The teacher from the movies: identity construction and the teaching profession's significance
Fabrícia Teixeira Borges
A PROFESSORA QUE VEMOS NOS FILMES:
CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA E SIGNIFICADOS
DA DOCÊNCIA
FABRÍCIA TEIXEIRA BORGES*
RESUMO: O presente trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa desenvolvida com professoras, cujo objetivo foi descrever e analisar a construção dos significados da identidade docente mediada
pelas narrativas de histórias de vida, após terem assistido a filmes comerciais acerca de questões cotidianas vivenciadas na escola. A partir
dos pressupostos teóricos da psicologia histórico-cultural (Vigotski,
Luria e Leontiev) e do dialogismo (Bakhtin), notamos que a mediação fílmica permitiu formas originais de se refletir sobre a condição
docente. De fato, a dimensão pedagógica e a cultura escolar atravessam os múltiplos lugares sociais (institucionais) em que a mulherprofessora-mãe atua. A casa e a escola, por exemplo, são espaços que
fazem emergir posicionamentos identitários contraditórios. Nessa linha argumentativa, com base na realização de entrevista e produção
de narrativas, pode-se identificar a relação filme-mulher-identidade
profissional docente como reveladora do tenso modo de atuação e
constituição subjetiva. Assistir e pensar sobre o filme dispara novos
pontos de reflexão sobre o que é ser professora, em específicos contornos culturais.
Palavras-chave: Professora. Identidade. Filmes. Construção de significados. Escola.
*
Doutora em Psicologia e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes (Unit). E-mail:
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Cad. Cedes, Campinas, vol. 32, n. 88, p. 303-317, set.-dez. 2012
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
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A professora que vemos nos filmes: construção identitária e significados da docência
THE TEACHER FROM THE MOVIES: IDENTITY CONSTRUCTION
AND THE TEACHING PROFESSION’S SIGNIFICANCE
ABSTRACT: This paper presents the results of a study about
teachers, the objective was to describe and analyze the construction
of the teacher´s identity significance mediated by the narratives of
life histories, after they had seen the commercial films about everyday issues experienced in school. From the theoretical principles of
cultural-historical psychology (Vygotsky, Luria, Leontiev) and
dialogism (Bakhtin), we noticed that the film mediation allowed
original ways of thinking about being a teacher. In fact, the pedagogical dimension and the school culture cross multiple social locations (institutional) in which the woman-mother-teacher operates. Home and school, for example, are spaces that bring up contradictory identity positions. Thus, based on completion of interview and narrative, one can identify the relationship between
film-woman-professional identity as unveiling of the tension in
the acting and subjectivity constitution. Watching and thinking
about the movie draw forth new material for reflection on what is
it to be a teacher in specific cultural boundaries.
Key words: Teacher. Identity. Films. Significance. School.
Introdução
professora é uma das mediadoras da construção do conhecimento formal, mas também das formas de agir, de entender e de ser.
Ao abordá-la, enfocamos uma pessoa que está em sala de aula
participando da construção do conhecimento formal, mas que se destaca também com outras formas de interações a partir dos significados
culturais dos grupos. Portanto, o objetivo deste trabalho é descrever e
analisar a construção dos significados da identidade docente a partir das
narrativas de histórias de vida, após as professoras terem assistido a filmes comerciais acerca de questões cotidianas vivenciadas na escola.
Ser professora traz concepções históricas e culturais que interagem
com outras identidades sociais, como ser mulher e ser mãe. Ao estudarmos estes aspectos relativos à docência, nos propusemos a entender também como os vários posicionamentos destas relações eram construídos e
como elas eram influenciadas pelos produtos da cultura de massa, em
especial o cinema comercial, principalmente o de língua inglesa.
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Fabrícia Teixeira Borges
O estudo se amparou nas teorias da psicologia histórico-cultural
(Vigotski, 1989, 1998, 2001) que entende o ser humano numa rede de
significados culturais em que ele é ativo e atuante na construção de si
mesmo e na construção da história dos grupos, compondo uma relação
dialógica e dialética de cada um com seu meio social e cultural (Valsiner,
1989, 2006). Nesta teoria, as atividades sociais como as atividades de
lazer e cotidianas, desempenhadas pelos indivíduos, são importantes em
sua relação com o mundo que os rodeia e consigo mesmos. As atividades
que integram os meios de comunicação – como ir ao cinema, assistir à
televisão ou ouvir rádio, por exemplo –, são disseminadoras de cultura e
formadoras de opinião, participando da construção identitária, a partir
do compartilhamento dos significados sociais e culturais presentes nestas atividades.
Quando destacamos a importância da cultura para o desenvolvimento humano e para a produção de significados, partimos de um pressuposto que entende a cultura e o genoma humano como formas que a
pessoa possui para se instruir em uma determinada concepção de (ser)
humano (Bruner, 1998). Nessa linha, este autor destaca que:
(...) a cultura humana, naturalmente, é uma das duas maneiras pelas
quais as “instruções” sobre como os seres humanos devem crescer são
transmitidas de uma geração a uma próxima – a outra é o genoma humano. O ser humano não está livre nem de seu genoma nem de sua cultura. (Bruner, op. cit., p. 141)
Para este autor, as teorias do desenvolvimento humano criaram
modelos de se educar o homem. Tais modelos, que também são construídos a partir de uma cultura humana, influenciam a forma como as
pessoas se educam. Bruner (1997, 2001) destaca ainda que a ação participa da produção de significados e que, ao desempenhar uma atividade,
indica algum conhecimento sobre ela. Sobre o uso de instrumentos, proposto por Vigotski, o autor ressalta que os significados gerados pelos objetos, produzidos historicamente e culturalmente, regulam nossas ações
sobre eles. Os objetos são produtos humanos que geram ações, mas que
geram também significados que participam da reconstrução contínua do
mundo e da humanidade. Assim, de acordo com Borges (2008), os filmes e o cinema são produtos culturais que refletem nossa cultura, formas de agir e de pensar que circulam pelos grupos, promovendo mudanças e reflexões acerca do mundo representado e das realidades vividas.
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