Chemical speciation of inorganic arsenic in Laguna dos Patos estuary (RS, Brazil)
Quim. Nova, Vol. 35, No. 7, 1401-1406, 2012
Josiane dos Santos Farias e Márcio Raimundo Milani*
Escola de Química e Alimentos, Universidade Federal do Rio Grande, CP 475, 96201-900 Rio Grande – RS, Brasil
Luis Felipe Hax Niencheski e Mariele Lopes de Paiva
Instituto de Oceanografia, Universidade Federal do Rio Grande, CP 474, 96201-900 Rio Grande – RS, Brasil
Artigo
ESPECIAÇÃO QUÍMICA DE ARSÊNIO INORGÂNICO NO ESTUÁRIO DA LAGUNA DOS PATOS (RS, BRASIL)
Recebido em 1/11/11; aceito em 6/3/12; publicado na web em 25/6/12
CHEMICAL SPECIATION OF INORGANIC ARSENIC IN LAGUNA DOS PATOS ESTUARY (RS, BRAZIL). This study
optimized and validated a method to perform chemical speciation of inorganic arsenic in water samples collected under the Monitoring
Program of the Port of Rio Grande-RS in July and October 2010 from the Laguna dos Patos Estuary (RS, Brazil). The flow injection
hydride generation atomic absorption spectrometry technique was employed, allowing quantification of As3+ and As5+ present in
estuarine water samples. Data interpretation for results generated using the improved method for analyzing water samples collected
from Laguna dos Patos Estuary was done by main components analysis.
Keywords: arsenic; speciation; flow injection hydride generation atomic absorption spectrometry.
INTRODUÇÃO
Os metais são contaminantes ambientais estáveis e persistentes,
pois não podem ser degradados e nem destruídos.1 Na natureza, os
metais que ocorrem em baixas concentrações, variando entre 1 e 10-10
mg dm-3 são chamados de metais traço.2 Porém, a mineração no século
XX aumentou consideravelmente a concentração destes elementos no
meio ambiente aquático. Cabe salientar que não somente a mineração,
as fontes antrópicas, como efluentes domésticos e industriais, o uso de
pesticidas são responsáveis pela introdução dos metais nos ambientes
aquáticos, mas também, as fontes naturais, como o intemperismo ou
fenômeno wash-out de solos e rochas, que resultam na introdução
desses elementos nos corpos hídricos.1
A contaminação das águas por metais traço vem chamando a
atenção de pesquisadores, pois estes poluentes representam um risco
em potencial à biota, devido ao seu caráter acumulativo.3
No meio ambiente, a mobilidade e a toxicidade do metal depende
do estado de oxidação e da estrutura química da espécie metálica.4
Em particular, o estado de oxidação do arsênio desempenha um papel
importante em seu comportamento ambiental e na sua toxicidade.5,6
O arsênio pode ocorrer na natureza em quatro estados de oxidação:
As5+, As3+, As0 e As3-. 3,4,7 Pode ser encontrado na atmosfera, na
água, em solos, sedimentos e organismos, ocorrendo naturalmente
na crosta terrestre.
Segundo Borba et al.,8 a toxicidade dos compostos de arsênio pode ser resumida na seguinte ordem: compostos de As3+
inorgânico > compostos de As5+ inorgânico > compostos de As3+
orgânico > compostos de As5+ orgânico. Os compostos de arsênio
inorgânico são 100 vezes mais tóxicos do que as espécies químicas parcialmente metiladas (íon monometilarsônico (MMA) e íon
dimetilarsínico (DMA)).9 Mesmo entre as espécies inorgânicas a
toxicidade não é igual; por exemplo, a forma de arsênio trivalente
(arsenito) é 60 vezes mais tóxica do que a forma oxidada pentavalente (arsenato).8,10,11
No meio ambiente, a contaminação por arsênio afeta diretamente
as populações humanas. Esse elemento, uma vez presente na cadeia
alimentar irá desencadear vários problemas potencialmente perigosos
à saúde humana, podendo levar ao óbito.12
*e-mail:
O consumo de água contaminada com altos teores de arsênio tem
sido a principal causa de contaminação humana por esse elemento.
Os casos mais graves de intoxicação por arsênio aconteceram em
Bangladesh, Bengala Ocidental e também no México, Chile e
Argentina, porque pessoas consumiram água subterrânea, extraída
de aquíferos em formações geológicas arseníferas.13
A exposição crônica ao arsênio pode causar graves problemas
metabólicos aos seres humanos, tais como, hiperqueratose, câncer de
pele, câncer de fígado, câncer pulmonar, câncer de bexiga, câncer de
rins, distúrbios do sistema nervoso, aumento da frequência de abortos
espontâneos e outras doenças graves.4,12-15
Em função da sua toxicidade e possíveis impactos ambientais,
continuam a ser desenvolvidas técnicas analíticas que permitam a
detecção de arsênio em níveis traço. A espectrometria de absorção
atômica e espectrometria de emissão óptica com plasma acoplado
indutivamente são as técnicas mais utilizadas para a detecção de
arsênio. Particularmente, a espectrometria de absorção atômica com
atomização eletrotérmica (ETAAS) tem sido usada para determinar
as concentrações de arsênio total em diferentes matrizes, por causa
da sua sensibilidade e exatidão.10 No entanto, para análise de água do
mar ou de águas não contaminadas por arsênio, esta técnica tem uso
restrito, pois a concentração de arsênio encontrada nessas águas está
abaixo do limite de detecção.10 A determinação somente é possível
após uma etapa de pré-concentração e separação do analito, o que
torna difícil sua utilização em análises de rotina.
Para a determinação da concentração de arsênio na faixa de alguns
µg L-1, técnicas automatizadas como, por exemplo, a análise por injeção por fluxo (FIA) tem atraído atenção por sua alta precisão, elevada
velocidade analítica e possibilidade de inclusão de pré-tratamentos
e pré-concentração do analito em linha. Os métodos empregando a
técnica de injeção em fluxo são os que asseguram uso de instrumentação mais simples e de baixo custo, além de permitir a determinação
rápida de diversos elementos traço em linha.10
A análise por injeção em fluxo combinada com a espectrometria
de absorção atômica com geração de hidretos (FI-HG-AAS) como
sistema de detecção para arsênio é um acoplamento atrativo, por
causa da sua simplicidade e alta sensibilidade. Quando comparado
com o procedimento convencional, a FI-HG AAS apresenta os seguintes benefícios: sem perda do analito, devido à reação rápida e
completa entre o metal e o hidreto gerado in situ (agente redutor);
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Farias et al.
máxima eficiência de transporte do hidreto do metal formado,
pois este se apresenta na forma gasosa; facilidade de separação do
analito da matriz, eliminando problemas que podem surgir a partir
das interferências espectrais; possibilidade de especiação química,
para estados de oxidação com maior cinética de reação; aumento
do limite de detecção, tipicamente de 5 a 30 vezes, comparado ao
método convencional.3
A legislação brasileira estabelece valores máximos permitidos
apenas para a concentração total de arsênio (incluindo o arsênio na
fração dissolvida e na fração particulada, sem filtração da amostra).
A Resolução nº 357, de 17/3/2005, do Conselho Nacional do Meio
Ambiente (CONAMA), que classifica as águas superficiais, estabelece
limites máximos para a concentração de arsênio total que variam de
0,01 a 0,14 mg L-1, de acordo com a natureza e finalidade de uso
da água. O Ministério da Saúd (...truncated)