Adaptação de escalas de silhuetas bidimensionais e tridimensionais para o deficiente visual
Escalas bidimensionais e tridimensionais para deficiência visual
Relato de Pesquisa
ADAPTAÇÃO DE ESCALAS DE SILHUETAS BIDIMENSIONAIS E TRIDIMENSIONAIS PARA O
DEFICIENTE VISUAL
ADAPTATION OF TWO AND THREE DIMENSIONAL SILHOUETTE SCALES FOR THE VISUALLY
IMPAIRED
Fabiane Frota da Rocha MORGADO1
Maria Elisa Caputo FERREIRA2
RESUMO: o objetivo deste estudo foi descrever o processo de adaptação da Escala de Silhuetas Bidimensionais
(ESB) e de criação da Escala de Silhuetas Tridimensionais (EST). Para isso uma pesquisa de cunho qualitativo
realizado em três etapas: na primeira, foi solicitada a autorização do prof. Stunkard para a utilização de seu
instrumento como parâmetro para a confecção das Escalas. Na segunda, foi confeccionada a ESB e na terceira,
a EST. Estas Escalas foram elaboradas considerando os critérios técnicos da Divisão de Pesquisa e Produção de
Material Especializado do Instituto Benjamin Constant – RJ. Os resultados indicaram que a ESB foi confeccionada
em linguagem grafo-tátil em alto relevo e é composta por nove bonecos masculinos e nove femininos, com
diferentes formas corporais, texturizados com lixa de parede e linha. Os bonecos possuem 8,5 cm de altura. A
EST foi composta por nove bonecos masculinos e nove femininos, com diferentes pesos e formas corporais. Os
modelos foram confeccionados através de processo artesanal e constituídos de gesso pedra. Os bonecos do
gênero masculino possuem altura de 15,5 cm e os do gênero feminino, 13,5 cm. Conclui-se que as informações
contidas na descrição detalhada dos processos de confecção da ESB e EST podem ser um referencial para
adaptações futuras e melhoradas de outras Escalas de figuras humanas, desenvolvidas a partir deste primeiro
referencial.
PALVRAS-CHAVES: Imagem Corporal. Deficiente da Visão. Linguagem Escrita.
ABSTRACT: The objective of this study was to describe the process of adaptation of the Two Dimencional
Silhouette Scale (2DSS) and the development of a Three Dimensional Silhouette Scale (3DSS). To that end, a
qualitative study was conducted in three stages: In the first one, the creator of the tool, Mr. Stunkard was
contacted for permission to use his instrument as a parameter for the development of the scales. In the second
and third ones, the 2DSS and the 3DSS were developed, respectively. These scales were developed considering
the technical criteria of the Benjamin Constant Institute - RJ - of Research and Production of Specialized Materials.
The results indicated that the 2DSS was developed in a graphic tactile language in high relief and is composed
of nine male and nine female dolls, each with different body shapes, measured 8.5cm in height and texturized
with sandpaper and string. The 3DSS was composed of nine male and nine female dolls with different weights
and body shapes. The models were handmade and cast in plaster. The male dolls were 15.5 cm in height and
the female ones were 23.5 cm in height. We concluded that the information contained in the detailed description
Mestrado em Educação Física na linha de pesquisa – Aspectos Socioculturais do Movimento Humano, na
Universidade Federal de Juiz de Fora. Fez Especialização em Aspectos Metodológicos e Conceituais da Pesquisa
Científica pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2007). Possui Graduação – Licenciatura Plena em Educação
Física – pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
1
Professora Adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora e Orientadora nos Programas de Mestrado em
Educação Física e em Psicologia. É Pós-doutora (2006) e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo
(2002). É Mestre em Educação Física pela Universidade Gama Filho (1998) e Mestre em Ciência da Motricidade
Humana pela Universidade Castelo Branco (1996). É graduada em Educação Física pela Universidade Federal
de Juiz de Fora (1993) e em Serviço Social pela Faculdade de Serviço Social do Rio de Janeiro.
2
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v.17, n.1, p.21-36, Jan.-Abr., 2011
21
MORGADO, F. F. R.; FERREIRA, M. E. C.
of the development processes of the 2DSS and 3DSS may become a reference for future adaptations and
improvements of other human figure scales.
KEYWORDS: Special Education. Body Image. Visually Impaired. Written Language.
1 INTRODUÇÃO
O presente estudo corresponde à parte inicial de um amplo projeto
que se propõe a discutir a avaliação da Imagem Corporal do público deficiente
visual. Para esta pesquisa, é importante esclarecer que uma das formas de interação
do cego com o mundo é através da mundividência tátil, que pode ser definida
como a visão individual e particular do cego, baseada, sobretudo, na esfera tátil.
Ela é a principal fonte de informações na representação mental do objeto para
aqueles que não possuem o estímulo visual (SOUSA, 2004). Os modelos mais
utilizados que privilegiam a mundividência tátil são o Sistema Braille3 , a linguagem
grafotátil (bidimensional) e as figuras tridimensionais. Tais modelos podem auxiliar
o cego a formular imagens mentais, no entanto, não foram encontrados, no Brasil,
até a presente data, modelos táteis adaptados que se propõem avaliar um
componente específico da Imagem Corporal do deficiente visual (CAMPANA;
TAVARES, 2009).
No que se refere às representações gráficas, passíveis de serem
adaptadas ao público cego, a Escala de Silhuetas de Stunkard, Sorensen e
Schlusinger (1983) tem sido largamente utilizada com videntes nas pesquisas sobre
Imagem Corporal, realizadas no Brasil (MORGADO et al., 2008). Esta Escala é
composta por nove figuras humanas esquemáticas que aumentam de forma gradual
suas dimensões corporais e visa avaliar a satisfação corporal, um dos componentes
da Imagem Corporal (SCAGLIUSI et al., 2006). Esta Imagem, segundo Schilder
(1999), pode ser entendida como a representação mental do corpo, permeada por
inúmeras sensações e percepções que o indivíduo vivencia e experimenta ao longo
da vida, tais como as impressões táteis, térmicas e cinestésicas, oriundas da relação
do sujeito com o mundo. A insatisfação, por sua vez, pode ser entendida como a
discrepância entre o tamanho percebido pela pessoa e o tamanho que ela gostaria
de ter, idealmente (FURNHAM; BADMIN; SNEADE, 2002; GARDNER, 2004).
A Imagem Corporal do cego, bem como suas imagens mentais das
coisas e dos objetos são diferentes daquelas formadas pelos videntes. São formadas,
especialmente, de acordo com as suas vivências táteis e na medida em que ele toca
sequencialmente as coisas e os objetos para captá-los, e quem enxerga possui uma
visão global. Portanto, essas imagens são táteis e não visuais, e é essa experiência
que importa, mesmo que seja por meio de um objeto semelhante à “coisa”. O cego
pode ter acesso às coisas depois de conhecê-las concretamente, lembrando-se delas
na imaginação. Portanto, há a necessidade de tocar, para saber da existência dos
3
O Sistema Braille é um código utilizado internacionalmente, composto por signos representados pelas
diferentes combinações de seis pontos justapostos, os (...truncated)