TTIP: Lost in-between trade and geopolitics
A Parceria Transatlântica
de Comércio
e Investimento (ttip)
Entre o comércio livre
e a geopolítica
1
José Pedro Teixeira Fernandes
INTRODUÇÃO
A Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento
(ttip)2 está numa fase de negociações, ainda que de resultado final bastante incerto, entre a União Europeia (ue)
e os Estados Unidos. Seguindo uma tendência que se
afirmou nas últimas décadas, a sua agenda ambiciosa vai
muito além dos direitos aduaneiros e contingentes sobre
mercadorias, o perfil clássico dos acordos internacionais
sobre comércio do passado. Provavelmente, também por
isso, as negociações estão envolvidas em forte controvérsia e têm sido alvo de duras críticas dos mais diversos
quadrantes. Ao mesmo tempo, quer na ue, quer nos Estados Unidos, a importância da ttip tem sido também
defendida com base em argumentos geopolíticos. Estes
seriam tanto ou mais importantes do que o comércio e
investimento em si mesmos. O acordo permitiria reforçar
a ligação política e económica entre ambos os lados do
Atlântico, com base numa visão partilhada do mundo
assente em economias de mercado e em democracias
liberais. Parece também existir vontade de secundarizar
a Organização Mundial do Comércio (omc) como fórum
comercial global – cuja ronda negocial de Doha está num
impasse/fracasso –, por razões comerciais, mas também
RESUMO
O
objectivo fundamental deste
artigo é passar em revista as
negociações da Parceria Transatlântica
de Comércio e Investimento (ttip),
olhando para os argumentos a seu
favor e para as críticas dos seus detractores. Para o efeito, faz-se uma breve
contextualização das negociações no
âmbito das relações atlânticas e é dada
uma panorâmica geral das matérias em
negociação. Depois, olha-se com
algum detalhe para aspectos específicos
da ttip pela sua potencial relevância.
É o caso da cooperação transatlântica
em matéria de regulamentação e do
recurso à arbitragem para os investidores internacionais. Aí será também
feita uma reflexão sobre o seu previsível impacto na economia europeia
e norte-americana. Por último, é ainda
efectuado um escrutínio sintético à
solidez da argumentação geopolítica a
favor da ttip e são feitas considerações sobre os obstáculos ao processo
negocial e à conclusão de um acordo
deste tipo.
Palavras-chave: União Europeia, Estados
Unidos, comércio internacional, geopolítica.
>
RELAÇÕES INTERNACIONAIS SETEMBRO : 2017 55 [ pp. 115-132 ]
https://doi.org/10.23906/ri2017.55a07
geopolíticas. Para além do impasse comercial, a vontade
ABSTRACT
de reafirmação da liderança global dos Estados Unidos,
apoiados no mundo atlântico, face à ascensão da China
ttip: Lost in-between
trade and geopolitics
e Ásia-Pacífico, parece estar a ser determinante nessa
opção por acordos bilaterais ou multilaterais limitados.
he main objective of this article is
Assim, o objectivo fundamental deste artigo é passar em
to review the subjects negotiated
under the Transatlantic Trade and
revista as propostas que estão em negociação na ttip,
Investment Partnership (ttip) looking
olhando para os argumentos a seu favor e para as críticas
both at the arguments that favour the
agreement, and to the criticism made
dos seus detractores. Em termos metodológicos, importa
by its detractors. To this end, there will
notar que a abordagem a este tema enfrentou naturais
be a brief contextualization within the
framework of the Atlantic relations of
limitações e constrangimentos. Esteve, desde logo, depenthe last decades, and an overview of
dente da informação disponibilizada oficialmente3 pelas
the subjects under negotiation. Then,
a view with some detail, to specific
partes em negociação, nas diversas versões que os docuaspects of ttip for its potential relementos negociais já tiveram. Outra dificuldade, que não
vance. This is the case of transatlantic
cooperation on regulation and
é menor, foi a de produzir uma análise balanceada num
recourse to arbitration for internatioassunto tão abrangente, complexo e politizado como este.
nal investors. There will be also some
reflections on the expected impact on
Optou-se, assim, por fazer uma sucinta contextualização
European and us economy. Finally,
destas negociações no âmbito das relações atlânticas e
there will be a brief scrutiny of the
strength of geopolitical arguments that
por dar uma curta panorâmica das matérias em negociafavour ttip, and the obstacles to the
ção. Depois, por olhar com algum detalhe para aspectos
future negotiations and the conclusion
of the agreement.
específicos da ttip, pelas suas potenciais implicações.
É o caso da cooperação transatlântica em matéria de reguKeywords: European Union, usa, international trade, geopolitics.
lamentação e do recurso à arbitragem para os investidores internacionais. Aí será também feita uma reflexão
sobre o seu hipotético impacto na economia e sociedade europeia e norte-americana,
quer a partir dos documentos oficiais europeus e norte-americanos, quer recorrendo a
literatura académico-científica especializada sobre esta temática, que acaba por ser
escassa, dado o carácter recente do tema. Por último, é ainda efectuado um escrutínio
sintético à solidez da argumentação geopolítica a favor da ttip e são deixadas algumas
considerações sobre o futuro deste processo negocial.
T
AS ORIGENS DA IDEIA DE UMA ZONA DE COMÉRCIO LIVRE EURO-ATLÂNTICA
Tradicionalmente, as negociações de comércio internacional entre a ue e os Estados
Unidos têm um fórum privilegiado no Acordo Geral sobre Pautas Aduaneiras e Comércio
(gatt), e a partir de 1995, na omc. Ao contrário do que acontecia no passado, para as
economias mais desenvolvidas, como é o caso dos Estados Unidos e da ue, as barreiras aduaneiras ao comércio têm hoje um peso relativamente diminuto. Os direitos
aduaneiros para a «nação mais favorecida» são hoje, em média, cerca de 5,2 por cento
para a ue e cerca de 3,5 por cento para os Estados Unidos. No caso das tarifas/direitos
aduaneiros aplicáveis entre ambos são ainda mais baixos do que a média geral, estando
RELAÇÕES INTERNACIONAIS SETEMBRO : 2017 55
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na ordem dos três por cento4. Por outro lado, o processo negocial multilateral no âmbito
da omc – a Ronda de Doha, iniciada em finais de 2001 –, está no já referido impasse.
O fracasso do sistema multilateral de comércio para prosseguir com a «liberalização
profunda» originou, primeiro nos Estados Unidos e, em seguida, na ue, a vontade de
negociar acordos entre um número mais limitado de países próximos. Ambos concluíram ou estão a negociar acordos com uma série de países no mundo – a maioria da
Ásia ou das Américas –, indo além das obrigações da omc, em compromissos sobre
questões relacionadas com o comércio. Outros factores têm sido apontados. Em primeiro
lugar, a crise financeira e económica global, desencadeada a partir de 2007-2008. Isso
torna a procura externa uma fonte bem-vinda, senão mesmo necessária, para o crescimento interno. Em segundo lugar, a ttip ocorre tendo como pano de fundo a ascensão
da China e de outras econom (...truncated)