General Election in the United Kingdom: Brexit and Austerity Lead to Electoral Surprise
ELEIÇÕES NA EUROPA PÓS-CRISE
Eleições no Reino Unido
Efeitos Brexit e austeridade
produzem surpresa eleitoral
Eunice Goes
N
o dia 18 de Abril, a imprensa britânica foi chamada
ao Número 10 de Downing Street. A primeira-ministra, Theresa May, tinha uma comunicação importante a
fazer. Em tom grave e urgente, May anunciou eleições
antecipadas para 8 de Junho. Apesar de esta possibilidade
ter sido o foco de rumores desde o Outono, este anúncio
surpreendeu as classes políticas britânica e europeia. Afinal, as últimas eleições legislativas tinham tido lugar em
2015 e o Reino Unido tinha começado o difícil e complicado processo de secessão da União Europeia (UE).
Mas May tinha boas razões para a sua decisão. Desde a
sua tomada de posse como primeira-ministra que a maioria das sondagens mostrava que os conservadores estavam
20 pontos percentuais à frente do Partido Trabalhista. As
mesmas sondagens revelavam que Theresa May era uma
primeira-ministra popular e bastante mais credível que o
líder da oposição, Jeremy Corbyn1. Além disso, as duas
eleições intercalares de Stoke on Trent e Copeland, realizadas em Fevereiro, mostraram que o Partido Trabalhista
atravessava uma crise existencial e que se preparava para
uma derrota histórica. Em suma, tudo indicava que os
conservadores iam obter uma vitória bastante confortável.
Os resultados das eleições sugerem que estas expectativas
se baseavam em pressupostos errados. O Partido Conservador foi o partido mais votado, atraindo 42,4 por cento
dos votos, mas não ganhou uma maioria de assentos parlamentares. Para controlar uma maioria na Câmara dos
Comuns os conservadores precisavam de eleger pelo
RESUMO
O
s resultados das eleições legislativas britânicas de 2017 foram
surpreendentes. Contrariando as tendências das sondagens, o eleitorado
negou uma maioria ao Partido Conservador. Este viu-se forçado a formar um
governo minoritário que conta com o
apoio pontual do Partido Democrático
do Ulster. Em contrapartida, o Partido
Trabalhista ultrapassou as expectativas
ao obter o seu melhor resultado desde
2005. Este artigo tem como objectivo
analisar os resultados destas eleições
e argumenta que o efeito do Brexit bem
como o impacto das políticas de austeridade foram os principais factores
que influenciaram as escolhas dos
eleitores nestas eleições.
Palavras-chave: Brexit; eleições, austeridade, conservadores, trabalhistas.
ABSTRACT
General Election in the
United Kingdom: Brexit
and Austerity Lead to
Electoral Surprise
W
hen the British Prime Minister
Theresa May called an early
election for the 8th of June of 2017 she
was expecting her a party to win a landslide majority. But voters had other
>
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DEZEMBRO : 2017 56 [ pp. 077-092 ]
https://doi.org/10.23906/ri2017.56a05
menos 326 deputados. Na realidade, o partido só conseguiu eleger 319 deputados.
Despojada da sua maioria parlamentar, Theresa May viu-se forçada a celebrar um acordo com o Partido Democrático Unionista da Irlanda do Norte. Em troca de apoio
parlamentar para peças legislativas importantes como o
Orçamento de Estado e toda a legislação relativa ao Brexit, Theresa May comprometeu-se a transferir somas substanciais para o orçamento do governo autónomo da
Irlanda do Norte.
Em contrapartida, o Partido Trabalhista, liderado por
Keywords: Brexit, elections, austerity,
conservatives, Labour.
Jeremy Corbyn, foi tratado como o verdadeiro vencedor
das eleições. Desafiando as suas próprias expectativas, os
trabalhistas obtiveram 40 por cento dos votos (um aumento de 11 pontos percentuais
em relação aos resultados obtidos em 2015) e elegeram 262 deputados (30 mais do que
os eleitos dois anos antes).
As surpresas das eleições legislativas de 2017 não se ficaram por aqui. O partido eurocéptico populista UKIP (Partido da Independência do Reino Unido) teve resultados desastrosos, atraindo apenas 1,8 por cento dos votos. Para os liberais democratas os resultados
foram igualmente decepcionantes: o partido atraiu apenas 7,4 por cento dos votos.
Este artigo tem como objectivo explicar os resultados surpreendentes das eleições
legislativas de 2017 e defende que o efeito do Brexit bem como das políticas de austeridade são os principais factores que influenciaram as escolhas dos eleitores no dia
8 de Junho. Para demonstrar este argumento, o artigo começará por analisar o contexto
político em que as eleições se desenrolaram. A seguir, e tendo em conta o efeito decisivo da campanha, o artigo explicará em traços gerais a estratégia eleitoral dos dois
principais partidos. A terceira parte do artigo fará uma análise detalhada dos resultados
à luz do «efeito Brexit» e do «efeito austeridade».
ideas. As a result, the Conservative
Party its majority in the House of Commons and was forced to celebrate a
confidence and supply agreement with
the Northern Irish Democratic Unionist Party. Labour, on the other hand
had much better results than expected.
This article seeks to explain what is
behind these astonishing results. It
will argue that to a certain extent the
2017 general election was a ‘Brexit
election’, however, other factors,
namely the impact of austerity policies
influenced voting behaviour.
O PRELÚDIO DAS ELEIÇÕES
No Verão de 2016, Theresa May foi nomeada primeira-ministra em circunstâncias
extraordinárias. No dia 23 de Junho, 51,9 por cento dos eleitores britânicos votaram
para sair da UE num referendo nacional. Os resultados do referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE tiveram o efeito dum choque eléctrico. Ninguém esperava
este resultado. A vitória do «Remain» era dada como certa por toda a classe política
britânica e europeia. Estupefacto com o resultado inesperado do referendo, o então
primeiro-ministro, David Cameron, anunciou a sua demissão.
A sua decisão teve o efeito imediato de desencadear uma eleição para a liderança do
Partido Conservador. Mas o choque do resultado do referendo e da decisão de Cameron
provocou alguma confusão no partido. A verdade é que nenhum dos candidatos – mesmo
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DEZEMBRO : 2017 56
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aqueles que há anos se tinham posicionado como potenciais líderes – estava preparado
para esta eleição. Figuras políticas como Boris Johnson (um dos favoritos do partido)
foram obrigados a retirar-se da corrida antes de esta ter começado, porque os seus
rivais atraíram mais nomeações. Outros, como Andrea Leadsom, estavam tão pouco
preparados para o nível de exposição pública que uma carreira política na linha de
frente acarreta, que abandonaram a corrida antes de esta estar concluída. A única candidata que conseguiu destacar-se foi Theresa May. Ao lado dos seus rivais, May aparentava calma, transmitia a ideia de competência, e parecia ter a estratégia apropriada
para negociar a retirada do Reino Unido da UE. Com os seus rivais fora do caminho,
May foi «coroada» líder do Partido Conservador em Julho de 2016.
Nos primeiros meses da sua liderança, Theresa May não desiludiu o seu partido. Assim
que chegou a Downing Street, Ma (...truncated)