Liposomes: physicochemical and pharmacological properties, applications in antimony-based chemotherapy
LIPOSSOMAS: PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS E FARMACOLÓGICAS, APLICAÇÕES NA
QUIMIOTERAPIA À BASE DE ANTIMÔNIO
Frédéric Frézard* e Dante A. Schettini
Departamento de Fisiologia e Biofísica, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Antônio
Carlos, 6627, 31270-901 Belo Horizonte - MG
Olguita G. F. Rocha
Laboratório de Análise de Traces Metálicos, Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais, Belo Horizonte - MG
Cynthia Demicheli
Departamento de Química, Instituto de Ciências Exatas, Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Antônio Carlos, 6627,
31270-901 Belo Horizonte - MG
Divulgação
Quim. Nova, Vol. 28, No. 3, 511-518, 2005
Recebido em 24/5/04; aceito em 14/9/04; publicado na web em 17/2/05
LIPOSOMES: PHYSICOCHEMICAL AND PHARMACOLOGICAL PROPERTIES, APPLICATIONS IN ANTIMONY-BASED
CHEMOTHERAPY. The use of organoantimonial complexes in the therapeutic of leishmaniasis and schistosomiasis has been
limited mainly by the need for daily parenteral administration, their adverse side-effects and the appearance of drug resistance.
Liposome encapsulation has been so far the most effective means to improve the efficacy of pentavalent antimonials against
visceral leishmaniasis. Pharmacologically- and pharmaceutically-acceptable liposomal compositions are still being investigated
through manipulation of preparation method, lipid composition and vesicle size. Recently, the encapsulation of a trivalent
antimonial within “stealth” liposomes was found to reduce its acute toxicity and effectively deliver this compound to the parasite
in experimental schistosomiasis.
Keywords: liposomes; antimony; chemotherapy.
INTRODUÇÃO
No início do século passado, Gaspar Vianna, pesquisador pioneiro em doença de Chagas e leishmaniose, relatou a eficácia do
complexo de antimônio trivalente (Sb(III)), tártaro emético, no tratamento da leishmaniose muco-cutânea1. Da mesma forma, o tártaro
emético foi o primeiro medicamento empregado com êxito no tratamento da esquistossomose2,3. Entretanto, o uso clínico deste composto foi interrompido, por causa de seus severos efeitos colaterais e
da descoberta de novos fármacos menos tóxicos.
A partir da década de 1940, complexos de antimônio pentavalente
(Sb(V)) começaram a ser utilizados na terapêutica das leishmanioses4.
Os principais antimoniais atualmente em uso são complexos de Sb(V)
com o N-metil-glucamina (antimoniato de meglumina) e com o
gluconato de sódio (estibogluconato de sódio). Até hoje, nem a estrutura desses compostos, nem seu mecanismo de ação foram completamente elucidados. Foi sugerido que o Sb(V) seria uma pró-droga, sendo reduzido no organismo hospedeiro a Sb(III) que seria a
forma ativa e tóxica5. Recentemente, foi mostrado que os tióis podem estar envolvidos nesse processo de redução6. Embora os antimoniais pentavalentes continuem sendo os medicamentos de primeira
escolha no tratamento de todas as formas de leishmanioses, o seu
uso clínico apresenta várias limitações. Esses compostos devem ser
administrados por via parenteral (injeção intravenosa ou intramuscular), diariamente, num período de 20-40 dias. Nesse contexto,
efeitos colaterais são freqüentes4. O aparecimento de resistência representa um outro problema sério no tratamento das leishmanioses4
e um risco potencial na terapêutica da esquistossomose7. Em face
dessas limitações, a Organização Mundial da Saúde recomenda, com
*e-mail:
incentivo inclusive a outras entidades afins como a TDR (“Special
Programme for Research and Training in Tropical Diseases”), a pesquisa de novos medicamentos8.
Essencialmente duas estratégias diferentes estão atualmente disponíveis para o desenvolvimento de novos medicamentos. Uma estratégia envolve o planejamento/síntese de novas substâncias ativas
ou de fármacos já conhecidos com modificações químicas; a outra
envolve a associação reversível de fármacos já em uso a um sistema
transportador, visando direcionar o fármaco para a célula alvo e evitar os locais indesejáveis onde o fármaco exerce toxicidade. Esta
última estratégia, além de prolongar a validade de proteção por patente no uso do fármaco, oferece um ganho de tempo na fase de
desenvolvimento do produto porque usa um fármaco já caracterizado do ponto de vista farmacológico. Entre os sistemas transportadores de medicamentos atualmente disponíveis, os lipossomas ocupam
uma posição de destaque, tanto para terapia das leishmanioses quanto da esquistossomose.
Como ilustrado na Figura 1, os lipossomas são vesículas esféricas, constituídas de uma ou várias bicamadas concêntricas de lipídeos,
que isolam um ou vários compartimentos aquosos internos do meio
externo9. Uma grande vantagem dos lipossomas, com relação a outros sistemas transportadores de medicamento, é a sua elevada
biocompatibilidade, especialmente quando estes são formados de
lipídeos pertencentes às famílias de lipídeos naturais9. Além disso,
são sistemas altamente versáteis, cujo tamanho, lamelaridade, superfície, composição lipídica, volume e composição do meio aquoso
interno podem ser manipulados em função dos requisitos farmacêuticos e farmacológicos.
A capacidade dessas vesículas artificiais oferecerem barreiras para
a difusão de solutos foi demonstrada pela primeira vez por Bangham,
em 196510. O primeiro resultado espectacular na área biomédica foi
obtido, na década de 1970, com os antimoniais. Um aumento de até
512
Demicheli et al.
Quim. Nova
gicos alcançados, nos últimos anos, na preparação dos antimoniais
pentavalentes na forma encapsulada em lipossomas. Por outro lado,
mostraremos que lipossomas “furtivos” contendo antimoniais
trivalentes são promissores para o tratamento da esquistossomose
mansoni.
PROPRIEDADES BÁSICAS DOS LIPOSSOMAS
Composição e propriedades físico-químicas
Figura 1. Características estruturais dos lipossomas
700 vezes na atividade leishmanicida desses compostos foi relatado
após administração na forma encapsulada em lipossomas11.
Apesar da necessidade de aprimorar a quimioterapia antimonial
atual e dos resultados extremamente promissores obtidos com os
lipossomas em modelos experimentais de leishmaniose visceral, até
hoje, nenhuma composição farmacêutica associando lipossomas e
antimoniais chegou a ser comercializada. Este fato pode ser atribuído, pelo menos em parte, às dificuldades tecnológicas inerentes à
obtenção de formulação estável de compostos hidrossolúveis encapsulado em lipossomas.
Nesse artigo, apresentaremos propriedades básicas dos lipossomas, de interesse para o desenvolvimento de fármaco na forma
encapsulada em lipossomas. Mostraremos os aspectos farmacológicos
mais relevantes no uso dos lipossomas “convencionais” para a terapêutica das leishmanioses. Apresentaremos os progressos tecnoló-
Os lipossomas, classicamente, são preparados a partir do
glicerofosfolipídeo, fosfatidilcolina. De uma forma mais geral,
lipossomas podem ser obtidos a partir de qualquer substância anfifílica
formadora de fase lamelar9. A Tabela 1 apresenta exemplos de lipídeos
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