), produced by
methylation of inorganics species (carcinogenics) are relatively less toxic, hence the great
importance of arsenic speciation in the determination of the degree of contamination of an
environmental or biological system.
Keywords: arsenic compounds; speciation; toxicity.
INTRODUÇÃO
Especiação é a determinação da concentração das diferentes
formas químicas de um elemento numa matriz, sendo que estas
espécies, juntas, constituem a concentração total do elemento
na amostra. Antigamente, a determinação da concentração total
de um dado elemento parecia ser suficiente para todas as considerações clínicas e ambientais. Hoje já não é mais assim.
Embora o conhecimento da concentração total de um elemento
ainda seja muito útil, é essencial, em muitos esquemas analíticos, a determinação das espécies químicas nas quais o elemento está distribuído1.
Atualmente, sabe-se que a determinação da concentração
total de um elemento é uma informação limitada, especialmente sobre o seu comportamento no meio ambiente e nos
danos que pode causar à saúde. As propriedades físicas, químicas e biológicas são dependentes da forma química em que
o elemento está presente 2. Por exemplo, a medida da concentração total de arsênio, não indica os verdadeiros níveis de
cada espécie individualmente. Para estimar o risco envolvido,
precisam ser levados em consideração a variação na
toxicidade, o transporte e a biodisponibilidade, que são dependentes das formas químicas na qual o arsênio está presente. Por isto a necessidade de utilizar-se métodos analíticos
que ajudem a diferenciar essas formas3.
A coleta, o tratamento e a preservação das amostras para determinação qualitativa e quantitativa, visando à especiação de
um elemento, requerem planejamento e uma consideração cuidadosa. A natureza desta tarefa é muito diferente daqueles procedimentos para determinação total do elemento. Neste caso, o
procedimento a ser adotado, é o de manter o equilíbrio estabelecido entre as formas químicas do elemento nas amostras, desde a coleta até a análise. Entretanto, é essencial ter-se em mente
que dados sobre a concentração total são necessários para muitas investigações1. As amostras devem ser analisadas o mais
rapidamente possível, logo após a coleta, sem uso de soluções
preservativas, como, por exemplo, a acidificação do meio, que
modifica o equilíbrio das espécies presentes4.
A determinação seletiva de arsênio, tem despertado o maior
interesse em muitos laboratórios analíticos, e vários métodos
vêm sendo desenvolvidos para a determinação de arsênio
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inorgânico, orgânico e total em diferentes tipos de matrizes
como águas, alimentos de origem marinha, sedimentos e materiais biológicos, entre outros1.
Arsênio é amplamente distribuído na biosfera. Água do mar
não poluída contém 2 - 3 µg.L-1, a crosta terrestre possui uma
concentração média de 2 µg.kg-1, e a concentração em organismos marinhos varia de 1 µ.g-1 a mais de 30 µ.g-1 de arsênio5,
os quais são caracterizados pela quantidade relativamente alta
deste elemento, sendo que no exame de alimentos de origem
marinha, geralmente se determina a concentração total de
arsênio e, raramente, As(III) e As(V) separados da forma orgânica. Esta avaliação, sem especiação, envolve valores superestimados, uma vez que os compostos orgânicos de arsênio, presentes nos organismos marinhos, e de muito menor toxicidade,
são também determinados6.
A QUÍMICA DO ARSÊNIO
Arsênio existe na natureza numa variedade de formas químicas, incluindo espécies orgânicas e inorgânicas, como resultado de sua participação em complexos biológicos, processos
químicos e algumas aplicações industriais, como a manufatura
de certos vidros, materiais semicondutores e fotocondutores,
entre outros7-9. Compostos contendo arsênio são utilizados no
tratamento de determinadas doenças e, na agricultura, o arsênio
encontra-se nos herbicidas, inseticidas e desfolhantes 2. Também a flora e a fauna marinha contêm compostos de arsênio,
pois nas vias metabólicas o nitrogênio e o fósforo podem ser
facilmente trocados por ele7.
Os altos níveis de toxicidade de arsênio são muito bem conhecidos, pois compostos de arsênio são facilmente absorvidos,
tanto oralmente quanto por inalação, sendo a extensão da absorção dependente da solubilidade do composto. Na Tabela 110 são
apresentadas algumas espécies de arsênio de interesse em estudos de especiação, com seus respectivos valores de pka, que
proporcionam uma idéia das formas possíveis em função do pH.
Uma longa exposição a compostos inorgânicos de arsênio,
através da água de beber, pode conduzir a várias doenças tais
como: conjuntivite, hiperqueratose, hiperpigmentação, doenças
cardiovasculares, distúrbios no sistema nervoso central e vascular
periférico, câncer de pele e gangrena nos membros. O efeito
QUÍMICA NOVA, 23(1) (2000)
Tabela 1. Compostos de Arsênio de Interesse em Estudos de Especiação. Extraído de Demesmay et al, 1994 (Ref. 10).
Composto
Fórmula
pKa
Arsina
AsH3
-
Ácido arsenioso
As (III)
9,3
Ácido arsênico
2,3
As (V)
6,9
11,4
Ácido monometilarsônico
3,6
MMAA (V)
8,2
Ácido dimetilarsínico
1,6
DMAA (V)
6,2
Arsenobetaína
4,7
(AsB)
Arsenocolina
-
(AsC)
tóxico das espécies de arsênio depende, principalmente, de sua
forma química. Arsênio em águas naturais pode ocorrer como
As(III) (arsenito), As(V) (arseniato), íon monometilarsônico
(MMA) e íon dimetilarsínico (DMA). Águas subterrâneas contêm arsênio como arsenito e arseniato. Em águas de mar, lagoas,
lagos, e onde houver possibilidade de biometilação, arsenito e
arseniato ocorrem junto com MMA e DMA11.
A ordem decrescente de toxicidade dos compostos de
arsênio, segundo Anderson et al.,198611, e Burguera et al.,
199112, é a seguinte: arsina > arsenito > arseniato > ácidos
alquil-arsênicos > compostos de arsônio > arsênio elementar.
O arsênio trivalente (arsenito) é 60 vezes mais tóxico do que a
forma oxidada pentavalente (arseniato). Os compostos
inorgânicos são 100 vezes mais tóxicos do que as formas parcialmente metiladas (MMA e DMA)13.
Arsênio(III) e (...truncated)