Ofício "impossível"? Uma piada inesgotável
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DOI XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
OFÍCIO “IMPOSSÍVEL”?
UMA PIADA INESGOTÁVEL1
Mireille Cifali*
RESUMO: A autora analisa a expressão “ofício impossível” tal como aparece em dois textos de Sigmund Freud: seu “Prefácio à ‘Juventude desorientada’ de Aichhorn” (1925) e
“Análise terminável e interminável” (1937). Em seguida, elabora uma interpretação atual
à expressão freudiana, entendendo-a como piada, na associação aos três ofícios: governar, curar e educar. Aborda ainda três aspectos talvez cruciais para o futuro: o poder, a
clínica e a ética.
Palavras-chave: Ofício Impossível; Poder; Clínica; Ética
"IMPOSSIBLE PROFESSION"? AN INEXHAUSTIBLE JOKE"
ABSTRACT: The author analyzes the term "impossible professions", of the two texts by
Sigmund Freud: the "Preface to Aichhorn's Wayward youth" (1925) and "Analysis terminable and interminable" (1937). She produces a current interpretation to the Freudian
expression: a joke linked to the three impossible professions: to govern, to cure and to
educate. She also addresses three possibly crucial aspects to the future: power, medical
practice and ethics.
Keywords: Impossible Professions; Power; Medical Practice; Ethics
*
Professora Doutora de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra,
Suíça. E-mail:
Educação em Revista | Belo Horizonte | v. 25 | n. 01 | p. 149-164 | abr. 2009
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Na educação, não é incomum ouvir de passagem a expressão:
“ofício impossível”. Tudo então parece ser dito: o fracasso, o desânimo, a
desilusão, o sofrimento, o desamparo... Hoje, alguns afirmam: “esse ofício
tornou-se impossível”. Não que ele tenha sido, mas tornou-se assim no
nosso cotidiano tardio do fim do século XX. Invocam-se as condições de
ensino: um saber barato, as circunstâncias sociais, as deserções, as recusas
e a complexidade de crenças que se enfrentam. Especificam também que
agora ensinar é uma tarefa bastante árdua. É inútil lutar contra isso, melhor é fazer apenas o que se deve e não se esgotar com a nostalgia de um
tempo em que foi ainda possível desenvolver um grupo para transmitir
conhecimento. As condições não estão reunidas, apesar da coragem e do
desejo, os gestos se paralisam e o projeto fracassa. Tal fracasso seria hoje
programado e se resumiria nesse fulgurante “impossível”. Hesita-se, contudo: ou é um adjetivo que sela a verdade de uma situação que irá bloquear qualquer iniciativa ou é signo de uma renúncia parcialmente ilegítima? O impossível é também a que tende qualquer criação, o desafio colocado aí para fazê-lo mentir. Confrontar-se com ele não é criar uma oportunidade para ir além do que é que se pensa ser capaz de alcançar? Então,
entre “nada é impossível”, que significa a nossa onipotência, e “nada é
possível”, que assinala a nossa impotência, continua a ser uma área em
que se possa compreender e agir.
Mas primeiro vamos voltar à origem dessa expressão para, em
seguida, abordá-la na atualidade.
1. UMA HISTÓRIA FREUDIANA
Muitos indícios nos levam a crer que essa expressão pertence à
obra de Freud. Em 1986, trabalhei a sua origem no V Encontro Psicanalítico de Aix-en-Provence, que, depois, deu origem a um livro intitulado
Les trois métiers impossibles2. Repito aqui uma pequena parte da minha argumentação de então a propósito de dois textos em que Freud utiliza essa
expressão: seu “Prefácio à ‘Juventude desorientada’ de Aichhorn” (1925)
e “Análise terminável e interminável” (1937).
1.1. Textualmente
No seu prefácio à Aichhorn, Freud constata que “nenhuma das
aplicações da psicanálise excitou tanto interesse e tantas esperanças, e nenhuma, por conseguinte, atraiu tantos colaboradores capazes quanto seu
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emprego na teoria e na prática da educação”.3 Desejando explicar em que
Freud havia contribuído para o campo até aquele momento, ele escreveu:
“Minha cota pessoal nessa aplicação da psicanálise foi muito leve. Em um
primeiro estágio, aceitei o bon mot que estabelece existirem três profissões
(ofícios) impossíveis — educar, curar e governar —, e eu já estava inteiramente ocupado com a segunda delas. Isso, contudo, não significa que
desprezo o alto valor social do trabalho realizado por aqueles de meus
amigos que se empenham na educação”.
Freud, particularmente, não explicita suas fontes: ele reconhece
que a idéia dos três ofícios impossíveis não provém dele, ainda que tenha
dessa idéia se apropriado de boa vontade, mas apaga qualquer indicação
quanto ao autor do qual se aproxima. Outra obscuridade: o momento em
que Freud toma para si a frase de um outro. Ele se utiliza do advérbio
frühzeitig. A primeira tradução francesa propõe: “há muito tempo”; a última, “muito cedo”; e a inglesa, “numa fase precoce” (at an early stage, no
original). Frühzeitig significa, literalmente, “em tempo”. Freud tem 69 anos
de idade quando emprega o termo. Nessa época, ele remete a este “muito
cedo”, que evoca a fórmula mágica dos contos de um tempo longínquo
de que não consegue se lembrar? Eu jamais encontrei uma marca escrita
dessa primeira vez e as circunstâncias que a presidiram. A origem temporal da famosa frase está escondida. Possuímos, no entanto, uma informação suplementar: o pensamento dos ofícios “impossíveis” acompanha
Freud em boa parte da sua vida; ele se manteve fielmente fixado a este
frühzeitig até 1925, e mesmo até 1937.
Freud, por outro lado, usa o termo Scherzwort, que foi traduzido
em francês como “palavra divertida” (mot plaisant), “boa palavra” (bon mot)
ou “piada” (boutade).4 É necessário, com efeito, ouvi-lo no registro da
piada, quer dizer, não de modo muito sério, ou acentuar o seu lado cômico, ao tomá-la como uma dessas palavras engraçadas e espirituosas com
que Freud, com razão, nos revelou e ao quanto elas têm relação com o
inconsciente? De um lado, uma possível redução, de outro, um fundo de
verdade. Cada um interpretará segundo o que deseja ou não atenuar a
escolha freudiana do impossível, muito embora eu prefira, de longe, o
efeito de uma verdade do cômico.
1.2. “Quase parece”
Com efeito, não é tanto a formulação de 1925 que a posteridade
retomou e comentou, mas aquela contida no artigo “Análise terminável e
interminável” que Freud publicou em 1937. Em língua francesa, esse
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texto aparece desde 1939 na Revue française de la psychanalyse. Até muito
recentemente, essa primeira tradução, realizada por Anne Berman, foi a
referência para o mundo francófono. Ei-la: “Parece que a psicanálise é a
terceira destas profissões ‘impossíveis’, em que você pode ter certeza de
antemão do fracasso, os outros dois, há bem mais tempo conhecidos, são
a arte de educar e a arte de governar”. É a palavra “fracasso”, combinada
com a palavra “impossível”, que tem atraído atenção.
Se consultarmos o texto em alemão e uma nova tradução francesa, podemos constatar pequenas alterações. Freud teria antes escrito:
“Quase parece, contudo, que a análise é a terceira d (...truncated)