Teacher and researcher: contact in a classroom
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Professora e pesquisadora: um encontro na sala de aula
Laura Noemi Chaluh
*
Resumo: Estive inserida como pesquisadora em uma escola de Ensino Fundamental da Rede
Municipal de Campinas-SP de 2003 a 2005. Opto, neste trabalho, por narrar o meu encontro
em sala de aula com uma professora cujo trabalho acompanhei no ano letivo de 2004. Esta
escolha está motivada por eu ter sido convidada por essa professora para participar semanalmente
das suas aulas e pelas inquietações surgidas a partir do diálogo por nós estabelecido. Problematizo
o lugar de uma pesquisadora quando entra na sala de aula, as expectativas da professora diante
da presença da pesquisadora na sua sala e os sentidos produzidos pelos alunos com a presença
de uma outra professora. A partir de uma pesquisa de orientação sócio-histórica, trago para
reflexão a questão da alteridade e do diálogo, a fim de pensarmos na formação de professores e
pesquisadores.
Palavras-chave: formação; pesquisa; alteridade.
Teacher and researcher: contact in a classroom
Abstract: During the period from 2003 to 2005 I worked as a researcher in an elementary
school from the Municipal Education Network of Campinas. This paper is about my contact
with a teacher whose classes
I attended during the school year of 2004. This choice was
motivated by this teachers invitation to participate in her classes on a weekly basis and by the
doubts that arised from our dialogue. The condition of a researcher in a classroom, a teachers
expectations in the presence of a researcher in her classroom and the students senses in the
presence of another teacher are questioned. From a socio-historical research, the alterity and the
dialogue issues are discussed to foster a reflection about teachers and researchers education.
Key words: teacher education; research; alterity.
Relembrando os percursos
O presente texto tem relação com o projeto de doutorado a partir do qual
me propus a acompanhar os
espaçostempos de reflexão coletiva instituídos em
uma escola de Ensino Fundamental da Rede Municipal de Ensino de Campinas (2001-2004) e deles participar. Nesse sentido, propus-me a explicitar a
política pública de formação continuada da Secretaria Municipal de Educação
*
Doutora em Educação. Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada
(Gepec) da Faculdade de Educação da Unicamp, Campinas, SP, Brasil.
Pro-Posições, Campinas, v. 20, n. 1 (58), p. 225-239, jan./abr. 2009
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(SME) desse município e evidenciar como ela era recriada pelas professoras no
cotidiano da escola. Assim, as primeiras inquietações tinham a ver com o fato
de compreender o processo de constituição de um grupo de professoras na
escola, sabendo que a política pública de formação dessa Secretaria favorecia o
trabalho coletivo nos encontros de formação na escola.
Para isso, inseri-me como pesquisadora em uma escola de Ensino Fundamental dessa rede desde agosto de 2003 até dezembro de 2005. Acompanhei
dois
espaçostempos de formação instituídos: O Trabalho Docente Coletivo (TDC)
e o Grupo de Reflexão sobre Letramento e Alfabetização (GA).
O TDC é um espaço formativo, de reflexão coletiva, realizado durante
duas horas-aula semanais consecutivas, coordenadas pelo/a orientador/a pedagógico/a ou, na sua ausência, por um/a professor/a eleito/a pelo grupo como
coordenador/a da reunião. O GA surgiu no ano letivo de 2004, quando a SME
possibilitou a constituição de um Grupo de Trabalho em cada uma das escolas
dessa rede, com o intuito de que as professoras refletissem sobre a especificidade
da alfabetização. Elas teriam duas horas aulas a mais para fazer um trabalho de
formação e ajudar a reduzir o número de retenções de alunos com dificuldade
de aprendizado (SME, 2004).
A partir do ano letivo de 2004, o orientador
1
da pesquisa sugeriu-me entrar
na sala de aula e acompanhar o trabalho pedagógico de uma professora, observando as possíveis relações entre o trabalho coletivo nos grupos instituídos
nessa escola e o trabalho pedagógico desenvolvido pela professora que eu iria
acompanhar na sala de aula.
Optei por perguntar à professora, que atuava na 4a. série, se ela aceitaria a
minha presença na sua sala. Sua resposta foi positiva. Nesse momento, a professora
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Mônica, que atuava em uma 2a. série, ao saber que eu estaria na sala de
aula de uma colega, convidou-me a entrar na sua sala e eu aceitei. Dessa forma,
acompanhei o trabalho realizado em duas turmas: na 4ª. série e na 2ª., embora
este relato se ocupe especificamente desta última, cuja professora era uma profissional nova, recém-formada e, já no início, instigou-me, quando me perguntou: Você vai vir para pesquisar ou para me ajudar?.
A pergunta da professora e outras questões que eu mesma comecei a me
formular ao viver a escola levaram-me a compreender o para quê e o
porquê de
fazer pesquisa
na e com a escola. Afirmo que só no momento em que vivi a
relação com os
outros é que percebi a importância da alteridade (Bakhtin, 1992)
como fundamento de todo o desenvolvimento da minha pesquisa: esta ganhou
1.
2.
O orientador da pesquisa foi o Prof. Dr. Guilherme do Val Toledo Prado.
Agradeço à professora que me permitiu tornar públicas as falas que fazem referência à sua
pessoa.
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força quando, a partir do reconhecimento da alteridade, começou a ter sentido
para mim como pesquisadora. Foi assim que assumi a pesquisa de orientação
sócio-histórica (Freitas, 2003a; 2003b; Amorim, 2004), o que significa conceber a pesquisa como uma relação, como diálogo e também considerar a importância dos
outros como sujeitos que, junto comigo, iriam caminhar em um
processo. Isso implicava pensar que, na relação com os
outros, tanto eu como os
outros nos modificamos mutuamente, constituindo-nos no encontro.
Neste texto, opto por narrar o meu encontro com Mônica, professora da 2a.
série, e seus alunos no ano letivo de 2004. A escrita deste trabalho é apresentada em forma de narrativa segundo uma perspectiva benjaminiana. Sei que, ao
narrar, estou me expondo, o que gera em mim medos e inseguranças. Como
diz Benjamin (1996), nós sentimos embaraço quando somos solicitados a
narrar alguma coisa. Tomo para mim essa sensação de embaraço e ainda com
ela me proponho um desafio, porque narrar é recuperar e manter a faculdade
de intercambiar experiências (Benjamin, 1996, p. 198). Segundo Larrosa
(2004a), a experiência [...] é o que nos passa, [...] o que nos acontece, o que
nos toca. Este mesmo autor considera que podemos compartilhar acontecimentos, mas a experiência de cada um de nós o que nos passa será diferente. Levando em consideração o sentido de experiência de Larrosa (2004a) é
que pretendo explicitar o que me passou, ao ser convidada por essa professora
a entrar na sala de aula como pesquisadora. Resgato, assim, a importância de
narrar, valorizar e socializar as nossas experiências, assumindo a minha responsabilidade, para (...truncated)