Intima-media thickness of common and internal carotid arteries in patients with hepatosplenic schistosomiasis mansoni
Guimarães
Complexo miointimal das carótidas comum e interna em portadores de esquistossomose mansônica
Artigohepatoesplênica
Original
292
Complexo miointimal das carótidas comum e interna em
portadores de esquistossomose mansônica hepatoesplênica
Intima-media thickness of common and internal carotid arteries in patients with
hepatosplenic schistosomiasis mansoni
ANDRÉ VALENÇA GUIMARÃES1; CARLOS TEIXEIRA BRANDT, TCBC-PE2; ADRIANA FERRAZ1
R E S U M O
Objetivo: Avaliar a espessura do complexo miointimal (IMT) das carótidas comum e interna, em portadores de esquistossomose
hepatoesplênica (EHE) não tratados cirurgicamente, já submetidos a cirurgia para descompressão do sistema porta por esplenectomia
e ligadura da veia gástrica esquerda, e comparar com volutários de condições sócio-econômico-ambientais similares, não portadores
de esquistossomose. Métodos: Utilizando aparelho de ultra-som Doppler de 7,5MHz foram mensurados os IMT de três grupos de
voluntários, de ambos os gêneros, com idades que variaram de 20 a 60 anos, sendo avaliados os IMT máximos, IMT médios, IMT
mínimos e seus desvios-padrão, das carótidas comuns e internas e feitas as comparações entre os grupos e suas associações com
fatores de risco: idade, hipertensão arterial e tabagismo. Resultados: Não houve diferença significante na média dos IMT, entre os
lados direito e esquerdo e nem entre os grupos. Nos pacientes tratados cirurgicamente, assim como nos indivíduos-controle
confirmou-se a associação, já conhecida, com os fatores de risco para aterosclerose (idade, hipertensão arterial e tabagismo).
Contudo, não se observou este comportamento nos pacientes não operados. Conclusão: A EHE sem tratamento cirúrgico parece
conferir “alguma proteção” contra a aterogênese em seres humanos; todavia, os achados não dão suporte definitivo a esta
hipótese.
Descritores: Esquistossomose. Aterosclerose. Ultra-som.
INTRODUÇÃO
A
s primeiras manifestações da doença cardiovascular
surgem num estágio avançado da aterosclerose. Mas,
as modificações da parede arterial ocorrem durante período subclínico, caracterizado por progressivo espessamento
do endotélio. Esse órgão endócrino é responsável por processos fisiológicos vitais para a homeostase vascular1.
Havendo fatores de risco, o espessamento
endotelial pode ser identificado já na infância, e pode ser
preditivo de eventos cardiovasculares em adultos2-4. Desde
a descrição inicial anátomo-patológica, vários artigos foram publicados associando as medidas ultra-sonográficas
(espessamento miointimal - parte identificável do endotélio)
com doenças cardiovasculares5.
A precisão, a reprodutibilidade e a rapidez do
ultra-som Doppler têm transformado este método numa
ferramenta poderosa para o diagnóstico precoce, para o
acompanhamento das lesões ateroscleróticas e mesmo na
avaliação de resultados em estudos populacionais6.
Já há vários fatores de risco bem estabelecidos
para a aterosclerose como a hipertensão, a dislipidemia, o
tabagismo e diabetes7. Contudo, há outros fatores que
ainda geram controvérsias com relação ao valor preditivo
dos achados. Entre esses, as infecções bacterianas (C.
pneumoniae, H. pylori), virais (H.simplex, Epstein-Barr.) e
parasitárias (T.cruzi, S.mansoni)8.
A esquistossomose, doença endêmica em várias
regiões do mundo, e de grande prevalência em
Pernambuco, tem sido alvo de pesquisas envolvendo a prevenção, os tratamentos clínico e cirúrgico para diminuir os
efeitos da hipertensão no sistema porta, do hiperesplenismo
e do hipoevolutismo9,10 .
Têm sido mostradas importantes modificações do
perfil lipídico nos portadores da forma avançada da doença11. O que se especula, é se estes achados poderiam produzir efeitos no comportamento do complexo miointimal.
Não há relato na literatura da medida do complexo
miointimal das carótidas de portadores da forma
hepatoesplênica da esquistossomose para fins preditivos de
doença degenerativa arterial, justificando a presente investigação. Por outro lado, não foi investigado se as alterações lipídicas em portadores humanos de esquistossomose
mansônica na forma hepatoesplênica interferem no fenômeno da aterogênese.
Os objetivos da investigação foram avaliar a espessura do complexo miointimal das carótidas comum e
interna de portadores de esquistossomosse mansônica na
Trabalho realizado no Serviço de Cirurgia Gerald a Criança e Ambulatório de Esquistossomose – Hospital das Clínicas da Universidade Federal de
Pernambuco.
1. Doutor em Cirurgia pela Universidade Federal de Pernambuco; 2. PhD – The University of Liverpool, UK.
Rev. Col. Bras. Cir. 2009; 36(4): 292-299
Guimarães
Complexo miointimal das carótidas comum e interna em portadores de esquistossomose mansônica hepatoesplênica
forma hepatoesplênica através do ultra-som Doppler colorido.
MÉTODOS
O estudo, tipo caso-controle, foi realizado nos
Serviços de Cirurgia Geral da Criança, de Gastroenterologia
da UFPE e no Serviço de Ultra-sonografia Vascular do Centro Diagnóstico José Rocha de Sá em Recife-Pernambuco.
A amostra foi constituída de três grupos de indivíduos de ambos os gêneros com idades variando de 20 a
60 anos arrolados aleatoriamente nos ambulatórios de Cirurgia Geral da Criança e Gastroenterolgia da UFPE.
Grupo I (EHE) - pacientes de ambos os gêneros:
sendo seis homens e 14 mulheres, com história clínica e
exames laboratoriais positivos para a esquistossomose
mansônica hepatoesplênica não operados. Quanto ao grau
de instrução, a maioria tinha apenas o 1º grau incompleto
(16 pacientes) e apenas dois pacientes completaram o 2º
grau. A média de idade foi de 44 anos, o peso médio de
59kg, a altura 1,58m e IMC de 24. Neste grupo não houve
pacientes diabéticos, três pacientes eram hipertensos e três
fumavam.
Grupo II (EHE-OP) - pacientes de ambos os gêneros: sendo sete homens e 13 mulheres, com história
clínica e exames laboratoriais positivos para
esquistossomose mansônica hepatoesplênica, já submetidos a esplenectomia total, ligadura da veia gástrica esquerda, e escleroterapia de varizes esofagianas quando
apresentaram recidiva hemorrágica. Com relação ao grau
de instrução a maioria (16 pacientes) tinha apenas o 1º
grau incompleto e apenas dois concluíram o 2º grau. A
média de idade foi de 38 anos, o peso médio de 59kg,
altura média de 1,56m e IMC de 24. Não houve pacientes diabéticos neste grupo, oito pacientes eram hipertensos
e três pacientes fumavam.
Grupo III (Controle)) - voluntários de ambos os
gêneros: sendo quatro homens e 16 mulheres não portadores de EHE, de mesma faixa etária e condições sócio-econômico-ambientais. Com relação ao grau de instrução, sete
pacientes tinham o 2º grau completo e três pacientes tinham o 1º grau completo. O restante tinha apenas o 1º
grau incompleto. A média de idade foi de 37 anos, o peso
médio foi de 67kg, a altura média foi de 1,58m e o IMC foi
de 27. Neste grupo também não houve diabéticos, quatro
pacientes eram hipertensos, três pacientes tinham
dislipidemia e um paciente fumava.
Foram excluídos todos os indiv (...truncated)