O mapa da dor crônica na internet: um estudo exploratório

Revista Dor, Jan 2016

Alessandra Spedo Focosi, Rosane Mantilla de Souza

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O mapa da dor crônica na internet: um estudo exploratório

ARTIGOS ORIGINAIS O mapa da dor crônica na internet: um estudo exploratório Alessandra Spedo Focosi1  Rosane Mantilla de Souza1  1Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Departamento de Psicologia Clínica, São Paulo, SP, Brasil. RESUMO JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: O acesso à Internet cresce progressivamente e ela é considerada a primeira fonte de informação, inclusive sobre saúde. Há um aumento da prevalência de pacientes com dores crônicas e o acesso à assistência especializada ainda é escasso. A web tem a possibilidade de abranger maior número de pessoas, mas ainda há poucos estudos que exploram a relação entre dor e Internet. Assim, o objetivo deste estudo foi caracterizar o universo com o qual os brasileiros se deparam ao pesquisar sobre dor na Internet. MÉTODOS: Foi utilizada análise documental da primeira página de busca do Google web empregando oito descritores, selecionados considerando pesquisa bibliográfica, ferramenta Google Trends e diferentes modos de expressão da população ("dor"; "dor crônica"; "eu tenho dor"; "eu sinto dor"; "dor de cabeça"; "cefaleia"; "dor nas costas"; e "dor lombar"). RESULTADOS: Obtiveram-se ao final da pesquisa 64 resultados válidos, categorizados em websites e Virtual Settlement. Dentre os websites encontraram-se páginas: de portais de saúde (19); desenvolvidas por especialistas ou sociedades médicas (14); de jornais e revistas online (19); ou de bibliotecas virtuais (2). Na categoria Virtual Settlement: destacam-se blogs (1), fóruns (3), páginas do Facebook (1); vídeos do Youtube (1) e páginas da Wikipédia (4). Também se observou portais que permitem interação entre os usuários e administradores dos sites. CONCLUSÃO: Estão disponíveis na Internet muitas informações sobre dor, o que alerta para a importância de o profissional de saúde utilizar a Internet como aliada na promoção de saúde de seus pacientes e saber manusear suas desvantagens. Descritores: Dor crônica; Empoderamento; Internet INTRODUÇÃO As tecnologias de informação e comunicação (TICS) influenciam constantemente o cotidiano das pessoas, principalmente daquelas que têm acesso à Internet. Não se pode ignorar o crescimento expressivo do número de usuários que utilizam a rede para os mais variados fins, pois segundo dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)1 em 2011 houve um aumento de 143,8% do número de pessoas conectadas em relação aos dados anteriores. A Internet já é amplamente usada tanto em computadores quanto em aparelhos celulares, com crescimento vertiginoso1 e é utilizada como local de pesquisas (p. ex.: para se buscar referências científicas), objeto de pesquisa (podendo ser aquilo que se estuda), e instrumento de pesquisa (ferramenta para coleta de dados)2. Dessa forma, a rede mundial de computadores se apresenta como uma ferramenta de promoção de saúde, e consequentemente, de empoderamento do indivíduo, ou seja, uma aliada na sua busca em melhor compreender o que sente e trocar conhecimentos3-10. Entende-se como promoção de saúde o processo de capacitação da comunidade a fim de atingir o bem-estar físico, mental e social11. Esse conceito foi baseado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada em 1948, na qual se considera fundamental que todo indivíduo tenha assegurado saúde e bem-estar para si e para seus familiares12. Já por empoderamento, de acordo com a definição da European Network on Patient Empowerment (ENOPE), entende-se um processo que tem por objetivo auxiliar os indivíduos a obter controle, o que inclui ajudar as pessoas a tomar iniciativas, resolver problemas e apropriar-se de suas próprias decisões13,14. Quando o paciente com dor crônica tem a iniciativa de buscar tratamento especializado nem sempre encontra assistência adequada e assim acaba procrastinando ou deixando de procurar atendimento15. Também nesses casos, há um reforço para o uso da Internet, pois a informação disponibilizada pode auxiliar na busca e respaldar a necessidade de procurar atendimento de profissionais de saúde8,16. Por outro lado, quando o paciente procura tratamento e sente que não está sendo tratado adequadamente é comum que dúvidas e inseguranças em relação ao seu quadro clínico apareçam e, novamente, a rede é o maior meio de acesso para mobilizar outros recursos e atender a suas necessidades17. Em estudo nacional sobre o uso da Internet para pesquisas relacionadas à saúde18 verificou-se que 80% dos participantes referiram que a rede é a sua principal fonte de informação sobre saúde e destes, 90% buscam informações a respeito de sua própria saúde e 79% sobre a saúde de familiares. Em estudo internacional semelhante16, os autores discutem que para 53% dos participantes da pesquisa a informação obtida na web influencia as decisões que o indivíduo assume sobre sua saúde, seu tratamento e a decisão de procurar auxílio médico ou não. Diante do exposto, entende-se que a busca por conteúdos na Internet manterá um crescimento contínuo e é preciso que a academia se aproprie do ciberespaço. Assim, o objetivo deste estudo foi caracterizar o universo com o qual o indivíduo se depara quando busca informações sobre dor na Internet, utilizando a ferramenta de busca do Google. MÉTODOS Esta pesquisa foi realizada no ano de 2014 e delineada a partir da análise documental, modalidade muito próxima à da pesquisa bibliográfica, porém distancia-se desta por tratar-se de material que ainda não recebeu tratamento analítico19,20. Foi utilizada a base de dados do Google web para a coleta de dados, uma vez que essa é a ferramenta de busca mais difundida entre os usuários de todo mundo5,21. Na tentativa de reproduzir o comportamento dos usuários leigos que sentem dor foram utilizadas oito palavras-chaves diferentes durante as buscas no Google, são elas: dor; dor crônica; eu tenho dor; eu sinto dor; dor de cabeça; cefaleia; dor nas costas; e dor lombar. Para a seleção dos termos de busca foi realizada pesquisa bibliográfica na qual foram consideradas as maiores prevalências de diferentes tipos de dor psicofísica; o maior interesse em tópicos de pesquisa avaliados pela ferramenta do próprio Google, chamada de Google Trends22; e o modo de expressão (linguajar técnico e leigo) a fim de ampliar a abrangência da avaliação. Os descritores "dor" e "dor crônica" foram empregados por serem mais genéricos e se referirem tanto ao sintoma como ao diagnóstico. Os termos "eu tenho dor" e "eu sinto dor" também foram incluídos na pesquisa para explorar outras possibilidades de expressão que são frequentemente utilizadas por pessoas que sofrem com dores. Outros termos também foram investigados, como "eu sofro com dor", mas não empregados na pesquisa, pois havia um número maior de resultados que não se enquadravam nos critérios de inclusão. Foram escolhidas as palavras cefaleia e dor lombar devido à alta prevalência desses diagnósticos na população em (...truncated)


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Alessandra Spedo Focosi, Rosane Mantilla de Souza. O mapa da dor crônica na internet: um estudo exploratório, Revista Dor, 2016, pp. 101-105, Volume 17, Issue 2, DOI: 10.5935/1806-0013.20160024