Ofício "impossível"? Uma piada inesgotável

Educação em Revista, Jan 2009

The author analyzes the term "impossible professions", of the two texts by Sigmund Freud: the "Preface to Aichhorn's Wayward youth" (1925) and "Analysis terminable and interminable" (1937). She produces a current interpretation to the Freudian expression: a joke linked to the three impossible professions: to govern, to cure and to educate. She also addresses three possibly crucial aspects to the future: power, medical practice and ethics.

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Ofício "impossível"? Uma piada inesgotável

149 DOI XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX OFÍCIO “IMPOSSÍVEL”? UMA PIADA INESGOTÁVEL1 Mireille Cifali* RESUMO: A autora analisa a expressão “ofício impossível” tal como aparece em dois textos de Sigmund Freud: seu “Prefácio à ‘Juventude desorientada’ de Aichhorn” (1925) e “Análise terminável e interminável” (1937). Em seguida, elabora uma interpretação atual à expressão freudiana, entendendo-a como piada, na associação aos três ofícios: governar, curar e educar. Aborda ainda três aspectos talvez cruciais para o futuro: o poder, a clínica e a ética. Palavras-chave: Ofício Impossível; Poder; Clínica; Ética "IMPOSSIBLE PROFESSION"? AN INEXHAUSTIBLE JOKE" ABSTRACT: The author analyzes the term "impossible professions", of the two texts by Sigmund Freud: the "Preface to Aichhorn's Wayward youth" (1925) and "Analysis terminable and interminable" (1937). She produces a current interpretation to the Freudian expression: a joke linked to the three impossible professions: to govern, to cure and to educate. She also addresses three possibly crucial aspects to the future: power, medical practice and ethics. Keywords: Impossible Professions; Power; Medical Practice; Ethics * Professora Doutora de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra, Suíça. E-mail: Educação em Revista | Belo Horizonte | v. 25 | n. 01 | p. 149-164 | abr. 2009 150 Na educação, não é incomum ouvir de passagem a expressão: “ofício impossível”. Tudo então parece ser dito: o fracasso, o desânimo, a desilusão, o sofrimento, o desamparo... Hoje, alguns afirmam: “esse ofício tornou-se impossível”. Não que ele tenha sido, mas tornou-se assim no nosso cotidiano tardio do fim do século XX. Invocam-se as condições de ensino: um saber barato, as circunstâncias sociais, as deserções, as recusas e a complexidade de crenças que se enfrentam. Especificam também que agora ensinar é uma tarefa bastante árdua. É inútil lutar contra isso, melhor é fazer apenas o que se deve e não se esgotar com a nostalgia de um tempo em que foi ainda possível desenvolver um grupo para transmitir conhecimento. As condições não estão reunidas, apesar da coragem e do desejo, os gestos se paralisam e o projeto fracassa. Tal fracasso seria hoje programado e se resumiria nesse fulgurante “impossível”. Hesita-se, contudo: ou é um adjetivo que sela a verdade de uma situação que irá bloquear qualquer iniciativa ou é signo de uma renúncia parcialmente ilegítima? O impossível é também a que tende qualquer criação, o desafio colocado aí para fazê-lo mentir. Confrontar-se com ele não é criar uma oportunidade para ir além do que é que se pensa ser capaz de alcançar? Então, entre “nada é impossível”, que significa a nossa onipotência, e “nada é possível”, que assinala a nossa impotência, continua a ser uma área em que se possa compreender e agir. Mas primeiro vamos voltar à origem dessa expressão para, em seguida, abordá-la na atualidade. 1. UMA HISTÓRIA FREUDIANA Muitos indícios nos levam a crer que essa expressão pertence à obra de Freud. Em 1986, trabalhei a sua origem no V Encontro Psicanalítico de Aix-en-Provence, que, depois, deu origem a um livro intitulado Les trois métiers impossibles2. Repito aqui uma pequena parte da minha argumentação de então a propósito de dois textos em que Freud utiliza essa expressão: seu “Prefácio à ‘Juventude desorientada’ de Aichhorn” (1925) e “Análise terminável e interminável” (1937). 1.1. Textualmente No seu prefácio à Aichhorn, Freud constata que “nenhuma das aplicações da psicanálise excitou tanto interesse e tantas esperanças, e nenhuma, por conseguinte, atraiu tantos colaboradores capazes quanto seu Educação em Revista | Belo Horizonte | v. 25 | n. 01 | p. 149-164 | abr. 2009 151 emprego na teoria e na prática da educação”.3 Desejando explicar em que Freud havia contribuído para o campo até aquele momento, ele escreveu: “Minha cota pessoal nessa aplicação da psicanálise foi muito leve. Em um primeiro estágio, aceitei o bon mot que estabelece existirem três profissões (ofícios) impossíveis — educar, curar e governar —, e eu já estava inteiramente ocupado com a segunda delas. Isso, contudo, não significa que desprezo o alto valor social do trabalho realizado por aqueles de meus amigos que se empenham na educação”. Freud, particularmente, não explicita suas fontes: ele reconhece que a idéia dos três ofícios impossíveis não provém dele, ainda que tenha dessa idéia se apropriado de boa vontade, mas apaga qualquer indicação quanto ao autor do qual se aproxima. Outra obscuridade: o momento em que Freud toma para si a frase de um outro. Ele se utiliza do advérbio frühzeitig. A primeira tradução francesa propõe: “há muito tempo”; a última, “muito cedo”; e a inglesa, “numa fase precoce” (at an early stage, no original). Frühzeitig significa, literalmente, “em tempo”. Freud tem 69 anos de idade quando emprega o termo. Nessa época, ele remete a este “muito cedo”, que evoca a fórmula mágica dos contos de um tempo longínquo de que não consegue se lembrar? Eu jamais encontrei uma marca escrita dessa primeira vez e as circunstâncias que a presidiram. A origem temporal da famosa frase está escondida. Possuímos, no entanto, uma informação suplementar: o pensamento dos ofícios “impossíveis” acompanha Freud em boa parte da sua vida; ele se manteve fielmente fixado a este frühzeitig até 1925, e mesmo até 1937. Freud, por outro lado, usa o termo Scherzwort, que foi traduzido em francês como “palavra divertida” (mot plaisant), “boa palavra” (bon mot) ou “piada” (boutade).4 É necessário, com efeito, ouvi-lo no registro da piada, quer dizer, não de modo muito sério, ou acentuar o seu lado cômico, ao tomá-la como uma dessas palavras engraçadas e espirituosas com que Freud, com razão, nos revelou e ao quanto elas têm relação com o inconsciente? De um lado, uma possível redução, de outro, um fundo de verdade. Cada um interpretará segundo o que deseja ou não atenuar a escolha freudiana do impossível, muito embora eu prefira, de longe, o efeito de uma verdade do cômico. 1.2. “Quase parece” Com efeito, não é tanto a formulação de 1925 que a posteridade retomou e comentou, mas aquela contida no artigo “Análise terminável e interminável” que Freud publicou em 1937. Em língua francesa, esse Educação em Revista | Belo Horizonte | v. 25 | n. 01 | p. 149-164 | abr. 2009 152 texto aparece desde 1939 na Revue française de la psychanalyse. Até muito recentemente, essa primeira tradução, realizada por Anne Berman, foi a referência para o mundo francófono. Ei-la: “Parece que a psicanálise é a terceira destas profissões ‘impossíveis’, em que você pode ter certeza de antemão do fracasso, os outros dois, há bem mais tempo conhecidos, são a arte de educar e a arte de governar”. É a palavra “fracasso”, combinada com a palavra “impossível”, que tem atraído atenção. Se consultarmos o texto em alemão e uma nova tradução francesa, podemos constatar pequenas alterações. Freud teria antes escrito: “Quase parece, contudo, que a análise é a terceira d (...truncated)


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Mireille Cifali. Ofício "impossível"? Uma piada inesgotável, Educação em Revista, 2009, pp. 149-164, Volume 25, Issue 1, DOI: 10.1590/S0102-46982009000100008