Bioterrorismo e microrganismos patogênicosApresentação
Bioterrorismo e microrganismos patogênicos
FONTES
Bioterrorismo e microrganismos patogênicos
Bioterrorism and pathogenic microorganisms
SCHATZMAYR, Hermann G.; BARTH, Ortrud Monika. Bioterrorismo e
microrganismos patogênicos. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de
Janeiro, v.20, n.4, out.-dez. 2013, p.1735-1749.
Resumo
Hermann G. Schatzmayr
in memoriam
Ortrud Monika Barth
Pesquisadora do Laboratório de
Morfologia e Morfogênese Viral/
Instituto Oswaldo Cruz/Fundação
Oswaldo Cruz.
Av. Brasil, 4365/Pavilhão Hélio e
Peggy Pereira
21040-900 – Rio de Janerio – RJ
– Brasil
O uso de microrganismos patogênicos em atos de bioterrorismo é já há
algum tempo objeto de grande preocupação em vários países. O presente
trabalho apresenta a possível aplicação de vírus e bactérias para fins bélicos
e terroristas, bem como o diagnóstico laboratorial para a identificação
desses agentes. Foram salientados, entre outros, como agentes de infecções
humanas visando o bioterrorismo, os vírus da varíola (ortopoxvírus), os
de febres hemorrágicas e os pertencentes aos filovírus. Entre as bactérias
foram destacadas as do antrax (Bacillus anthracis), da peste (Yersinia pestis),
do botulismo (Clostridium botulinum) e da tularemia (Francisella tularensis),
incluindo ainda a ricina (Ricinus communis) como componente do grupo B
de agentes.
Palavras-chave: bioterrorismo; vírus; bactérias; diagnóstico laboratorial;
vacina.
Abstract
In recent years the use of pathogenic microorganisms in acts of bioterrorism
has been the subject of major concern in many countries. This paper presents a
possible application of viruses and bacteria for warfare and terrorist purposes, as
well as a laboratory diagnosis to identify those agents. The viruses of smallpox
(orthopoxvirus), of hemorrhagic fever and those belonging to filovirus have been
highlighted, inter alia, as agents of human infection with bioterrorist intent.
Among the bacteria, the emphasis has been on anthrax (Bacillus anthracis),
the plague (Yersinia pestis), botulism (Clostridium botulinum) and tularemia
(Francisella tularensis), not to mention ricin (Ricinus communis), as one of
the Group B agents.
Keywords: bioterrorism; viruses; bacteria; laboratory diagnosis; vaccine.
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-597020130005000016
v.20, n.4, out.-dez. 2013, p.1735-1749
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Hermann G. Schatzmayr, Ortrud Monika Barth
Apresentação
O uso de microrganismos patogênicos em atos de bioterrorismo tem preocupado cada
vez mais nações em todos os continentes. O presente trabalho procurou expor as possíveis
aplicações de vírus e bactérias com fins bélicos e terroristas, assim como as técnicas para o
diagnóstico laboratorial desses agentes. O convite para a elaboração do texto a Hermann
Gonçalves Schatzmayr, nome exponencial da virologia brasileira, e a sua esposa, Ortrud
Monika Barth, virologista também da Fundação Oswaldo Cruz partiu, em junho de 2006, de
Andrea Martiny, então bolsista no Laboratório de Microscopia Eletrônica do Instituto Militar
de Engenharia, em nome da Sociedade Brasileira de Microscopia e Microanálise (SBMM) e
da Rede Pólvora. Esta foi criada em 2001, por iniciativa de Wanderley de Souza, membro
fundador da SBMM, então secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro,
visando maior integração entre os mundos acadêmico e pericial. O livro seria lançado no
XXI Congresso da SBMM, a realizar-se em Búzios (RJ), em agosto de 2007, teria como título
Microscopia forense: aplicações para o estudo de evidências, e como objetivo, mostrar as
aplicações das diversas técnicas de microscopia no mundo pericial. Hermann Schatzmayr
faleceu em 21 de junho de 2010 sem que o livro fosse concretizado. Em homenagem a ele,
publicamos o texto inconcluso e inédito, uma vez que pode ser útil não apenas àqueles que
manejam técnicas de laboratório, mas também aos cientistas sociais interessados em conhecer
práticas e microrganismos que representam ameaças latentes à sobrevivência de humanos
e outros seres vivos.
A trajetória de Hermann Gonçalves Schatzmayr confunde-se com a da própria virologia
brasileira.1 Filho único de um relojoeiro austríaco e de uma descendente de portugueses nascida
no Espírito Santo, Hermann Schatzmayr (1936-2010) graduou-se em 1957 em medicina
veterinária na Universidade Rural do Rio de Janeiro (hoje Universidade Federal Rural do Rio
de Janeiro). Começou a estudar medicina na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro,
atual Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), mas logo descobriu que sua
vocação era a pesquisa em laboratório. Matriculou-se no curso de microbiologia ministrado
por Paulo de Góis na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) e durante um ano frequentou as aulas na praia Vermelha. Trabalhou lá por mais um
ano, como bolsista, num laboratório da universidade em que teve a oportunidade de estudar
a epidemia de influenza que grassou no Rio de Janeiro em 1957-1958.
Hermann conseguiu então uma bolsa para estagiar no Instituto de Higiene da Universidade
de Viena e lá estudou o vírus de encefalite do carrapato.
De volta ao Brasil, no início da década de 1960, retomou as atividades na UFRJ, mas logo
surgiu a oportunidade de ingressar no Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Joaquim Travassos
da Rosa, seu diretor, com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), montava um
laboratório de poliomielite, de cuja equipe Hermann passou a fazer parte a partir de junho
1
Esta sucinta biografia baseia-se em texto de Fernanda Marques, “Hermann Schatzmayr”, disponível em http://
www.agencia.fiocruz.br/hermann-schatzmayr. Ver também Hermann G. Schatzmayr, “Novas perspectivas em
vacinas virais” (História, Ciências, Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v.10, supl.2, p.655-669, 2003). Ver ainda
depoimento de Hermann Schatzmayr sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz, Departamento de Arquivo e
Documentação, acervo de “História da poliomielite e de sua erradicação no Brasil”.
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História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro
Bioterrorismo e microrganismos patogênicos
de 1961. Trabalhou no isolamento e identificação do vírus da pólio, na investigação de surtos
e da resposta à vacina oral Sabin, que começava a ser usada no Brasil.
Em 1965, Hermann casou-se com Ortrud Monika Barth, nascida na Alemanha e naturalizada brasileira, pesquisadora também do IOC, onde trabalhava seu pai, Rudolf Barth,
renomado zoólogo. Monika e Hermann viajaram para a Alemanha, ela com bolsa do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ele, da Fundação Humboldt.
Hermann defendeu tese sobre anticorpos naturais contra poliomielite às vésperas da viagem
de volta ao Brasil, em 1966.
No IOC, trabalhou na produção da vacina contra a varíola. Frequentou um curso oferecido
pela Organização Pan-americana da Saúde (Opas), em São Paulo, e recebeu treinamento nos
EUA para em seguida organizar, na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), um laboratório
dedicado à varíola, que funcionou a (...truncated)