Smallpox, vaccine prevention and the bioterrorism threat
VARÍOLA E SUA PREVENÇÃO VACINAL
Artigo de Revisão
VARÍOLA, SUA PREVENÇÃO VACINAL E AMEAÇA COMO
TERRORISMO
AGENTE DE BIO
BIOTERRORISMO
GUIDO CARLOS L EVI*, ESPER GEORGES K ALLÁS
Serviço de Moléstias Infecciosas Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo
e Laboratório de Imunologia - Disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias
Escola Paulista de Medicina / Universidade Federal de São Paulo
RESUMO – Com a ameaça internacional do bioterrorismo, a
varíola voltou a ganhar destaque mundial. Os autores revisam
aspectos da varíola e trazem considerações atuais da utilização do agente como arma biológica. Também apresentam
INTRODUÇÃO
Quando a varíola e sua prevenção vacinal
pareciam destinadas a serem incluídas somente nos textos de história da medicina, a ameaça
do emprego do vírus causador da doença
como arma de bioterrorismo trouxe novamente à tona o interesse pelo assunto, em
particular para as novas gerações, que iniciaram sua prática clínica após a erradicação dessa
patologia. É importante rever esses tópicos,
com a finalidade de informar aqueles que nunca vivenciaram a varíola e refrescar a memória
daqueles que, felizmente, já há três décadas
deixaram de ver pacientes com a doença. O
objetivo desta revisão é, portanto, auxiliar no
reconhecimento desta doença, familiarizar os
leitores com os avanços na obtenção e desenvolvimento de vacinas preventivas, e trazer
para discussão a recente ameaça da varíola ser
utilizada como arma biológica.
HISTÓRICO
A varíola é uma doença conhecida desde a antiguidade. Como não existem reservatórios animais nem portadores humanos,
sua persistência depende da transmissão
contínua entre seres humanos. Por isso,
especula-se que deve ter emergido após os
primeiros assentamentos agrícolas, por volta de 10.000 anos a.C. 1. Paschen descreve
evidência de varíola na China cerca de 1700
*Correspondência:
Alameda Jaú 759 – Cep: 01420-001 – São Paulo – SP
Tel: (11) 288 4266 – fax: (11) 288-5836
Rev Assoc Med Bras 2002; 48(4): 357-62
dados dos esforços atuais na produção e desenvolvimento de
vacinas contra a doença.
UNITERMOS: Varíola. Vacina. Bioterrorismo.
anos a.C., e Haeser acredita que descrições
de doença exantemática na Índia antiga possam corresponder a esta patologia. No entanto, as evidências mais seguras vêm de
múmias da 18 a dinastia egípcia (1580-1350
a.C.), e a cabeça mumificada do faraó
Ramses V (ao redor de 1160 a.C.) mostra
lesões compatíveis com essa doença. Parece ter permanecido ausente da Europa nos
períodos grego e romano clássico, embora
haja descrição de Tucidides de ocorrência
em Atenas cerca de 430 a.C. e Diodorus
Siculus descreve doença similar atacando o
exército cartaginês no cerco de Siracusa em
396 a.C. No quarto século d.C. surgem
descrições escritas na China. No sexto século d.C. era comum no norte da África, de
onde teria passado à França, causando epidemia descrita pelo bispo Gregório, de
Tours, em 581 d.C.
Por volta do século 10 d.C. já existiam
hospitais no Japão para o isolamento de pacientes com varíola. Nessa época, a doença era
comum em todo o Oriente Próximo. Reintroduções na Europa ocorreram com o retorno das cruzadas, e a invasão mongol levou
a nova disseminação em massa. Para ressaltar
a importância da doença no continente europeu, bastaria citar que no final do século 18
morriam de varíola cerca de 400.000 pessoas
por ano, e um terço dos casos de cegueira era
secundário a seqüelas da doença2.
Sua introdução no Novo Mundo foi catastrófica. Com a chegada dos espanhóis ao México, cerca de três milhões de nativos morreram de varíola. Graves epidemias dizimaram
tribos ameríndias e contribuíram decisivamen-
te para o colapso dos impérios asteca e inca1.
É possível afirmar que na metade do século 16 o mundo todo já estava infectado, e, se
não fosse o aparecimento da vacinação, a varíola seria um pesadelo recorrente a cada nova
geração até os dias de hoje3.
O nome varíola foi usado pela primeira vez
no século seis d.C. pelo bispo suiço Marius de
Avenches, derivando o termo do latim varius
(manchado) ou varus (espinha). Já no mundo
anglo-saxão, ao redor do século 10, o termo
poc ou poccca descrevia doença exantemática,
talvez a varíola. Daí em diante, relatos ingleses
usam o termo pockes. O prefixo small foi
adicionado no final do século 15 para diferenciar essa doença da sífilis, que era a greatpox4.
Na França, a varíola foi chamada de petite
vérole, e na Alemanha de pocken5.
O agente e meios de transmissão
A varíola é causada por um vírus que
possui material genético constituído por DNA,
do gênero ortopoxvírus, família poxviridae. Ao
microscópio óptico, após coloração pela
fucsina, apresenta-se sob forma de granulações finas, os corpúsculos de Paschen. Ao
microscópio eletrônico tem forma cilíndrica,
assemelhando-se a um pequeno tijolo de 230
por 300 nm6.
Pode permanecer viável muitos meses no
meio ambiente. Seu efeito patogênico é atenuado pelo envelhecimento, pela exposição à luz
natural e, rapidamente, pelo calor, perdendo
seu poder infectante em 30 a 60 minutos à
temperatura de 56oC.
O contágio se dá, na grande maioria das
vezes, pela inalação de gotículas contendo o
357
LEVI GC ET AL.
vírus em suspensão, eliminadas pela mucosa
oral, nasal ou faríngea dos pacientes com a
doença. Embora o vírus esteja presente em
grandes quantidades em crostas infectadas,
este mecanismo de transmissão é menos freqüente. Pode haver também infecção aérea à
distância ou pelo manuseio de roupas, lençóis
e cobertores contaminados, embora essas
duas modalidades sejam pouco comuns. No
entanto, como curiosidade, no período colonial norte-americano, foram provocadas epidemias em indígenas presenteando-os com
cobertores usados previamente em pacientes
com varíola.
Quadro clínico e diagnóstico
O período de incubação médio é de 12
dias, variando de 7 a 14 dias. O início dos
sintomas é abrupto, com febre muito alta,
cefaléia, calafrios, dores nas costas, com
duração de dois a quatro dias, surgindo a
seguir a erupção, como vemos na Figura 1.
Esta se inicia com máculas na face, que
evoluem rapidamente para pápulas e, em
alguns dias, para vesículas contendo líquido límpido e cercadas por halo eritematoso regular. Ao redor do sexto dia, as
vesículas evoluem para pústulas, sendo
ambos tipos de lesões geralmente umbelicadas e de centro mais escuro 6.
As lesões são uniformes e de mesmo
estadio evolutivo. São profundas, endurecidas
e de distribuição centrífuga. Estas características permitem o diagnóstico diferencial com a
varicela, que apresenta lesões centrípetas,
mais superficiais e com polimorfismo regional,
ou seja, numa mesma área são observados
diferentes estadios evolutivos.
Ao redor do nono ao décimo dia as lesões
evoluem para crostas, a febre regride e o
estado geral melhora bastante. No entanto,
são necessários mais sete a 10 dias para a
queda das crostas. Áreas hipopigmentadas
podem persistir por um longo tempo, havendo freqüentemente cicatrizes profundas na
face e, mais raramente, em outras partes do
corpo. Exist (...truncated)