WORKING WITH NARRATIVES IN EDUCATION RESEARCH
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http://dx.doi.org/10.1590/0102-4698130280
O TRABALHO COM NARRATIVAS NA INVESTIGAÇÃO EM EDUCAÇÃO
Maria Emília Caixeta de Castro Lima*
Corinta Maria Grisolia Geraldi**
João Wanderley Geraldi***
RESUMO: No presente artigo discutimos questões como: o que se entende por
investigação narrativa? Quais são os referenciais epistemológicos e teóricometodológicos dessas pesquisas e suas implicações em termos de produtos
dos conhecimentos gerados? Apresentamos um mapa das pesquisas
narrativas feitas no país como modo de aproximação e reconhecimento da
diversidade delas na formação e na pesquisa em educação. Identificamos
quatro tipos de usos de narrativas: 1) narrativa como construção de sentidos
de um evento; 2) narrativa (auto)biográfica; 3) narrativa de experiências
planejadas para pesquisas; 4) narrativa de experiências do vivido.
Explicitamos objetos, métodos e implicações. Destacamos o quarto tipo
com que estamos envolvidos em nossa experiência como pesquisadores
e formadores. Valemo-nos das visões de sujeito e de mundo de Bakhtin,
do conceito de experiência de Larrosa e da narrativa e do conselho em
Benjamin. Sinalizamos algumas categorias de análise e extraímos lições
sobre as pesquisas do vivido no processo de formação docente.
Palavras-chave: Investigação narrativa. Experiência. Formação de professores.
* Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professora Associada da
Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE-UFMG). E-mail:
** Doutora em Educação e Professora Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP). E-mail:
*** Doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professor Colaborador
da Universidade do Porto, Portugal. E-mail:
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WORKING WITH NARRATIVES IN EDUCATION RESEARCH
ABSTRACT: In this article we discuss questions such as “What is meant
by narrative inquiry?” and “What are the epistemological, theoretical
and methodological references related to such researches and what are
the implications concerning the products of generated knowledge?”
With the intention of approaching and acknowledging their diversity in
training and research in Education, we draw a map of narrative researches
conducted in Brazil. Four categories have been identified: 1. narrative as
construction of meaning of an event, 2. (auto) biographical narrative,
3. narrative of experiences planned for research, and 4. narrative of
lived experiences. We explicit objects, methods, and implications in this
research. In particular, we draw attention to the fourth type of narrative,
which incorporates our experience as researchers and trainers. We have
adopted Bakhtin’s notions of subject and world; Larrossa’s experience
concept; and Benjamin’s narrative and advice notions. We have signaled
some analysis’ categories and learned lessons from the research on the
lived ones in the process of teacher training.
Keywords: Narrative inquiry. Experience. Teacher training.
Vivemos, pois, numa sociedade intervalar, uma
sociedade de transição paradigmática. Esta
condição e os desafios que ela nos coloca fazem
apelo a uma racionalidade ativa, porque em
trânsito, tolerante, porque desinstalada de certezas
paradigmáticas, inquieta, porque movida pelo
desassossego que deve, ela própria, potenciar.
(Boaventura de Sousa Santos, 2000, p.41)
INTRODUÇÃO
Há mais de duas décadas o recurso das narrativas vem sendo
usado na formação docente e na pesquisa. Essa temática entrou no
Brasil a partir de Nóvoa (1991, 1992) com as histórias de vida de
professores, seguido por Connelly e Clandinin (1995), entre outros.
O uso das narrativas como método de investigação ou de pesquisa
(aqui tratadas como sinônimos) decorre, em parte, da insatisfação
com as produções no campo da educação que se caracterizaram por
falar sobre a escola em vez de falar com ela e a partir dela. A crítica às
pesquisas realizadas sobre a escola e sobre professores se fortaleceu
no Brasil principalmente a partir dos anos de 1990, considerando-se a
separação entre professor e pesquisador acadêmico (GERALDI, C.;
FIORENTINI; PEREIRA, 1998).
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Consideramos que o modo como muitas pesquisas têm
caracterizado os profissionais da educação e o cotidiano da escola
é distante, enviesado e diferente dos modos de compreensão
e significação elaborados pelos próprios sujeitos pesquisados
(GERALDI, C., 2006). Genuinamente diferentes são os sentidos
produzidos pelas pesquisas em que os próprios sujeitos são autores
e coautores das narrativas. Em outras palavras, pesquisar sobre os
professores e pesquisar com os professores ou pesquisar na escola e
com a escola, resultam em estudos diversos.
Muitas pesquisas realizadas ainda hoje se valem de um
referencial teórico-metodológico que decorre da crença em uma
suposta objetividade capaz de conferir confiabilidade e autoridade à
medida que o pesquisador não se deixe envolver pela realidade que
pesquisa. Daí a importância atribuída aos instrumentos utilizados,
cuja neutralidade e cuja não orientação são geralmente pressupostas.
Acredita-se, com isso, ser possível assegurar uma maior validade aos
achados, evitando-se a “contaminação” dos dados pelo olhar do
pesquisador ou por seus horizontes, “deixados vazar” nas entrevistas,
nas perguntas que compõem um questionário, no ângulo que foca a
filmagem, nas entonações dos enunciados proferidos. Todo o esforço
é para evitar os encontros de palavras e contra palavras. Contudo,
é justamente o “cuidado” teórico-metodológico de o pesquisador
manter distância, objetividade e neutralidade que tem produzido
pesquisas nas quais os sujeitos cada vez menos se reconhecem uma
vez que suas práticas, seus saberes e fazeres se aproximam de uma
caricatura. Além disso, as conclusões produzidas por essas pesquisas,
consideradas consistentes pelo rigor teórico-metodológico, acabam
autorizadas a expor, julgar, criticar, formatar e prescrever práticas.
Os lugares de circulação de tais pesquisas restringem-se
às dissertações, às teses e aos periódicos1. Têm como destinatários
examinadores e pareceristas envolvidos com bancas, congressos
científicos e periódicos especializados. Em geral, os sujeitos investigados
têm um acesso a essas produções como “leitores potenciais” de revistas
e livros. Mas os resultados dessas pesquisas embasam os processos
de formação e incidem sobre os principais interessados – os sujeitos
que fazem a escola – como discursos autorizados dos formadores ou
como fundamentos na elaboração de políticas públicas.
A aproximação entre pesquisador e pesquisado, longe de
ser um mecanismo de “contaminação” da pesquisa, significa a
possibilidade de construção de outras compreensões acerca das
nossas experiências. Entre os modos de enfrentar o desafio das
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