Elections in Germany: changes in the party system and Europe put on hold
ELEIÇÕES NA EUROPA PÓS-CRISE
Eleições na Alemanha
Mudanças no sistema partidário
e o compasso de espera europeu
Patrícia Daehnhardt
N
um sistema internacional desordenado e de já prolongada turbulência política nas relações entre os
países europeus, os Estados Unidos, a Rússia e a Turquia,
em que as expetativas de liderança recaem cada vez mais
sobre a Alemanha, ocorreram as eleições legislativas alemãs. O resultado das eleições de 24 de setembro de 2017
– independentemente da futura coligação governamental
que ainda está por constituir-se – seria sempre fundamental para o futuro da Europa, porque a estabilidade
política na Alemanha é o pressuposto da estabilidade
política europeia. A incógnita não seria a reeleição de
Angela Merkel, mas com qual dos restantes partidos a
CDU/CSU (União Democrata-Cristã/União Social-Cristã)
formaria um governo de coligação.
As conversações entre CDU/CSU, FDP (Partido Democrático Liberal) e Verdes (Aliança 90/Os Verdes), para sondar
a hipótese de negociações para uma coligação tripla – ou
«Jamaica», como ficou conhecida –, colapsaram em 19 de
novembro. Passados dois meses e meio depois das eleições, não só não estão em curso negociações para uma
nova coligação governativa como não se perspetiva ainda
uma solução favorável a uma de três hipóteses alternativas:
primeiro, a constituição de uma terceira grande coligação,
entre CDU/CSU e SPD (Partido Social-Democrata da Alemanha)
– um remake da Groko (Grande Coligação) – exige um
preço alto ao SPD, que perdeu muitos votos depois de ter
sido o parceiro júnior da CDU/CSU por duas vezes;
segundo, um governo minoritário composto por CDU/
CSU e FDP ou CDU/CSU e Verdes, formação nunca tentada
na Alemanha do pós-guerra, devido à instabilidade dos
RESUMO
N
um sistema internacional desordenado e de já prolongada turbulência política nas relações entre os países
europeus, os Estados Unidos, a Rússia e
a Turquia, em que as expetativas de liderança recaem cada vez mais sobre a Alemanha, ocorreram as eleições legislativas
alemãs. As eleições de 24 de setembro de
2017 penalizaram os dois maiores partidos e representam uma mudança do
sistema partidário e da estabilidade política na Alemanha. Passados dois meses
e meio depois das eleições, e do fracasso
das pré-negociações entre CDU/CSU, FDP
e Verdes, discute-se agora as opções de
uma nova grande coligação CDU/CSU-SPD, um governo minoritário ou a realização de novas eleições. Esta demora na
escolha de uma solução governativa é
inesperada e tem implicações para a
Europa, porque a estabilidade política na
Alemanha é o pressuposto da estabilidade política europeia, e coloca o resto
da Europa perante um compasso de
espera. O artigo analisa o resultado eleitoral, a evolução desde então e argumenta
que as transformações do sistema partidário na Alemanha ajudam a explicar o
atual impasse pós-eleitoral: a crescente
fragmentação do sistema partidário articulado com a volatilidade eleitoral e com
uma acentuada polarização ideológica, o
que se reflete, no contexto pós-eleitoral,
na existência de sete partidos políticos
com representação parlamentar e afirmação de um sistema multipartidário.
Palavras-chave: Sistema partidário alemão, eleições, coligações governativas,
sistema multipartidário.
>
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DEZEMBRO : 2017 56 [ pp. 093-111 ]
https://doi.org/10.23906/ri2017.56a06
ABSTRACT
Elections in Germany:
changes in the party
system and Europe
put on hold
T
he German Bundestag elections
took place amidst a disorderly
international system and ongoing
political turmoil in relations between
European countries, the United States, Russia and Turkey, where leadership expectations increasingly fall on
Germany. The elections of 24 September 2017 penalized the two largest
parties and confirmed a change of the
party system and of German political
stability. Two and a half months after
the elections, and the failure of prenegotiations between CDU/CSU, FDP
and the Greens, the options for a new
CDU / CSU - SPD grand coalition, a
minority government or new elections
are still open. This delay in finding a
solution for government formation is
unexpected and has implications for
Europe because political stability in
Germany is the prerequisite of European political stability and because it
puts the rest of Europe on hold. The
article analyses the electoral outcome,
the evolution of the party system
since then, and argues that the transformations of the German party system help explain the current
post-election impasse: increased
fragmentation of the party system,
electoral volatility and a marked ideological polarization, which is reflected, in the post-election context, in
the existence of now seven political
parties with parliamentary representation and the affirmation of a multiparty system.
Keywords: German party system, elections, coalition-building, multiparty
system.
governos minoritários da República de Weimar, conhecida
pelo seu alto grau de fragmentação e polarização que entrou
em colapso no início da década de 1930; terceiro, a realização de novas eleições, o que, para além de atrasar a formação do novo governo, poderia fortalecer ainda mais o novo
partido populista AfD (Alternativa para a Alemanha).
A demora na escolha de uma solução governativa para o
país mais relevante na Europa é surpreendente e inesperada
e coloca o resto da Europa perante um compasso de espera,
mesmo que a grande coligação da anterior legislatura continue em funções. Noutros países europeus – como a
Holanda, a Bélgica, e a Espanha – assistiu-se nos últimos
anos a negociações igualmente complexas e prolongadas
para a constituição de um governo, facto que se prende
com a crescente fragmentação partidária, volatilidade
eleitoral e polarização ideológica registada nestes países,
e que confirma a tendência de mudança nos sistemas partidários de vários países europeus, em direção a parlamentos mais fragmentados, a exigir um número maior de
partidos necessários para a formação de governo.
Este artigo analisa os resultados das eleições legislativas
alemãs de setembro de 2017. O argumento é que o resultado eleitoral confirma a mudança do sistema partidário
alemão em curso desde há uma década: a crescente volatilidade eleitoral, interligada com uma acentuada polarização ideológica, confirma a fragmentação do sistema
partidário e um sistema político-partidário mais fluído,
o que se traduz atualmente na existência de sete partidos
políticos com representação parlamentar e na transição
para um sistema multipartidário. O artigo conclui que a
atual dificuldade do processo de constituição de um novo
governo é consequência dessas mesmas transformações
do sistema partidário – a transição do bipartidarismo para
o multipartidarismo, em que três ou mais partidos podem
formar a coligação governativa.
AS ELEIÇÕES DE 24 DE SETEMBRO: O CHOQUE ESPERADO?
O resultado das eleições legislativas alemãs de 24 de setembro de 2017 provocou três
surpresas e confirmou a alteração do panorama partidário al (...truncated)