Filantropia e política de assistência às famílias de doentes de lepra em Goiás, 1920-1962
Filantropia e política de assistência às famílias de doentes de lepra em Goiás, 1920-1962
Filantropia e política de
assistência às famílias
de doentes de lepra em
Goiás, 1920-1962
Philanthropy and welfare
policies for the families of
people with leprosy in the
Brazilian state of Goiás,
1920-1962
SILVA, Leicy Francisca da. Filantropia
e política de assistência às famílias de
doentes de lepra em Goiás, 1920-1962.
História, Ciências, Saúde – Manguinhos,
Rio de Janeiro, v.23, n.2, abr.-jun. 2016,
p.321-340.
Resumo
O artigo analisa a constituição do
problema da assistência às famílias de
doentes de lepra e, especialmente, aos
seus filhos, no estado de Goiás, região
Centro-Oeste do Brasil, no período de
1920 a 1962. Enfatiza o processo de
constituição dos discursos que definem
como problema a assistência médica
e filantrópica aos filhos dos isolados
em leprosários, e como tal processo
desemboca na organização da Sociedade
de Assistência ao Lázaro e Defesa Contra
a Lepra, e na edificação do Preventório
Afrânio de Azevedo em Goiânia,
capital do estado. Esses elementos estão
diretamente inseridos no processo de
construção de novo quadro da história
regional e de política médica e social para
a lepra.
Palavras-chave: história; assistência
social; lepra; Goiás; Brasil.
Abstract
Leicy Francisca da Silva
Professora, Departamento de História/Universidade Estadual de Goiás;
pesquisadora, Grupo de Pesquisa História do Cerrado Brasileiro/CNPq.
Rua 35, 436 – Setor Sul
76380-000 – Goianésia – GO – Brasil
This article analyzes the root causes of the
shortage of social support for the relatives of
people with leprosy, especially their children,
in the state of Goiás, Central West region of
Brazil, between 1920 and 1962. It focuses
on the constitution of discourses that defined
the medical and philanthropic care for the
children of people isolated in leper colonies
as a problem, and how this process resulted
in the organization of the Society for the
Welfare of Lepers and Defense Against
Leprosy, and the construction of Afrânio de
Azevedo children’s home in Goiânia, the
state capital. These elements are directly
associated with the construction of a new
approach in the regional history and social
and medical policies for leprosy.
Keywords: history; social welfare; leprosy;
Goiás; Brazil.
Recebido para publicação em novembro de 2013.
Aprovado para publicação em maio de 2014.
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702015005000012
v.23, n.2, abr.-jun. 2016, p.321-340
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Leicy Francisca da Silva
N
o estado de Goiás, na região Centro-Oeste do Brasil, as famílias dos doentes de lepra
se transformam em problema social, e a sua assistência em problema político no
momento em que a doença é popularizada como contagiosa, os doentes como sujeitos
ao isolamento em instituições coloniais, e os filhos (em sentido estrito e a família em
senso largo) como o mais susceptível agente de transmissão. Tal deslocamento se inicia
na passagem do século XIX para o XX; no entanto, por meio dos discursos analisados, de
conteúdo médico e político, podemos perceber que é posteriormente à década de 1920
que tal fenômeno recrudesce. O ápice desses procedimentos isoladores ocorre com a inauguração da Colônia Santa Marta em Goiânia, capital do estado, em abril de 1943, e do
Preventório Afrânio de Azevedo no final do mesmo ano. Neste artigo interessa perceber
como tais transformações se processam e como se estabelecem no cotidiano institucional
os reflexos dessa prática de poder-saber.
No século XIX, dentro da concepção miasmática, o leproso é, nos discursos médicos e
políticos, uma preocupação para o espaço urbano, que precisava ser purificado de todo risco
de desordem. Na segunda metade desse século, o contágio era questionado pelo conhecimento
médico (Andrade, 2005), e a exclusão dos doentes, como mecanismo de ação médica, era
a principal ação governamental empreendida (Foucault, 1979, p.88). Esses indivíduos se
agrupavam em leprosários ou optavam pela vida errante, dependendo da caridade religiosa
ou particular para a manutenção de sua existência e/ou de suas famílias.
Na virada para o século XX, no entanto, ocorrem transformações referentes ao
conhecimento acerca do contágio e da infecção, sendo que os interesses dos pesquisadores
se situaram, a partir da constituição da microbiologia, na preocupação em relação aos modos
de entrada da doença no corpo (Delaporte, 2004). A compreensão de contágio/infecção, a
constituição de um novo conceito da doença (a partir das pesquisas de Amauer Hansen) e
a redefinição da ideia do contágio como um risco amplo e iminente levam à reconstrução das
políticas de prevenção e tratamento do doente. A novidade se apresenta na construção de um
aparato profilático voltado para a proteção dos sãos, de um novo modelo institucional para
isolamento dos doentes1 e de atenção aos filhos dos atingidos (Costa, 2007; Cunha, 2005;
Curi, 2002; Maciel, 2007; Olinto, 2002; Monteiro, 1995). Em 1890, o Relatório da Inspetoria
de Higiene do Estado de Goiás apresenta um discurso médico que expõe esse deslocamento
do conhecimento sobre a doença e a imagem da família como um campo aberto para o
desenvolvimento daquela “semente patológica”:
Não ignorais que há no Brasil infelizmente, uma moléstia iminentemente contagiosa – a morfeia – contra a qual os recursos terapêuticos têm-se mostrado impotentes
para subjugá-la. Grassando intensamente em outros estados como Minas Gerais e São
Paulo, a morfeia ultimamente tem-se desenvolvido entre nós de um modo espantoso.
Os indivíduos afetados dessa destruidora enfermidade têm ingresso no seio das famílias
que, ou por ignorar o perigo, ou desprezá-lo, nenhuma precaução tomam para evitá-la, de
sorte que essa semente patológica nenhum obstáculo encontra no seu desenvolvimento.
Afastar a estes indivíduos, segregá-los da sociedade, dando-lhes porém as acomodações
necessárias às suas míseras condições, eis o que a ciência aconselha para vedar-se o
desenvolvimento do mal (Relatório…, jan. 1890, p.1).
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História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
Filantropia e política de assistência às famílias de doentes de lepra em Goiás, 1920-1962
Essas transformações se materializam a partir da década de 1920, quando a Inspetoria de
Profilaxia da Lepra, das Doenças Venéreas e do Câncer atuava em Goiás por intermédio da
Diretoria de Saneamento Rural. As atividades afirmadas pela legislação (decreto 16.300, de
31 de dezembro de 1923, artigo 445, inciso X; e Regulamento do Departamento Nacional
de Saúde Pública) consistiam na notificação compulsória e no isolamento dos doentes de
lepra, na vigilância sanitária dos suspeitos, na proibição do trabalho e trânsito dos doentes,
e na educação higiênica da população em geral (Santos, Faria, Menezes, 2008; Cunha, 2005).
A lei indicava ainda a “assistência pecuniária aos leprosos isolados ou às suas famílias;
proibição da amamentação natural pelas mulheres leprosas; ... e segregação imediata dos
filhos nascidos de pais leprosos” (...truncated)