Auditory processing of servicemen exposed to occupational noise
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PROCESSAMENTO AUDITIVO DE MILITARES
EXPOSTOS A RUÍDO OCUPACIONAL
Auditory processing of servicemen exposed to occupational noise
Carla Cassandra de Souza Santos (1), Luiza de Salles Juchem (2), Angela Garcia Rossi (3)
RESUMO
Objetivo: avaliar o processamento auditivo de militares expostos a ruído ocupacional. Métodos:
foram avaliados 41 militares, com exposição a ruído superior a 10 anos, subdivididos em Grupo A
(n =16), sem perda auditiva e Grupo B (n = 25), com perda auditiva. Foram realizadas avaliação
audiológica básica e testes de processamento auditivo (testes de Fala Filtrada, SSW em Português
e de Padrão de Freqüência). Resultados: observou-se altas incidências de alteração de processamento auditivo, especialmente no teste de Fala Filtrada (43,75% e 68% nos grupos A e B, respectivamente) e teste de Padrão de Freqüência (68,75% e 48%, nos grupos A e B, respectivamente).
O teste SSW não se mostrou eficiente para avaliar as habilidades auditivas centrais de indivíduos
expostos a elevados níveis de pressão sonora. Conclusão: a exposição a ruído ocupacional interfere
no processamento auditivo de militares. As alterações na via auditiva central podem ser verificadas
independente da presença de alteração auditiva periférica.
DESCRITORES: Audição; Ruído Ocupacional; Testes Auditivos
■ INTRODUÇÃO
Atualmente, a perda auditiva induzida por ruído
(PAIR) é a segunda maior causa de perda auditiva
neurossensorial, logo após a presbiacusia 1. Tal
patologia é a enfermidade profissional irreversível
de maior ocorrência em todo o mundo 2.
Há bastante tempo, a literatura audiológica tem
mostrado os danos causados à audição pelo ruído
intenso. Em 1890, já era feita a descrição de achados anátomo-patológicos detectados na cóclea e
no nervo coclear de caldeireiros. Foi verificada a
degeneração de células situadas na porção basal
da cóclea 3.
Sabe-se que a PAIR é uma patologia neurossensorial, bilateral e irreversível 4-8. Várias categorias
de profissionais trabalham em locais em que o ruído
é suficientemente intenso para causar uma perda
(1)
Fonoaudióloga; Militar da Aeronáutica; Mestre em Distúrbios da Comunicação Humana pela Universidade Federal
de Santa Maria.
(2)
Fonoaudióloga; Integrante da Clínica Escuta em Santa
Maria – RS; Mestre em Distúrbios da Comunicação
Humana pela Universidade Federal de Santa Maria.
(3)
Fonoaudióloga; Professora adjunta da Universidade Federal de Santa Maria; Doutora em Distúrbios da Comunicação
Humana pela Universidade Federal de São Paulo.
Rev CEFAC, São Paulo, v.10, n.1, 92-103, jan-mar, 2008
auditiva. Em homens expostos a ruído industrial,
por mais de cinco horas por dia por até 35 anos,
foram observadas mudanças ocorridas no limiar
auditivo na freqüência de 4000 Hz em função da
exposição em anos. Ficou evidente que a máxima
mudança ocorreu dos dez aos 12 anos de exposição, independente do nível de ruído 9.
Em mulheres tecelãs expostas a ruído intenso,
foi verificada perda da acuidade auditiva nos primeiros dez a 15 anos de exposição, seguido por um
período de cerca de dez anos na qual a deterioração foi muito pequena 10.
De 300 funcionários de uma usina siderúrgica e
metalúrgica, foram encontradas 34% de audiometrias alteradas. Além disso, muitas queixas auditivas e neuro-vegetativas foram citadas pelos indivíduos, como, por exemplo, 18,3% deles relataram
diminuição da acuidade auditiva para conversação.
Todas as queixas foram mais freqüentes em indivíduos com audiometria alterada e no grupo de trabalhadores com dois a cinco anos de serviço 11.
Metalúrgicos também foram alvos de outro
estudo, sendo todos os avaliados com idade entre
56 e 68 anos e mais de 30 anos de exposição a
ruído intenso. Os resultados mostraram que 52%
dos indivíduos até 62 anos e 67% dos indivíduos
com mais de 62 anos apresentaram perda audi-
O processamento auditivo de militares
tiva severa nas freqüências de 3, 4 ou 6 KHz.
Os testes de discriminação vocal com o uso de
monossílabos no silêncio foram encontrados dentro do padrão de normalidade em quase 100%
da amostra. Os mesmos testes aplicados com
ruído causaram uma diminuição dos índices com
piora de cerca de 20% 12. As alterações auditivas
sugestivas de PAIR em metalúrgicos jovens avaliados por outros autores, totalizaram 21% e 41%
dos avaliados, respectivamente 13,14.
Além da perda auditiva, as pessoas expostas a
ruído ocupacional costumam relatar diversas queixas. Sensação de perda auditiva, dificuldade de
comunicação, zumbido, intolerância a sons intensos
foram algumas queixas encontradas na literatura 15.
Neste estudo, a sensação de perda auditiva mostrou uma nítida progressão, de acordo com o tempo
de exposição a ruído. Houve um aumento considerável na dificuldade de comunicação em indivíduos
que estavam trabalhando expostos a ruído há mais
de 12 anos.
Muitas queixas auditivas, além de um percentual
de 50% de alterações auditivas à audiometria, foram
encontradas em funcionários de seções de manutenção e lavanderia de um hospital 16. Em ex-funcionários de uma indústria de bebidas, onde todos
os avaliados já possuíam perda auditiva neurossensorial, as queixas mais relatadas foram: zumbido
(68,7%), disacusia (62,5%), recrutamento (56,2%)
e dificuldade de compreensão de fala (43,7%) 17.
Os militares constituem o grupo estudado por
diversos autores e sabe-se que esses profissionais
têm alta incidência de perda auditiva 18-20. Pesquisadores avaliaram os perfis auditivos de um grupo de
militares de uma unidade do exército. Foram avaliados 99 sujeitos do sexo masculino, nos quais verificou-se alteração em 38,1% dos traçados audiométricos, sendo a maioria sugestiva de PAIR. A perda
auditiva encontrada foi mais intensa quanto maior a
idade e o tempo de serviço 20.
Os indivíduos que se expõem ao ruído em seus
ofícios, periodicamente devem ser submetidos à
avaliação auditiva. De acordo com NR-7, do Ministério do Trabalho e Emprego 21, o trabalhador deve
ser submetido à audiometria tonal liminar por via
aérea e, em caso de alterações, avaliação por via
óssea e determinação dos limiares de reconhecimento de fala. Com este tipo de avaliação, facilmente, é possível verificar a presença ou não de
PAIR. Esse déficit sensorial tem sido bastante estudado e, nesse caso, o dano auditivo tem sua localização na porção coclear do sistema auditivo 3,6.
Porém, sabe-se que a audição não é apenas
a percepção da presença dos sons. Além disso, a
audiometria tonal é limitada para informar sobre a
capacidade de comunicação dos indivíduos, pois a
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percepção da fala envolve a audição periférica e a
central 22.
Processamento auditivo é o conjunto de habilidades específicas que permitem o indivíduo interpretar o que ouve. Tal habilidade é mediada por
centros auditivos do tronco encefálico e cérebro 23.
As habilidades auditivas ou os processos do sistema auditivo central são:
• fechamento auditivo – capacidade do ouvinte
normal em utilizar redundâncias extrínsecas e
intrínsecas para preencher partes distorcidas ou
ausentes do som ou (...truncated)