Auditory processing in stutterers: performance of right and left ears
Artigo Original
Processamento auditivo em gagos: análise do desempenho das orelhas
direita e esquerda
Auditory processing in stutterers: performance of right and left ears
Adriana Neves de Andrade1, Daniela Gil2, Ana Maria Schiefer3, Liliane Desgualdo Pereira4
Resumo
Objetivo: Comparar a diferença entre as orelhas nos testes comportamentais do processamento auditivo e os resultados de sujeitos
com diferentes graus de gravidade de gagueira em cada teste do processamento auditivo. Métodos: Cinqüenta e seis indivíduos, com
idades entre quatro e 34 anos, foram encaminhados pelo Ambulatório de Avaliação Fonoaudiológica da UNIFESP para avaliação
comportamental do processamento auditivo. Todos os pacientes foram submetidos à avaliação de audição, fala e linguagem. A disfluência foi classificada segundo o protocolo de Riley (1994), o qual prevê os seguintes graus de gravidade da gagueira: muito leve,
leve, moderado, severo e muito severo. Os testes para avaliação do processamento auditivo foram selecionados e analisados de acordo
com a idade do paciente e a proposta de Pereira & Schochat (1997). Resultados: Observamos prevalência da gagueira de grau leve
nas faixas etárias de quatro a sete anos e de 12 a 34 anos de idade, e de grau moderado nos indivíduos de oito a 11 anos de idade. Dos
56 indivíduos avaliados 92,85% apresentaram alteração do processamento auditivo. Houve diferença estatisticamente significante
entre as orelhas direita e esquerda na etapa de atenção direcionada do teste dicótico não verbal, em todas as faixas etárias estudadas.
Não foram encontradas diferenças significativas entre os graus de gravidade da gagueira em nenhum dos testes de processamento
auditivo. Conclusões: A orelha direita apresentou melhor desempenho do que a esquerda nos diferentes testes comportamentais. O
grau de gravidade da gagueira não interferiu no resultado de cada teste.
DESCRITORES: Gagueira; Transtornos da percepção auditiva; Audição; Transtornos da fala
Introdução
A fluência verbal pode ser definida como a fala de fluxo
contínuo e suave decorrente de uma integração harmônica
entre os processamentos neurais envolvidos na linguagem e
no ato motor(1-2).
Para que a fala seja fluente os sistemas simbólicos e de
sinais, devem estar equilibrados temporalmente antes que a
mensagem gerada chegue ao córtex motor(3). Se estes sistemas
desequilibram-se o fluxo da fala é temporariamente rompido,
Este trabalho foi realizado no Ambulatório de Avaliação do Processamento
Auditivo da Disciplina dos Distúrbios da Audição do Departamento de
Fonoaudiologia da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São
Paulo (SP), Brasil.
(1) Pós-graduanda em Distúrbios da Comunicação Humana - Campo Fonoaudiológico da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo
(SP), Brasil.
(2) Doutora, Professora Adjunto do Departamento de Fonoaudiologia da
Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.
(3) Doutora; Professora Adjunto do Departamento de Fonoaudiologia da
Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.
(4) Doutora, Professora Adjunto do Departamento de Fonoaudiologia da
Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – São Paulo (SP), Brasil.
Endereço para correspondência: Adriana Neves de Andrade. R. São Francisco, 498, Santo Antônio, São Caetano do Sul – SP, CEP 09530-050. E-mail:
Recebido em: 21/6/2007; Aceito em: 16/12/2007
Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2008;13(1):20-9
gerando as disfluências(4).
Assim, a disfluência é um distúrbio que ocorre no momento da produção da fala, na qual o falante se depara com
um impedimento que o impossibilita, momentaneamente, de
produzir a palavra que deseja falar(5).
Existe uma redução na habilidade de produção dos padrões
de percepção auditiva em indivíduos gagos, quando comparados aos não gagos(6). A imprecisão temporal na percepção
de fala pode levar a momentos de disfluência e a diminuição
das habilidades de processamento pode estar relacionada à
incapacidade de manutenção da fala fluente(7-8).
Denominamos processamento auditivo (PA) o conjunto
de habilidades específicas das quais o indivíduo depende para
interpretar o que ouve(9). Quando o indivíduo perde parcialmente ou totalmente a função da análise das imagens auditivas,
estamos diante de um distúrbio do processamento auditivo.
O PA pode ser um dos fatores que contribuem para a produção do discurso disfluente no nível da produção da sílaba. A
relação entre a fluência verbal e a alteração do processamento
auditivo não é um fenômeno relacionado somente à gagueira
ou não gagueira, mas também um fenômeno normal de fluência
e não fluência(10).
Existe a hipótese de que os indivíduos com gagueira
possuem alteração na dominância cerebral da função da
linguagem. Investigações realizadas sobre o desempenho das
Processamento auditivo em gagos
orelhas direita e esquerda em testes comportamentais do PA
em indivíduos gagos e não gagos, não revelaram diferenças
entre os grupos estudados e nem entre os graus de gravidade
da gagueira e alterações do PA, apesar do desempenho dos
indivíduos gagos ter sido discretamente pior em comparação
com os não gagos. Desta forma, não foi possível concluir sobre
diferenças entre a dominância cerebral hemisférica para a fala,
habilidades receptivas e a gagueira(11).
Tendo em vista a correlação entre o processamento auditivo
e a gagueira, este estudo tem por objetivos:
Comparar a diferença entre as orelhas direita e esquerda
nos testes comportamentais do processamento auditivo em
indivíduos gagos.
Comparar os resultados de cada teste do processamento
auditivo com o grau de gravidade da gagueira.
Métodos
Este trabalho foi analisado e aprovado pelo comitê de ética
em pesquisa da Universidade Federal de São Paulo sob o nº
0745/05. Realizou-se um estudo retrospectivo por meio do
levantamento de prontuários de 56 indivíduos com alteração da
fluência da fala, avaliados durante o período de 1999 a 2005,
no ambulatório de Avaliação e Diagnóstico Fonoaudiológico
da Disciplina dos Distúrbios da Comunicação Humana do
Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de
São Paulo e encaminhados para a avaliação comportamental
do Processamento Auditivo na mesma instituição.
Nesta pesquisa, todos os indivíduos foram submetidos à
avaliação fonoaudiológica específica de gagueira, avaliação
audiológica básica e comportamental do processamento auditivo. Analisamos os dados dos protocolos considerando às
variáveis: faixa etária, tipo e grau de disfluência da fala.
Da avaliação fonoaudiológica, utilizamos, para este estudo,
apenas a classificação do grau de gravidade da gagueira, que foi
realizado segundo o Stuttering Severity Instrument for Children
and Adults – SSI-3(12). Este instrumento classifica a gagueira em:
grau muito leve, leve, moderado, severo e muito severo; considerando a freqüência e duração das rupturas da fala, bem como
a presença de concomitantes físicos associados a essas rupturas,
por meio da análise da fala espontânea e leitura (apenas pa (...truncated)