Smallpox, an old foe
OPINIÃO OPINION 1525
A varíola, uma antiga inimiga
Smallpox, an old foe
Hermann G. Schatzmayr 1
1 Departamento de Virologia,
Abstract Smallpox has accompanied mankind for centuries, causing deaths and permanent le-
Instituto Oswaldo Cruz,
Fundação Oswaldo Cruz.
Av. Brasil 4365,
Rio de Janeiro, RJ
21040-360, Brasil.
sions. Used in the past as a biological weapon during wars, it has come into focus again precisely
because of this renewed possibility, although the disease has been eradicated in the Americas
since 1971 and worldwide since 1977. Data gathered during the eradication campaigns show
that the disease spread relatively slowly through close contacts between patients and susceptibles. Sub-clinical infection in non-vaccinated individuals was a rare event, and blockade vaccination surrounding new cases (as long as these cases were confirmed early) was able to prevent
the disease from spreading in the community. Even with only one dose, vaccinated individuals
rarely developed a serious case of the disease upon reinfection. The use of smallpox as a biological weapon should be considered a real possibility, although according to the available data,
highly virulent viral suspensions spread very close to the target population would be necessary
to infect a large number of persons.
Key words Communicable Disease Control; Bioterrorism; Smallpox
Resumo A varíola acompanhou o homem por muitos séculos, causando mortes e lesões graves e
irreversíveis. Usada como arma biológica em situações de guerra, volta a ser tema de discussão
no mundo exatamente por essa possibilidade, apesar de ter sido erradicada das Américas em
1971, e do mundo em 1977. Os dados acumulados durante as Campanhas de Erradicação, mostram que a infecção se disseminava com relativa lentidão, através de contato muito próximo do
receptor com o paciente. Infecções sub-clínicas em não-vacinados eram raras e vacinações de
bloqueio em torno de novos casos, desde que estes fossem identificados e confirmados com rapidez, eram capazes de impedir a disseminação da infecção. As transmissões indiretas através de
aerossóis eram menos comuns. Vacinados mesmo uma única vez, raramente apresentavam
doença grave, no caso de reinfecção. A possibilidade de uso do vírus da varíola como arma biológica deve ser considerada como real, apesar de, com base nos conhecimentos atuais, serem necessárias suspensões virais de alta potência, lançadas muito próximo das pessoas a serem atingidas
em grande número.
Palavras-chave Controle de Doenças Transmissíveis; Bioterrorismo; Varíola
Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 17(6):1525-1530, nov-dez, 2001
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SCHATZMAYR, H. G.
A varíola teria surgido na Índia, sendo descrita
na Ásia e na África desde antes da era cristã
(McNeill, 1976). Sua presença constante e o
medo que levava às populações geraram inúmeras lendas e cultos. Exemplos disso, são as
divindades representando a doença, tanto na
Índia como na África, esta última trazida para
o Brasil e que se apresenta sempre com o rosto
coberto, devido às cicatrizes causadas pela
doença em seu rosto. Introduzida na Europa já
na era cristã, a exemplo de outras doenças como a sífilis e a peste, a varíola atingia segmentos amplos da população, deixando um rastro
de mortes, cegueira e cicatrizes irreversíveis.
Usada como arma biológica pelos exércitos
de Cortez, no México, foi seguramente a principal responsável pela derrota dos astecas, que
não possuíam qualquer imunidade contra a
doença (McNeill, 1976). Ainda como arma biológica, foi utilizada por exércitos e colonizadores em suas lutas contra outras populações indígenas em várias regiões das Américas (Garrett, 1995).
No Brasil, a varíola foi referida pela primeira vez em 1563, na Ilha de Itaparica, na Bahia,
disseminando-se para Salvador e causando
grande número de casos e óbitos, principalmente entre os indígenas (MS, 1973a).
Passou à história, a prática milenar usada
na Ásia e na África, de se infectar pessoas sadias que se queria imunizar contra a varíola,
com material obtido de lesões de casos menos
graves da doença, técnica denominada variolização, certamente com a ocorrência de casos
graves em parte dos vacinados e a eventual
transmissão de outras doenças.
No final do século XVIII, Edward Jenner,
médico inglês, ao investigar em maior profundidade o fato de que ordenhadores, em contato com lesões de pele e úbere de bovinos, não
se infectavam com a varíola ou apresentavam
uma forma bem mais branda da doença, abriu
uma nova perspectiva de controle da mesma.
Com o material coletado dessas lesões, Jenner
escarificava a pele de pessoas a quem desejava
imunizar. A história registra o dia 14 de maio
de 1796, no qual Jenner coletou material de
uma lesão pustular nas mãos de uma ordenhadora de nome Sarah Nelmes e o inoculou na
pele de James Phillips, vacinando-o contra a
varíola (Fenner et al., 1989).
Apesar das críticas e receios com base em
convicções religiosas e filosóficas, bem como a
existência de efeitos colaterais, o medo da doença levou à rápida disseminação desta prática de
infeção voluntária, desde o início do século XIX.
Amostras de vírus utilizadas para vacinação chegaram ao Brasil em torno de 1840, tra-
Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 17(6):1525-1530, nov-dez, 2001
zidas pelo Barão de Barbacena, sendo utilizadas principalmente na proteção de famílias
nobres. Posteriormente, o cirurgião Barão de
Pedro Afonso, criou um Instituto privado para
o preparo de vacina anti-variólica no país, sendo mais tarde encarregado pelo governo de estabelecer o Instituto Municipal Soroterápico
no Rio de Janeiro, posteriormente, Instituto
Oswaldo Cruz (IOC).
Apesar de alguns sucessos isolados, vacinações mal organizadas nos países onde a varíola
era endêmica e vacinas de qualidade duvidosa
mantinham a doença nestas áreas como uma
terrível realidade. Em 1958, a então União Soviética apresentou uma proposta à Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra, no
sentido de se estabelecer uma campanha internacional para a eliminação da varíola no mundo. Naquela ocasião, a varíola ainda ocorria em
33 países (Fenner et al., 1988; Garrett, 1995).
A região das Américas foi pioneira na estruturação da sua campanha. No Brasil, entre 1967
e 1971, se executou a chamada fase de ataque,
com a vacinação sistemática de toda a população, alcançando-se um total de 81.745.290 vacinados, em outubro de 1971, sendo que, em
abril deste mesmo ano, havia sido diagnosticado o último caso no Brasil e nas Américas, na
cidade do Rio de Janeiro (MS, 1973a). Após a fase de ataque, se implantou uma vacinação dirigida a algumas regiões e à população de 0-4
anos, tendo como meta a vacinação de 90% deste grupo. Em 1972, vacinaram-se 5.487.710 e
em 1973, 5.701.521 pessoas de todas as idades,
mostrando o grande esforço realizado para se
impedir a volta da doença, que naqueles anos
ainda persistia na Ásia e na África (MS, 1973b).
A vacinação foi sendo gradualmente desativada ao longo dos anos seguintes e, em 19761977, foi interrompi (...truncated)