Use of epidermic and granulocyte-colony stimulating growth factors in the prevention and treatment of necrotizing enterocolitis of the newborn
Artigo de Revisão
Uso de fatores de crescimento epidérmico e estimulador de
colônias de granulócitos na prevenção e tratamento da enterocolite
necrosante no recém-nascido
Use of epidermic and granulocyte-colony stimulating growth factors in the prevention and treatment of
necrotizing enterocolitis of the newborn
Dáfne Cardoso B. da Silva1, Camila Quinello1, Denise Amazonas Pires1, Juliana Rodrigues Pinto1, Ana Cláudia Mattar1,
Vera Lucia J. Krebs2, Maria Esther J. R. Ceccon2
Resumo
Abstract
Objetivo: Revisar os conhecimentos existentes em relação
ao uso de fatores de crescimento epidérmico e estimulador de
colônias de granulócitos na prevenção e/ou no tratamento da
enterocolite necrosante (ECN) durante o período neonatal.
Fontes de dados: Revisão da literatura, nas bases de
dados Medline, Lilacs, SciELO e PubMed, utilizando os
unitermos “recém-nascidos”, “enterocolite” e “fatores de
crescimento”, no período de 2003 a 2007. Nesta busca,
49 artigos foram encontrados, sendo 17 pertinentes ao tema.
Também foram utilizados outros artigos, independente do
ano de publicação, relacionados a aspectos definidores da
ECN no recém-nascido.
Síntese dos dados: A ECN continua sendo responsável
por uma elevada morbimortalidade neonatal. Os mecanismos
fisiopatológicos vêm sendo elucidados e, a partir deles, são
discutidas novas terapias, como o uso de fatores de crescimento, destacando-se o fator de crescimento epidérmico e o
fator estimulador de colônias de granulócitos.
Conclusões: O uso de fatores de crescimento no tratamento e prevenção da ECN neonatal parece promissor. É
necessário maior número de ensaios clínicos para comprovar
sua eficácia e segurança. Enquanto isso, a melhor prática
médica continua sendo a prevenção da doença.
Objective: To review the literature regarding the use of
hematopoietic and epidermic growth factors for prevention
or treatment of neonatal necrotizing enterocolitis (NEC).
Data sources: Literature review of Medline, Lilacs,
SciELO and Pubmed databases, using the key-words “newborn”, “enterocolitis” and “growth factors”, from 2003
to 2007. Fourty-nine papers were retrieved, but only 17
related to the subject. Other studies that described some
clinical aspects of enterocolitis were also included, regardless of the year of publication.
Data synthesis: Necrotizing and enterocolitis has been an
important cause of morbidity and mortality in the neonatal
period. As the knowledge about the pathophysiology of this
disease improves, new therapies, such as the administration
of epidermal growth factor and granulocyte colony-stimulating factor, are being discussed.
Conclusions: The use of growth factors for treatment
and prevention of NEC seems promising. However, further
clinics assays are needed to evaluate the effectiveness and
the safety of these growth factors. At this moment, the best
clinical practice is the prevention of the disease.
Palavras-chave: recém-nascido; dietoterapia; fatores de
crescimento; enterocolite necrosante.
Aluna do curso de Pós-graduação Senso Estrito do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP),
São Paulo, SP, Brasil
2
Livre-docente em Pediatria pela FMUSP e orientadora do curso de Pósgraduação Senso Estrito do Departamento de Pediatria da FMUSP, São
Paulo, SP, Brasil
1
Key-words: infant, newborn; diet therapy; growth factors; enterocolitis, necrotizing.
Endereço para correspondência:
Maria Esther J. R. Ceccon
Rua Apiacás, 570, apto. 104 – Perdizes
CEP 05017-020
E-mail:
Recebido em: 1/11/2007
Aprovado em: 24/2/2008
Rev Paul Pediatr 2008;26(2):170-5.
Dáfne Cardoso B. da Silva et al
Introdução
A enterocolite necrosante (ECN) é a doença gastrintestinal mais comum nos recém-nascidos (RN) internados nas
unidades de terapia intensiva, sendo responsável por elevada
morbidade e mortalidade, principalmente em prematuros
com peso de nascimento inferior a 1.500g(1-3).
Sua etiologia parece multifatorial, sendo considerados
como principais fatores de risco a prematuridade, os episódios de diminuição da perfusão do intestino (isquemia
transitória), a composição da dieta administrada ao RN e
a velocidade de progressão da alimentação enteral, além da
colonização bacteriana(4,5).
No início do quadro clínico, o RN apresenta distensão de
alças intestinais, edema, aumento do volume de líquido peritonial e hematoquezia. A camada serosa do intestino mostra-se
edemaciada e recoberta por fibrina. Pode ocorrer necrose da
mucosa em alguns segmentos do intestino que, com o progredir
da doença, passa a comprometer as demais camadas da parede e
maiores extensões do intestino. O segmento mais acometido é
o íleo terminal, seguido pelo cólon e pelo jejuno. Pode também
haver sinais de peritonite, sepse, choque séptico e insuficiência de
múltiplos órgãos. Os microrganismos mais comumente isolados
na ECN são a Klebsiella sp e o Staphylococcus sp(3).
A característica radiológica típica da ECN é a pneumatose
intestinal e a distensão de alças intestinais; em alguns casos,
observa-se pneumoperitôneo e gás no sistema porta. Este
gás é o hidrogênio resultante do metabolismo bacteriano(3).
Bell et al, em 1978, estabeleceram critérios para classificar
os estágios da ECN, adaptados em 1986 e em vigor até os
dias atuais (Quadro 1)(6,7).
Quando a doença evolui para perfuração intestinal, o paciente é, em geral, submetido à laparotomia exploradora, com
ressecção do segmento acometido. Na evolução, pode haver
estenose deste segmento e/ou síndrome do intestino curto.
Esta morbidade responde por comprometimento da qualidade de vida do paciente e por elevado custo de assistência à
saúde. Apesar dos progressos alcançados na terapia intensiva
neonatal, a mortalidade pela ECN não apresentou redução
nos últimos anos e situa-se entre 18 e 45%, dependendo do
grau de prematuridade e da gravidade da doença(4,8).
Devido às elevadas taxas de morbidade e mortalidade, vêm
sendo estudadas novas estratégias de prevenção e tratamento
da ECN, focadas nos possíveis mecanismos fisiopatológicos,
considerando que a imaturidade da motilidade, absorção e
defesa gastrintestinais contribua para o alto risco e aumento
da suscetibilidade das crianças prematuras à ECN.
Devido à associação entre ECN e uso de fórmula na nutrição dos prematuros, a composição biologicamente ativa do
leite materno passou a ser objeto de estudo(9-11). Um grande
número de peptídeos biologicamente ativos foi identificado
em concentrações significativas no colostro e leite humano;
dentre eles, o fator de crescimento epidérmico (EGF), o fator
estimulador de colônias de granulócitos (G-CSF) e a eritropoetina (EPO)(12). Além disso, o líquido amniótico deglutido
pelo feto no último trimestre de gestação também contém
concentrações significativas de fatores de crescimento, que
gradualmente aumentam durante a gestação, alcançando
maiores níveis ao final da gestação a termo(8-10,13-15).
O uso de fatores de crescimento para o tratamento de
doenças gastrintestinais é associado com preocu (...truncated)