Gender, race and school evaluation: a study with literacy teachers

Cadernos de Pesquisa, Jan 2009

This study aimed to verify if both the definition of plain educational goals and the adoption of clearly defined evaluation criteria could minimize inequalities at school, especially those related to socioeconomic, sex and race disparities noticed within a group of students referred to additional support activities by nine literacy teachers at different public schools in the city of São Paulo. The teachers were interviewed and the students answered a socioeconomic survey. Furthermore, observations within the schools were taken. The study concludes that the disproportionate number of children from low income families in that group is due to the particular role teachers attribute to those activities, which are considered not as a punishment, but as an opportunity to learn. Also, the incidence of black, mixed and native students is slightly reduced when evaluation criteria are precise. Finally, it is easily noticed that girls and boys are equally referred when only the learning process is evaluated, and not behavior problems. Some indications to initial and continuing education of teachers are also made.

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Gender, race and school evaluation: a study with literacy teachers

Gênero, raça e avaliação escolar GÊNERO, RAÇA E AVALIAÇÃO ESCOLAR: UM ESTUDO COM ALFABETIZADORAS 1 MARÍLIA PINTO DE CARVALHO Professora do Departamento de Administração Escolar da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo RESUMO Este estudo pretendeu avaliar se a definição de objetivos pedagógicos claros e a consequente adoção de critérios de avaliação de aprendizagem bem delimitados poderiam minimizar os desequilíbrios socioeconômicos, de sexo e de raça, evidenciados no interior do grupo de alunos indicados para atividades de reforço por nove professoras alfabetizadoras de diferentes escolas públicas na cidade de São Paulo. Foram realizadas observações em sala de aula, entrevistas com as educadoras e formulados questionários de caracterização socioeconômica dos alunos. Conclui-se que: a maior alteração relativa a alunos e alunas de baixa renda se refere ao papel atribuído pela professora à recuperação, que passa a ser considerada não como punição, mas como oportunidade de aprendizagem; a presença majoritária no reforço de crianças percebidas como pretas, pardas e indígenas diminui ligeiramente pela melhor definição de critérios de avaliação escolar; é nítido o equilíbrio na indicação de meninos e meninas ao reforço quando se avalia com precisão a aprendizagem e não o comportamento. São feitas também indicações para a formação inicial e continuada de educadores/as no que se refere a relações de gênero e de raça. AVALIAÇÃO DE APRENDIZAGEM – GÊNERO – RAÇA – ENSINO FUNDAMENTAL ABSTRACT GENDER, RACE AND SCHOOL EVALUATION: A STUDY WITH LITERACY TEACHERS. This study aimed to verify if both the definition of plain educational goals and the adoption of clearly defined evaluation criteria could minimize inequalities at school, especially those related to socioeconomic, sex and race disparities noticed within a group of students referred to additional support activities by nine literacy teachers at different public schools in the city of São Paulo. The teachers were interviewed and the students answered a socioeconomic survey. Furthermore, observations within the schools were taken. The study concludes that the disproportionate number of children from low income families in that group is due to the particular role teachers attribute to those activities, which are considered not as a punishment, but as an opportunity to learn. Also, the incidence of black, mixed and native students is slightly reduced when evaluation Pesquisa desenvolvida com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. Cadernosde dePesquisa, Pesquisa,v.v.39, set./dez. 2009 Cadernos 39, n.138, n. 138,p.837-866, set./dez. 2009 837 Marília Pinto de Carvalho criteria are precise. Finally, it is easily noticed that girls and boys are equally referred when only the learning process is evaluated, and not behavior problems. Some indications to initial and continuing education of teachers are also made. LEARNING EVALUATION – GENDER – RACE – PRIMARY EDUCATION Nos últimos anos, tenho frequentado escolas, assistido aulas e entrevistado professoras do primeiro ciclo do ensino fundamental, em busca de explicações para a presença insistente, entre crianças de sexo masculino, de trajetória escolares mais truncadas, interrompidas por abandonos e repetências (Carvalho 2001, 2004, 2004a , 2005). Nessa busca, concentrei-me em tentar compreender os critérios de avaliação utilizados pelas professoras, pois percebo sua importância na determinação dos destinos escolares das crianças e pude constatar a grande dificuldade das equipes escolares para definir com clareza objetivos de aprendizagem e critérios de avaliação, uma dificuldade em verdade partilhada pelo conjunto do sistema escolar brasileiro e até mesmo no plano internacional. As professoras afirmavam avaliar os alunos com base em uma multiplicidade de instrumentos e diziam levar em conta tanto o desempenho propriamente dito, quanto o que denominavam “compromisso do aluno”. Avaliar esse “compromisso”, porém, era uma tarefa extremamente subjetiva, mesmo em escolas razoavelmente estruturadas e com espaços coletivos de discussão. Para fazê-lo, utilizavam repertórios e referenciais pessoais, apenas relativamente conscientes, sem perceber integralmente seu caráter arbitrário, e dessa forma reproduziam valores, ideias e símbolos decorrentes da hierarquia socioeconômica e das relações de gênero e etnorraciais. Assim, uma pergunta me acompanhava desde as primeiras fases da pesquisa: a definição de objetivos pedagógicos e critérios de avaliação de aprendizagem bem delimitados poderia minimizar os desequilíbrios socioeconômicos, de sexo e de raça evidenciados no interior do grupo de alunos indicados pelas professoras como portadores de dificuldades de aprendizagem? Não se trata de reduzir problemas sociais e políticos a definições técnicas, supondo que um método pedagógico possa reverter as relações de poder na sociedade e na escola, mas apenas de indagar se e como o domínio teórico e prático de metas e de uma proposta pedagógica pode atuar no sentido inverso das desigualdades sociais de classe, gênero e raça, minimizando ou não seus efeitos sobre o desempenho escolar. Não há como negar que 838 Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 138, set./dez. 2009 Gênero, raça e avaliação escolar mesmo uma avaliação ancorada em objetivos curriculares resulta de escolhas culturais referidas à ideia de excelência escolar em vigor. Como nos aponta Phillipe Perrenoud (2003) “voltar ao currículo não resolve todos os dilemas quanto à definição do sucesso escolar, na medida em que ele próprio é objeto de controvérsias e interpretações divergentes” (p.18), sendo os critérios de sucesso e fracasso escolar foco de disputa e negociação permanente entre os diferentes atores envolvidos, numa relação de poder desigual. Contudo, este autor sugere que “ater-se ao currículo e às suas finalidades é a única maneira coerente de colocar o problema dos critérios de sucesso” (p.18). E propõe a definição clara das finalidades da escola e dos critérios de avaliação como ferramenta indispensável na democratização do ensino. No que se refere às diferenças entre meninos e meninas, foco deste estudo, há indicações na literatura internacional de que uma nítida separação entre avaliação de comportamento e avaliação de aprendizagem tende a diminuir o número de meninos indicados para classes especiais ou atividades de reforço, resultando em presença paritária entre os sexos, uma vez que, da mesma forma que nas escolas por mim estudadas, os meninos são considerados mais agitados, indisciplinados e dispersos (Connell, 2000; Lingard, Douglas, 1999; Jackson, 1998; Hey et al., 1998). Valerie Hey et al.(1998), por exemplo, em estudo sobre atendimento a alunos com dificuldades de aprendizagem em quatro escolas primárias públicas de Londres, verificaram que a única em que havia números proporcionais de meninos e meninas nas atividades de reforço era a escola em que se colocava ênfase no (...truncated)


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Marília Pinto de Carvalho. Gender, race and school evaluation: a study with literacy teachers, Cadernos de Pesquisa, 2009, pp. 837-866, Volume 39, Issue 138, DOI: 10.1590/S0100-15742009000300008